A Adultização da Infância e a necessidade de regulação

O presidente da Câmara anunciou a votação de um projeto contra a adultização de crianças nas redes sociais. A medida foi apresentada como resposta urgente a um escândalo de exploração infantil, revelado por um influenciador e transformado em espetáculo coletivo. Como sempre, a indignação pública exige velocidade. E, como sempre, a pressa não diminui a confusão — apenas a disfarça.

O instinto é compreensível. Quando o sofrimento atinge crianças, a tolerância se esgota. Mas a pressa em proteger não elimina o dilema: cada nova lei é apenas outro remendo, que logo se mostrará insuficiente.

Os defensores da proposta falam em proteger menores, responsabilizar plataformas, fechar brechas. A retórica é nobre, mas a realidade é previsível: parte do abuso será contida, enquanto outras formas surgirão. A infância continuará exposta a perigos que não podem ser legislados. Ainda assim, a tentativa é inevitável. Ignorar seria mais brutal do que falhar.

A oposição teme censura. Está certa em desconfiar do Estado, mas se esquece de que, sem alguma forma de intervenção, as redes continuarão funcionando como mercados abertos para a exploração. Entre censura e omissão, não há solução limpa. Há apenas a escolha de qual risco se prefere carregar.

Cada tecnologia prometeu emancipação e terminou entregando novas vulnerabilidades. A diferença, agora, é que crianças estão na linha de frente. Adultos podem reivindicar liberdade; crianças não. Quando a liberdade absoluta dos mais fortes se confunde com a exposição dos mais frágeis, não há equilíbrio possível. O que se chama de proteção é, na prática, apenas a tentativa de reduzir o dano.

Idealizamos a infância como pureza, mas não porque seja pura — e sim porque precisamos acreditar nisso para justificar o esforço de protegê-la. Esse cuidado não nasce de progresso moral. Nasce de instinto: mesmo sociedades desencantadas sabem que deixar crianças ao acaso seria um fracasso intolerável.

A verdade é que nenhuma lei salvará a infância daquilo que criamos. As redes sociais, como toda invenção técnica, escaparão ao nosso controle. Mas isso não nos absolve. A obrigação de proteger permanece, mesmo sabendo que falharemos. O cuidado com as crianças não é sinal de otimismo: é apenas o reconhecimento de um limite que não podemos transgredir sem perder de vez o que ainda chamamos de humanidade.

Sobre o autor

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José Fagner Alves Santos é jornalista (MTB 0074945/SP), formado em Letras. Mestre em Educação, Doutor em Literatura. Fã de Ernest Hemingway, Tom Wolfe, Gay Talese, Hunter Thompson, John Hersey e Eliane Brum. Faz um arremedo de jornalismo literário. Publica sempre às segundas aqui no Editoria Livre e apresenta o podcast que é publicado às quartas. Colabora com o Portal Café Brasil.


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