1,1 MILHÃO DE ANALFABETOS: A CONTA HISTÓRICA QUE A BAHIA AINDA PRECISA PAGAR

Imagem editorial sobre o analfabetismo na Bahia, representando os desafios educacionais do estado, com elementos simbólicos ligados à leitura, escrita, escola e desigualdade social.
Dados do IBGE revelam que a Bahia é o único estado brasileiro com mais de 1 milhão de pessoas analfabetas. O número expõe uma dívida histórica da educação e os desafios para garantir o direito à leitura e à escrita.

Por: Thomas Leuri Souza

Existe um tipo de desigualdade que não aparece nas grandes obras, nos discursos de desenvolvimento ou nas estatísticas que celebram avanços econômicos.

Ela aparece no silêncio de quem não consegue ler.

No constrangimento de quem precisa pedir ajuda para compreender uma informação simples.

Na impossibilidade de escrever a própria história com as próprias mãos.

É esse Brasil invisível que os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam quando mostram que a Bahia possui 1,1 milhão de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler nem escrever.

A Bahia é o único estado brasileiro a ultrapassar a marca de 1 milhão de analfabetos.

Um dado que não representa apenas uma posição em um ranking nacional.

Representa uma dívida histórica.

Porque por trás de cada número existe uma trajetória.

Existe uma pessoa que trabalhou.

Que construiu uma família.

Que ajudou a movimentar a economia.

Que participou da construção da sociedade.

Mas que, em algum momento da vida, teve negado um direito básico: o acesso pleno à educação.

A Bahia é um estado conhecido pela sua força cultural.

Pela música.

Pela literatura.

Pela arte.

Pela capacidade de influenciar a identidade brasileira.

É uma terra que sempre produziu grandes vozes.

Mas os dados revelam uma contradição profunda:

Um estado que ajudou o Brasil a contar tantas histórias ainda possui milhões de pessoas que não tiveram garantido o direito de ler e escrever a própria história.

E talvez o maior erro seja olhar para esse problema como uma falha individual.

O analfabetismo não nasce da falta de capacidade.

Não nasce da falta de inteligência.

Ele nasce, muitas vezes, da falta de oportunidade.

Nasce de um país onde milhões de pessoas cresceram em contextos nos quais a escola não chegou no tempo necessário.

Onde o trabalho, a pobreza e as dificuldades sociais ocuparam espaços que deveriam ter sido preenchidos pela educação.

Durante muito tempo, muitos brasileiros não escolheram ficar longe dos livros.

Eles foram afastados deles.

E essa diferença precisa ser compreendida.

Porque transformar uma desigualdade histórica em responsabilidade individual é uma das formas mais cruéis de esconder o problema.

Os dados do IBGE mostram também que o analfabetismo na Bahia possui uma marca evidente: ele alcança principalmente as gerações mais velhas.

Dos 1,1 milhão de analfabetos baianos, 718 mil têm 60 anos ou mais.

Esse grupo representa 62,7% do total.

Entre os idosos, a taxa de analfabetismo chega a 28,5%.

Na prática, quase um em cada três idosos baianos não sabe ler nem escrever.

São pessoas que trabalharam durante décadas.

Que sustentaram famílias.

Que ajudaram a construir comunidades.

Que fizeram parte da história econômica e social do estado.

Mas que carregam uma ausência que não foi causada por falta de esforço.

Foi resultado de um país que demorou a garantir educação como direito efetivo para todos.

A diferença entre a Bahia e o restante do Brasil reforça a dimensão do desafio.

Enquanto o país alcançou em 2025 a menor taxa de analfabetismo registrada pelo IBGE, com 4,9%, a Bahia permanece com 9,5%.

Quase o dobro da média nacional.

Entre pessoas com 25 anos ou mais, o índice baiano chega a 11,6%, enquanto o Brasil registra 5,8%.

Entre aqueles com 40 anos ou mais, a distância permanece:

16,3% na Bahia contra 8,3% no país.

Esses números mostram que a redução do analfabetismo avançou, mas também revelam que os avanços não alcançaram todos os territórios da mesma maneira.

A educação brasileira tem uma história marcada por conquistas, mas também por atrasos.

E alguns estados ainda carregam as marcas mais profundas desse passado.

O problema é que o analfabetismo não termina na dificuldade de ler uma palavra.

Ele influencia toda uma trajetória.

Afeta o acesso ao mercado de trabalho.

Dificulta a compreensão de direitos.

Limita oportunidades.

Reduz possibilidades de participação social.

Porque a leitura não é apenas uma habilidade escolar.

É uma ferramenta de autonomia.

Quem lê consegue interpretar o mundo.

Quem escreve consegue registrar sua existência nele.

Por isso, discutir analfabetismo é discutir cidadania.

É discutir desenvolvimento.

É discutir qual futuro queremos construir.

A Bahia não pode tratar esse dado apenas como uma estatística anual divulgada por uma pesquisa.

Porque estatísticas são frias.

Mas as histórias por trás delas são humanas.

Cada percentual representa uma vida.

Cada número representa uma trajetória que poderia ter sido diferente se as oportunidades tivessem chegado no momento certo.

A grande pergunta que permanece não é apenas quantas pessoas ainda não sabem ler e escrever.

A pergunta é:

Quantas histórias foram adiadas porque a educação não chegou?

A Bahia tem uma dívida histórica com milhões de pessoas que ficaram fora das letras.

E pagar essa conta não significa apenas reduzir um índice.

Significa garantir que ninguém mais precise passar uma vida inteira construindo o mundo sem ter tido o direito de compreendê-lo plenamente.

Porque uma sociedade que quer construir o futuro precisa primeiro garantir que todos possam ler o presente.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.