100 dias de gestão Laryssa Dias: entre números, promessas e uma pergunta no ar — Thomas Leuri Souza

Ipiaú, 100 dias depois

Na manhã de terça-feira, 15 de abril, a prefeita de Ipiaú, Laryssa Dias, reuniu sua equipe de secretários e representantes da imprensa para prestar contas dos primeiros 100 dias de sua gestão. Em meio à formalidade do evento, um tom de entusiasmo pontuou a apresentação: dados, iniciativas, programas e uma sensação latente de que algo está se movimentando. Mas, por trás das cifras e dos feitos, a cidade se debruça sobre a interrogação que paira como neblina sobre o gabinete da prefeita: A prefeita Laryssa Dias supera as críticas e surpreende com grandes feitos em tempo recorde de 100 dias?

Educação: um carro-chefe em ascensão

No coração do discurso da gestora, a educação surge como prioridade indiscutível. Os números apresentados falam por si: mais de 6 mil alunos matriculados na rede municipal, 1.500 deles em escolas de tempo integral — um formato que oferece, além do ensino regular, reforço escolar, esportes, arte, cultura e quatro refeições diárias.

A aposta em tempo integral se apresenta como medida estratégica. Além de garantir segurança alimentar e permanência dos alunos na escola, visa dar suporte a famílias em situação de vulnerabilidade, permitindo que pais e mães trabalhem com mais tranquilidade. Há, no entanto, um desafio latente: a ampliação do modelo para toda a rede, o que exigirá recursos, planejamento de longo prazo e, sobretudo, continuidade.

Outro destaque é o investimento em segurança, com instalação de câmeras em 30 unidades escolares. Na esfera da formação de jovens e adultos, os cursos profissionalizantes ligados ao EJA prometem qualificação com certificação nacional, através de parcerias com o SENAI. A iniciativa contempla áreas como eletricista, costureira, padeiro, confeiteiro e mecânico de refrigeração.

Ainda no setor, a prefeita anunciou a criação do programa “Rota Universitária”, com recursos próprios da Prefeitura — um aporte de mais de R$ 1 milhão por ano para subsidiar o transporte de estudantes até municípios vizinhos, como Jequié, Itabuna e Ilhéus. Um investimento ousado, considerando-se a não obrigatoriedade legal do município neste tipo de custeio.

Entretanto, o maior desejo da gestão é mais ambicioso: trazer cursos de Direito e Medicina Veterinária para o campus da UNEB-Campus XXI em Ipiaú. Um pleito que depende do Governo do Estado e de articulações políticas mais amplas, mas que sinaliza uma visão voltada à fixação de talentos na cidade.

Mas talvez o ponto mais simbólico, pela sua abordagem social, seja o programa “Escola com a Família”. A proposta busca reaproximar pais e responsáveis do ambiente escolar, promovendo maior integração entre comunidade e aprendizado. É, no mínimo, uma tentativa interessante de reconstruir os laços entre o que se aprende dentro e fora da sala de aula.

Saúde: mutirões, números expressivos e vigilância constante

Na área da saúde, a prefeita apresentou uma série de dados robustos: mais de 4.400 atendimentos realizados em mutirões, 3.972 atendimentos individuais na atenção primária e quase 10 mil consultas médicas registradas nos primeiros três meses do ano. A funcionalidade do raio-X no próprio Complexo de Saúde é apontada como conquista, assim como os mutirões de mamografia e os atendimentos aos finais de semana.

O transporte de pacientes, segundo a gestora, somou 2.100 viagens para cidades como Feira de Santana e Vitória da Conquista. Há também a criação de programas específicos, como o voltado para pessoas com fibromialgia — já com 196 pacientes em acompanhamento, majoritariamente mulheres.

Na prática, esses dados revelam um sistema que busca expandir acesso e eficiência. No entanto, a constante demanda por serviços especializados fora do município ainda escancara um gargalo estrutural: a falta de uma rede de alta complexidade em Ipiaú, que siga além dos atendimentos primários e mutirões.

Assistência Social: alimento, acolhimento e autonomia

A frente da assistência social apresentou uma pauta diversificada. Foram 12 mil cestas básicas entregues a famílias em situação de vulnerabilidade, mais de 600 famílias atendidas com o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) com recursos próprios e 8 toneladas de peixe previstas para distribuição na Semana Santa.

A política habitacional também marca presença, com a continuidade do programa de aluguel social e a liberação de recursos no valor de R$ 1,8 milhão por unidade para a construção de duas novas “unidades de saúde” — expressão que, apesar de incomum no vocabulário técnico da política social, parece apontar para novos espaços de convivência ou suporte social.

A inauguração do CRAS do bairro Emburrado, com estrutura moderna, serviços de psicologia e atividades como balé, hidroginástica e capoeira, mostra uma aposta no fortalecimento da rede de proteção básica, com uma visão ampliada do cuidado. Há ainda o projeto “Elas em Ação”, voltado ao empreendedorismo feminino, num aceno à autonomia econômica como estratégia de enfrentamento à vulnerabilidade social.

Infraestrutura e Urbanismo: o chão sob os pés

Os investimentos em infraestrutura somam mais de R$ 2,5 milhões, aplicados em pavimentação, drenagem, requalificação de vias e serviços de limpeza urbana. O esforço cobre tantas áreas urbanas quanto rurais, o que demonstra um olhar territorial mais abrangente. No entanto, a amplitude dos dados exige cautela: não foram detalhadas as localidades atendidas nem os critérios de escolha. O zelo anunciado pela prefeita não encontra, por ora, correspondência em indicadores técnicos públicos de impacto.

Comunicação e presença nos bairros

A estratégia de comunicação da gestão tem sido marcada por ações itinerantes, como o projeto “Prefeitura nos Bairros”. O modelo visa aproximar o poder público da população, com a presença da equipe administrativa em diferentes comunidades, ouvindo demandas, sugestões e reclamações in loco. Essa política, embora elogiável em intenção, carrega o desafio de manter regularidade, efetividade e respostas concretas às demandas recolhidas — sob pena de virar apenas um ato simbólico.

Uma gestão em construção

A prefeita Larissa ao centro, cercada por membros da sua gestão

É impossível ignorar que a prefeita Laryssa Dias iniciou seu governo sob olhares céticos. Jovem, mulher e figura emergente no cenário político local, ela tem enfrentado resistência de grupos tradicionais e de parte da opinião pública. Em meio a esse contexto, os primeiros 100 dias foram apresentados com entusiasmo, números volumosos e projetos em andamento.

Há avanços? Sim. Há promessas ambiciosas? Também. O tempo, contudo, será o verdadeiro juiz das intenções agora anunciadas.

Resta saber se os pilares lançados nestes primeiros meses sustentarão uma política pública sólida, duradoura e transformadora — ou se se tratarão de estruturas temporárias, como andaimes erguidos às pressas para impressionar plateias.

Enquanto isso, a pergunta ecoa pelos corredores da cidade, pela imprensa e, quem sabe, pela própria prefeita diante do espelho: A prefeita Laryssa Dias supera as críticas e surpreende com grandes feitos em tempo recorde de 100 dias?

Por Thomas Leuri Souza — Para o site Editoria Livre


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