A Política como Culto Apocalíptico

Em tempos de desorientação, o ser humano recorre não à razão, mas ao rito. As recentes manifestações em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, espalhadas pelas ruas de cidades brasileiras, são menos atos políticos do que cerimônias de fé — uma fé degenerada, mas profundamente moderna, e por isso ainda mais perigosa. Aqueles que marcham vestidos de verde e amarelo, empunhando bandeiras dos Estados Unidos, Israel e do Império Brasileiro, não estão apenas expressando descontentamento: estão recriando uma liturgia secular em busca de transcendência.
Tal como John Gray descreveu em Missa Negra, o imaginário político moderno herdou da religião cristã suas estruturas mais profundas: o mito da queda, a esperança na redenção e a crença no juízo final. O bolsonarismo, como tantos movimentos populistas contemporâneos, é uma teologia disfarçada de política. Seus fiéis não pedem apenas anistia: eles pedem absolvição. Não pedem apenas a volta de um líder: pedem um messias que os salve da corrupção do mundo.
Esse impulso é familiar. Toda vez que um grupo humano se vê cercado por forças que não compreende — globalismo, instituições, tribunais — sua resposta instintiva é mitológica. Substitui fatos por símbolos, debates por orações, instituições por idolatria. Os protestos recentes revelam isso com clareza simbólica: não foram apenas manifestações de apoio político, foram missas públicas em nome de uma fé esfacelada, mas ainda pulsante.
Bandeiras americanas tremulando ao lado de cartazes contra o Supremo Tribunal Federal não expressam uma doutrina política coerente — expressam um desejo desesperado de restaurar uma ordem imaginária. O culto à soberania, à família, à autoridade, tudo embalado numa estética patriótica e cristã, não é novo. É a repetição, com sotaque tropical, do eterno retorno das utopias fracassadas.
O que torna essa fé especialmente tóxica é que, como demonstrado em Cachorros de Palha (também do John Gray), ela parte da ilusão de que a história tem direção e sentido. O bolsonarismo, assim como os projetos de esquerda que critica, acredita que há um fim desejável da história — e que ele pode ser atingido por meio de vontade política e purificação moral. Isso não é política; é apocalipse.
Os que clamam por “fim da ditadura do Supremo” ou pela anistia aos que participaram de uma tentativa de golpe não estão pedindo justiça, mas vingança. Não estão discutindo o destino de uma república, mas sonhando com a chegada de um reino. A política democrática é, para eles, apenas uma fase transitória no caminho para a restauração de uma ordem sagrada.
E como toda religião secular, essa também precisa de mártires. Os condenados do 8 de janeiro, transformados em vítimas injustiçadas, são celebrados não por seus atos, mas por seu sofrimento. É assim que o mito se alimenta: não da verdade, mas do ressentimento.
Nada disso deveria surpreender. Em Em Busca da Imortalidade (mais um livro do Gray), o autor observa como as sociedades contemporâneas substituíram Deus por ideais seculares — progresso, liberdade, identidade. E quando esses ideais falham, como sempre acontece, o vazio que resta é preenchido por simulacros de transcendência: líderes carismáticos, movimentos patrióticos, fantasias imperiais.
O Brasil, com sua tradição de messianismo político e sua vulnerabilidade histórica ao autoritarismo, é terreno fértil para essa ilusão. Mas não está só. O mesmo acontece nos Estados Unidos de Trump, na Hungria de Orbán, nas Filipinas de Duterte. A religião política é o vírus ideológico do nosso tempo — infeccioso, mutante, resistente à razão.
A verdadeira tragédia, porém, não está nos que marcham. Está naqueles que ainda acreditam que tudo isso é apenas uma questão de educação, de mais leitura, de debate racional. Como se o ser humano fosse, no fundo, um animal esclarecido esperando instrução. Como se fosse possível curar o fanatismo com livros de filosofia ou boas intenções democráticas.
Mas o ser humano não busca apenas compreensão: busca consolo. Busca sentido onde há apenas caos. Por isso, seguirá marchando. Seja ao som de trios elétricos ou dos cânticos religiosos, com cartazes, orações ou slogans. Porque no fundo, a política do século XXI é apenas isso: uma sucessão de cultos apocalípticos, cada qual prometendo o paraíso por meios cada vez mais infernais.
