“Pai, o tio Lucas chegou! O tio Lucas chegou. ”, gritava Murilo enquanto descia a rua correndo em direção à sua casa. Muita gente colocou a cabeça para fora da janela tentando ver o que acontecia. Lucas era o irmão mais jovem do seu João, pai do Murilo. Ele morava na capital paulista havia alguns anos. Tinha se mudado em meados dos anos 1970 e, vez por outra, voltava no período de férias para visitar a família.

Lucas vinha descendo a ladeira trajando uma cacharrel em conjunto com uma calça de veludo. Usava cabelo blackpower. Suas costeletas emendavam no bigode. Seu visual era claramente inspirado nos astros do blaxploitation. Trazia uma mochila gigante nas costas, na mão esquerda uma sacola menor e na direita um caixa azul que ele segurava pela alça.

Mesmo que o Murilo não tivesse feito alarde, seu tio chamaria a atenção dos moradores de toda a cidade. Acredito que ele estivesse sendo foco de muitos olhares desde o momento em que desceu do ônibus. Aquelas roupas não combinavam com nosso clima de meados de dezembro. A cabeleira e o bigode eram “descolados” demais, modernos demais. A caixa azul que ele segurava pela alça era, como descobriríamos depois, uma Vitrola Sonata Philips, uma espécie de toca discos portátil que trazia o alto falante na tampa.

As sonatinhas, como eram popularmente conhecidas, fizeram muito sucesso durante as décadas de 1960 e 1970. Em dezembro de 1984 elas já não eram novidade na maior parte do mundo. Na região da Zona da Mata, no entanto, representavam o sucesso de quem havia vencido em São Paulo. Era preciso ostentar uma vitrola portátil e uma calça de veludo se quisesse mostrar para seus conterrâneos que estava prosperando na meca dos nordestinos.

O tio do Murilo era apenas o primeiro de muitos que a cidade esperava para as festas de fim de ano. Já naquele período tínhamos quase um terço dos nascidos em Ipiaú morando em diferentes cidades de diferentes regiões do País. A verdade é que o grosso dessas pessoas estava no estado de São Paulo. Esse processo migratório havia começado ainda no governo de Getúlio Vargas.

Em 13 de maio de 1888, quando foi assinada a Lei Aurea, surgiu uma preocupação da elite branca brasileira sobre o que seria feito dos negros libertos. Naquele período o contingente de negros e mulatos já passava de 60% da população nacional. Estava em voga, desde meados do século XIX, a teoria eugenista da superioridade do branco europeu em relação às outras etnias. No Brasil nós tínhamos a teoria do embranquecimento, tese defendida por intelectuais como João Baptista de Lacerda. Médico e antropólogo, Lacerda acreditava que o povo brasileiro ficaria mais branco a cada nova geração por causa de suas características miscigenatórias e da suposta superioridade de nossa ascendência europeia.

Durante o Congresso Universal das Raças, acontecido em Paris no ano de 1911, Lacerda apresentou o artigo “Sur les métis au Brésil” (Sobre os mestiços do Brasil). A relação entre etnia e desenvolvimento social e tecnológico era assunto de muito interesse à época.

A população mista do Brasil deverá ter pois, no intervalo de um século, um aspecto bem diferente do atual. As correntes de imigração europeia, aumentando a cada dia mais o elemento branco desta população, acabarão, depois de certo tempo, por sufocar os elementos nos quais poderia persistir ainda alguns traços do negro.”, escreveu Lacerda em seu artigo.

O processo de branqueamento já vinha acontecendo desde que os negros foram expulsos das fazendas em que serviam como escravos. Logo depois da abolição os fazendeiros começaram a substituir a mão de obra escrava pela do europeu que migrava para o Brasil. Mesmo o brasileiro com características mais europeias ficava de fora do mercado de trabalho por causa dessa preferência pelo europeu. Para tentar resolver esse problema que já vinha se arrastando havia anos, o governo de Getúlio Vargas criou, em 12 de dezembro de 1930, o Decreto nº 19.482 que reservava vagas para brasileiros nas empresas. De cada três funcionários empregados no país, dois deveriam ser brasileiros natos.

É nesse período que começa a primeira grande migração de nordestinos para outros estados brasileiros, em especial para o Rio de Janeiro e São Paulo.

Migrações já existiam, é verdade. Basta lembrar que no ano de 1919 o governo do Estado de São Paulo “chegou a mandar uma missão para o Ceará, para recrutar mão de obra”, segundo escreveu Sueli de Castro Gomes, pesquisadora do Departamento de Geografia da USP, em seu artigo, “Uma inserção dos migrantes nordestinos em São Paulo: o comércio de retalhos”. Mas é no governo Vargas que isso se oficializa.

Estima-se que em 1939 ingressaram no Estado de São Paulo 100 mil nordestinos e mineiros. Lucas era apenas mais um representante numa fase em que os números já nem eram tão expressivos.

Quando desci a ladeira, levado pelo Murilo, seu tio estava com a sonatinha ligada a uma extensão e posta em cima da calçada, tocando um compacto de Jessé, com a música Porto Solidão – uma canção um tanto cafona que fizera sucesso em 1980, mas que o “tio Lucas” fazia questão de nos apresentar como se fosse algo novo.

Aquele seria um longo verão.

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