A DIREITA COMEÇA A DESCOBRIR O TAMANHO DA PRÓPRIA DEPENDÊNCIA —Thomas Leuri Souza

Talvez a maior crise enfrentada hoje pelo bolsonarismo já não esteja apenas nas investigações, nos áudios divulgados ou no desgaste jurídico acumulado nos últimos anos.

Talvez a crise tenha começado a atingir algo muito mais profundo: a própria capacidade de sustentação política da direita brasileira fora da figura da família Bolsonaro.

Os primeiros sinais apareceram imediatamente nas pesquisas.

Levantamentos recentes do Datafolha e da AtlasIntel captaram um movimento que passou a preocupar setores importantes do campo conservador. Flávio Bolsonaro, que vinha sendo apresentado por parte da direita como uma alternativa eleitoralmente mais viável para 2026, começou a perder apoio justamente nos segmentos considerados estratégicos para o bolsonarismo.

No Datafolha, o senador caiu de 35% para 31% nas intenções de voto de primeiro turno. Lula subiu de 38% para 40%, ampliando a diferença entre ambos para nove pontos percentuais.

Mas o dado mais delicado talvez esteja na composição dessas perdas.

Entre evangélicos, Flávio Bolsonaro caiu de 49% para 42%. Entre jovens adultos de 25 a 34 anos, perdeu 11 pontos. No Sul do país, um dos territórios historicamente mais favoráveis ao bolsonarismo, despencou de 48% para 35%.

O movimento mais preocupante para a direita, no entanto, apareceu dentro da própria base.

Entre bolsonaristas moderados, Flávio caiu de 53% para 40% em apenas uma semana.

Ou seja: o desgaste deixou de acontecer apenas entre adversários políticos. A erosão começou a atingir o núcleo que sustentava a própria viabilidade eleitoral do grupo.

A AtlasIntel reforçou ainda mais esse cenário.

Entre eleitores evangélicos, Flávio Bolsonaro caiu de 65,4% para 50,9%, uma perda de quase 15 pontos percentuais. Lula, simultaneamente, avançou de 14% para 25% no mesmo segmento.

O dado possui enorme peso político.

Os evangélicos se transformaram, nos últimos anos, em uma das principais reservas estratégicas do bolsonarismo. Mais do que uma base eleitoral, tornaram-se um eixo central de sustentação simbólica e ideológica da direita brasileira.

Por isso, a perda de apoio nesse segmento ultrapassa a simples oscilação numérica das pesquisas. Ela começa a atingir diretamente uma narrativa construída pela oposição nos últimos meses.

Parte importante da direita tentava apresentar Flávio Bolsonaro como uma versão politicamente mais administrável do bolsonarismo tradicional: menos explosiva, menos confrontacional e potencialmente mais viável eleitoralmente.

A crise recente abalou exatamente essa tentativa de reconstrução de imagem.

E existe uma consequência política ainda mais ampla.

O desgaste de Flávio Bolsonaro atinge diretamente setores da direita que apostaram na aproximação com o bolsonarismo como estratégia para 2026. Na Bahia, isso impacta especialmente movimentos políticos ligados ao entorno de ACM Neto, onde parte da oposição buscava legitimar essa aproximação sob a lógica de uma composição eleitoral pragmática.

Mas a deterioração da imagem do senador começa a tornar essa operação mais delicada.

A crise deixa de ser individual e passa a contaminar setores inteiros do campo oposicionista.

Enquanto isso, Lula começa a apresentar sinais discretos de recuperação política.

No próprio Datafolha, aprovação e desaprovação do presidente chegaram numericamente empatadas em 48%. Na AtlasIntel, a avaliação negativa também registrou queda.

Ainda é cedo para afirmar mudança definitiva de tendência. Mas os números começam a sugerir uma reorganização do cenário político justamente no momento em que a oposição enfrenta um de seus períodos de maior instabilidade desde 2022.

O governo percebeu isso rapidamente.

Nos últimos meses, o Palácio do Planalto intensificou presença digital, ampliou enfrentamentos políticos nas redes sociais e passou a explorar publicamente as contradições internas do campo bolsonarista.

E talvez esteja exatamente aí um dos maiores problemas da direita brasileira.

Depois de anos organizando quase toda sua estrutura política em torno da liderança da família Bolsonaro, setores importantes do conservadorismo começam agora a perceber o tamanho da própria dependência.

Porque construir uma oposição baseada quase exclusivamente em uma única família política produz um efeito inevitável: quando a imagem central entra em crise, todo o entorno começa a perder estabilidade junto.

A direita brasileira passou anos apostando que conseguiria transformar o bolsonarismo em um movimento político permanente. Mas talvez esteja começando a descobrir que movimentos construídos em torno de lideranças personalistas enfrentam enorme dificuldade para sobreviver quando o desgaste alcança o próprio núcleo da liderança.

E é justamente nesse ponto que surge a pergunta mais delicada para 2026.

Se o bolsonarismo começar a perder capacidade de mobilização dentro da própria base, quem ocupará o espaço político construído ao redor dele nos últimos anos?


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