A injustiça como estado natural

Os valores exibidos no coração de nossa vida política — salários exorbitantes, privilégios estruturais, uma escala de autoridade que beira o grotesco — não são exceção, mas a regra silenciosa do mundo moderno. No Brasil de 2025, políticos e juízes ocupam um lugar tão distante da condição do cidadão comum que é preciso encará-los como pertencentes a outro planeta. Não é que eles ganhem mais: eles habitam uma condição existencial diversa, uma sobrediferença que a linguagem política insiste em chamar de “recompensa pelo papel”.

O estudo do Índice de Disparidade Salarial 2025 revela que o presidente da República e deputados federais recebem cerca de 21 vezes a renda média da população — com valores que oscilam em torno de R$ 44 mil por mês, contra apenas R$ 2 069 de renda domiciliar per capita (v. GP1 e Estado de Minas). Mas esse é apenas o começo. O Judiciário, longe de conter a fúria dos privilégios, intensifica-a. Juízes federais chegam a amealhar até 23,5 vezes essa média, com rendas que ultrapassam em muito o teto constitucional quando incluídos penduricalhos e verbas indenizatórias (v. Revista Cenarium).

O que esses números sugerem? Que nossa sociedade está estruturalmente partida, erguida sobre bases que criam classes de humanos quase diferentes, separados por um abismo que a democracia afirma combater, mas sustenta. Não se trata, portanto, de um lampejo de corrução ou de corrupção consciente. Trata-se de uma arquitetura deliberada — construída ao longo de décadas, senão séculos — que inscreve a distinção salarial como rito político e como passaporte para a impunidade.

Imaginem: pessoas que detêm a soberania legal e legislativa sequer precisam dos serviços públicos que deveriam gerir. Suas vidas são estruturadas — e protegidas — por redes paralelas: planos de saúde privados, escolas exclusivas, segurança reforçada, a distância que lhes permite legislar e julgar sobre vidas que lhes são estranhas. Esse distanciamento não é apenas prático: é epistemológico. Como legislar sobre o drama alheio quando se não o vivencia? Quando, como diz o diretor-executivo do Livres, “há potencial de corroer a crença nas instituições da democracia representativa”(v. Política Livre)?

O Brasil, nesse diagnóstico internacional, surge como um caso extremo. Ao comparar-se com vizinhos como Argentina (cujo presidente ganha cerca de 9,2 vezes a média) ou Chile (13,7 vezes), vemos que nossa disparidade não é apenas maior: é anômala, um excedente moral que nos confronta com a própria ideia de justiça. Quer dizer: mesmo estruturas comparáveis de poder produzem resultantes muito diferentes, dependendo da relação entre o público e seus guardiões.

A lógica que governa esse sistema reprodutivo de privilégios é simples e trágica: quem indexa seu sustento ao Estado não depende dele; quem depende dele é excluído do diálogo decisório. Ao passo que o cidadão comum luta para acessar hospitais, escolas e transporte, o alto funcionalismo usufrui de um conjuro inverso — ganha ócio institucional, imunidade social, a habilidade de regulamentar enquanto se preserva da realidade. Uma violência silenciosa que se projeta na distância entre existir e mandar existir.

E a natureza jurídica desse privilégio é cuidadosamente camuflada na fala pública: é o “teto constitucional”; é o “nível de responsabilidade”; é a remuneração de carreira. Mas a jurisprudência da discriminação salarial não está nos tribunais — está no cotidiano, no homem que paga imposto, na mulher que espera atendimento e vê sua experiência pessoal ignorada. A desigualdade salarial vale muito mais do que dinheiro: ela estrutura quem conta, quem vê, quem participa da política. Por isso, como observa Magno Karl, atinge o que é talvez mais frágil de uma sociedade: sua crença em uma representação legítima.

Não se trata, também, de uma falha pontual de política pública, mas de um construto sistemático: o privilégio inscrito em leis, cotas de gabinete, auxílios-moradia, previdências especiais, legislação que protege esses rendimentos da rigidez do controle fiscal e democrático. O que vemos é a legitimação institucional da desigualdade: os mecanismos que deveriam corrigir — transparência, controle orçamentário, escrutínio público — foram cooptados para reproduzir a imoralidade institucional. O privilégio torna-se, assim, uma norma, e o escândalo, uma reverência disfarçada.

A ironia feroz é que parte de nossa elite institucional ainda cobra “merecimento” ao público que não vive com o mesmo orçamento, argumenta que recebe mais porque carrega maior responsabilidade — mas jamais explicita em que consiste essa “responsabilidade” diária enfrentada pelos políticos que dormem em quartos com vista de Brasília e desdenham da escola pública. Aí moram não apenas os supersalários, mas o cinismo institucional, a dissonância entre a retórica da república e a prática da separatividade.

Mesmo as vozes dissonantes — estudiosos como Cibele Franzese — apontam que não há evidência de que os altos salários prejudiquem a qualidade dos serviços públicos. A raiz da crise não é a ineficiência per se, mas a profunda ruptura de legitimidade: quando o governante está fora da arena comum, fica difícil crer que ele representa o real, que legisla sobre aquilo que vive, que entende o ordinário da maioria.

Em última análise, esse é o cerne da crise moderna do Estado representativo: a governança não deveria produzir uma casta apartada, mas uma espinha dorsal que reflete e responde às tensões civis. O eclipse dessa função central tem nome: desigualdade salarial extremo-élite. E não se apaga com discursos bonitos sobre caráter democrático, nem com programas pontuais. Exige-se uma revolução silenciosa dos valores, ou será ela falsa esperança.

Pois a questão colocada pela injustiça não é “como consertar um pouco”, mas “como voltar a pensar que existimos juntos, como pertencentes ao mesmo mundo”? O Brasil de 2025 parece, mais do que nunca, um ensaio de cínica disparidade: e, ao olhar esse espelho, entendemos que o problema não está em consertar pedaços soltos, mas em reconstruir por inteiro aquilo que ignoramos por tempo demais.


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