O debate que falou muito — e disse pouco

No primeiro confronto entre os candidatos ao Governo da Bahia, Jerônimo Rodrigues e ACM Neto preferiram medir o risco. Quando a temperatura subiu, foi pela identidade, pela segurança e pelo velho repertório da política baiana.
Por: Thomas Leuri Souza | Editoria Livre
O primeiro debate entre os candidatos ao Governo da Bahia terminou como começou: com a sensação de que faltou alguma coisa.
Não necessariamente confronto.
Confronto houve.
Faltou novidade.
Promovido pela Band neste domingo, 9 de agosto, o encontro colocou frente a frente os principais nomes da disputa: o governador Jerônimo Rodrigues, candidato à reeleição; o ex-prefeito de Salvador ACM Neto; e Ronaldo Mansur, do PSOL. A emissora havia definido o dia 9 de agosto como a abertura de sua temporada de debates para os governos estaduais.
O problema é que os dois protagonistas passaram boa parte da noite fazendo aquilo que candidatos experientes sabem fazer muito bem:
Atacar sem se expor demais.
Jerônimo e Neto se encontraram, mas não chegaram a se enfrentar com a intensidade que a disputa pelo Palácio de Ondina faria supor.
A eleição está apertada. A pesquisa Genial/Quaest divulgada em 29 de julho colocava ACM Neto com 39% e Jerônimo com 38% no primeiro turno — empate técnico dentro da margem de erro de três pontos.
Talvez seja justamente por isso que nenhum dos dois tenha demonstrado interesse em correr riscos desnecessários.
Em eleições equilibradas, às vezes o silêncio também é estratégia.
Quando a política entrou pela porta da identidade
O momento mais agudo da noite veio de uma discussão que começou na BR-324 e terminou em outro lugar: na origem de Jerônimo.
Ao responder a uma crítica de ACM Neto, o governador afirmou que a maneira como é tratado estaria relacionada à sua origem.
“Você me trata assim porque a minha origem é indígena, sou negro, sou filho de vaqueiro.”
A fala foi confirmada por diferentes relatos sobre o debate e ganhou repercussão imediatamente após o programa.
Foi o instante em que o debate deixou de ser apenas uma disputa entre dois governos e passou a tocar em uma questão mais profunda da política baiana: quem fala com quem, de onde fala e quais marcas sociais entram na disputa pelo poder.
Jerônimo também associou o comportamento atribuído a Neto a uma tradição política que considera autoritária, recorrendo à imagem do “chicote”.
Neto não encontrou ali o mesmo espaço para uma resposta que deslocasse a discussão.
E talvez esse tenha sido o ponto mais significativo da noite.
Não houve uma ruptura.
Houve apenas uma fresta.
Neto escolheu a ferida conhecida
Se Jerônimo encontrou sua principal arma na identidade, ACM Neto encontrou a dele em um tema que conhece o caminho até o eleitor: segurança pública.
Ao questionar o governador sobre as mortes violentas na Bahia, Neto abandonou por alguns instantes a linguagem administrativa e foi direto ao sentimento:
“O seu coração não dói?”
A frase funcionou porque não exigia estatística para ser compreendida.
Segurança é uma questão de números, mas também é uma questão de medo.
É o caminho mais curto entre a política e a experiência cotidiana de quem fecha a porta de casa, atravessa uma rua ou volta do trabalho à noite.
Neto sabe disso.
E voltou ao tema que aparece também entre os principais pontos de vulnerabilidade eleitoral do governo.
Na pesquisa Genial/Quaest, Jerônimo aparece com 40% de rejeição, contra 33% de ACM Neto. Ao mesmo tempo, a aprovação do governo estadual alcança 57%.
É uma combinação politicamente curiosa:
o governo tem aprovação, mas o governador carrega rejeição alta.
É nesse espaço que uma campanha tenta crescer.
Mansur tentou outra televisão
Ronaldo Mansur procurou um caminho diferente.
Enquanto os dois principais candidatos disputavam a memória política da Bahia, o candidato do PSOL tentou disputar a memória das redes.
Frases curtas.
Provocações.
Momentos pensados para circular depois do debate.
É uma estratégia compreensível em uma eleição na qual um candidato com menor intenção de voto precisa, antes de tudo, tornar-se reconhecível.
Mas há uma diferença entre produzir um momento viral e ocupar o debate.
Mansur conseguiu chamar atenção.
Ainda precisa provar que consegue transformar atenção em presença eleitoral.
O que não entrou no debate também fala
Talvez o silêncio mais interessante da noite tenha vindo dos assuntos que não apareceram.
Banco Master.
Operação Overclean.
Dois temas que atravessam o ambiente político nacional e baiano e que poderiam produzir perguntas desconfortáveis, sobretudo em uma disputa marcada por acusações e desconfianças de lado a lado.
Não apareceram.
Isso não significa que qualquer candidato tenha obrigação de mencionar determinado assunto em um debate.
Mas a ausência também compõe a fotografia.
Em uma campanha, aquilo que os candidatos escolhem não dizer pode ser tão revelador quanto aquilo que repetem.
E o que se repetiu foi conhecido:
Segurança;
Saúde;
Educação;
Gestão;
Passado;
Promessas;
Ataques.
A Bahia ouviu muito do que já conhece.
O primeiro debate terminou sem vencedor
Talvez seja cedo para falar em vencedor.
Debate não é necessariamente uma prova em que alguém sai com uma nota.
Às vezes, o resultado mais importante é descobrir quem conseguiu não perder.
E, nesse sentido, Jerônimo e ACM Neto parecem ter saído da noite preservados.
Nenhum deles produziu uma grande virada.
Nenhum deles sofreu um golpe capaz de reorganizar a eleição.
Nenhum deles apresentou algo que obrigasse o adversário a mudar imediatamente sua estratégia.
O empate das pesquisas, portanto, encontrou um debate que também terminou em espécie de empate narrativo.
E isso pode ser mais importante do que parece.
Porque a campanha ainda está começando.
Talvez o próximo debate seja o mais importante
A próxima questão não é apenas o que será dito.
É se haverá outro palco para dizer.
A participação de Jerônimo Rodrigues e ACM Neto em futuros debates ainda precisa ser acompanhada conforme as confirmações oficiais das emissoras e das campanhas.
Se este primeiro confronto não produziu uma ruptura, o próximo terá de responder a uma pergunta simples:
Os candidatos vão finalmente se enfrentar ou continuarão apenas administrando o risco?
Porque há uma diferença entre um debate eleitoral e uma sucessão de entrevistas cruzadas.
No primeiro, espera-se confronto.
No segundo, cada candidato fala para a própria torcida.
A Bahia não precisa apenas de candidatos que saibam responder.
Precisa saber o que eles fariam quando o Estado lhes pertencesse como problema, e não apenas como palanque.
Esse é o debate que ainda não começou.
E talvez seja justamente o que mais interessa ao eleitor.
Por: Thomas Leuri Souza | Editoria Livre
O primeiro debate da eleição não definiu a disputa. Mas deixou uma impressão bastante clara: os dois principais candidatos sabem o tamanho do risco que correm. E, por enquanto, parecem mais interessados em administrar esse risco do que em enfrentá-lo.
