A Ilusão da Letalidade Máxima
A concentração de poder naval americano no Oriente Médio reaviva a crença de que força militar pode moldar a história — mas a experiência recente sugere que guerras iniciadas sob o signo da dissuasão raramente terminam sob o signo do controle.

A concentração de poder naval americano no Oriente Médio — um terço de seus ativos deslocados para uma região que há décadas funciona como palco recorrente de intervenções fracassadas — é apresentada como demonstração de firmeza estratégica. No entanto, como em tantas ocasiões anteriores, ela pode revelar menos uma estratégia do que um hábito: o hábito das grandes potências de confundir capacidade militar com inteligência histórica. O envio de um superporta-aviões ao Mar Arábico é um gesto de poder inequívoco. Mas o poder, sobretudo quando exibido com ênfase teatral, raramente produz os efeitos políticos que seus arquitetos imaginam.
Desde o início do século XXI, os Estados Unidos repetem uma narrativa familiar: a de que a superioridade tecnológica e a projeção de força são instrumentos suficientes para induzir transformações políticas duradouras. A invasão do Iraque foi justificada como um passo necessário rumo a uma ordem mais estável e racional no Oriente Médio. O que se seguiu foi a proliferação do caos, a intensificação de conflitos sectários e o surgimento de atores que nenhum planejador em Washington antecipara. Ainda assim, a crença de que uma aplicação calibrada — ou desta vez “máxima” — de letalidade pode produzir um desfecho favorável persiste como se a história fosse uma disciplina cumulativa, na qual erros anteriores geram aprendizado proporcional.
O discurso atual sugere que Washington busca restaurar capacidade de dissuasão. Contudo, quando exigências são formuladas de maneira que tornam a negociação improvável — como a renúncia unilateral a programas estratégicos sem alívio concreto de sanções — o que se observa não é diplomacia, mas uma espécie de ultimato revestido de formalidade. A diplomacia autêntica parte do reconhecimento da legitimidade mínima do adversário. A diplomacia performática parte da convicção de que o adversário, cedo ou tarde, sucumbirá ao peso das circunstâncias.
Essa convicção revela uma característica persistente do pensamento político moderno: a ideia de que regimes são estruturas frágeis, que desmoronam quando submetidos a pressão suficiente. Em certos casos, isso ocorre. Mas com frequência maior, o efeito das sanções prolongadas e da ameaça externa é a consolidação interna, não a implosão. A pressão externa fornece ao regime uma narrativa de sobrevivência. A corrupção e a fragmentação podem corroer o Estado por dentro; ainda assim, a ameaça existencial tende a adiar o colapso ao reforçar a lógica de cerco.
A suposição de que o Irã está à beira do colapso não é nova. Ela reaparece periodicamente, alimentada por protestos internos, fissuras no aparato de segurança e demonstrações de vulnerabilidade estratégica. Mas regimes não são derrubados apenas por estarem enfraquecidos; eles caem quando as elites que os sustentam calculam que sua continuidade se tornou inviável. A intervenção externa raramente facilita esse cálculo. Muitas vezes, ela o inverte, tornando a sobrevivência uma questão de honra e autopreservação.
Do outro lado, o regime iraniano reage com gestos que, vistos de fora, parecem imprudentes: ameaças a rotas marítimas, retórica escatológica, provocações simbólicas. Contudo, esses gestos cumprem funções específicas. Eles comunicam determinação aos apoiadores internos, elevam o custo psicológico da intervenção e lembram ao mundo que a vulnerabilidade não é unilateral. A política internacional não é um seminário sobre racionalidade instrumental; é um campo em que reputações, crenças e mitologias operam com eficácia comparável à de armas de precisão.
Há também uma dimensão mais profunda: a tendência das potências liberais de interpretarem conflitos geopolíticos como episódios transitórios no caminho de uma ordem internacional mais homogênea. A crença no progresso político — na eventual convergência das sociedades para formas semelhantes de governo — persiste como pressuposto implícito. Sob essa ótica, um regime teocrático é uma anomalia histórica destinada a desaparecer. Mas a história não obedece a um roteiro de uniformização. Sistemas políticos sobrevivem não porque sejam eficientes segundo critérios externos, mas porque se adaptam às condições internas e às ameaças que enfrentam.
Os mercados de previsão que atribuem probabilidades a ataques iminentes oferecem uma ilusão adicional de controle cognitivo. Transformar a guerra em porcentagem é reconfortante; sugere que a incerteza pode ser domesticada por estatísticas. No entanto, a decisão de iniciar um conflito raramente é resultado de cálculos lineares. Ela emerge de interações complexas, percepções equivocadas e pressões domésticas. O acaso desempenha um papel que nenhuma modelagem probabilística consegue capturar plenamente.
Comparações com episódios anteriores — mobilizações contra outros regimes, demonstrações de força que resultaram em recuos — alimentam a expectativa de repetição. Mas a analogia histórica é uma ferramenta perigosa. Cada regime possui sua própria estrutura de incentivos, seu próprio tecido de alianças, sua própria memória de humilhações e resistências. Supor que um líder reagirá como outro reagiu em contexto distinto é reduzir a política internacional a um experimento controlado, quando ela é, na verdade, um sistema aberto, saturado de contingências.
Se o regime iraniano cair, não será necessariamente o resultado previsível da pressão externa. E, se cair, não há garantia de que o que o substitua seja mais estável ou mais conciliador. A ideia de que a remoção de um regime problemático conduz automaticamente a um arranjo político compatível com interesses ocidentais ignora as lições recentes. Estados fragilizados tendem a produzir vácuos de poder, não democracias consolidadas.
A alternativa — aceitar a coexistência com regimes que se considera hostis — é politicamente menos satisfatória. Ela carece do drama moral da cruzada. Exige paciência, ambiguidade e a disposição de negociar com atores cuja visão de mundo se rejeita. Contudo, a política internacional raramente oferece escolhas entre o bem e o mal absolutos; oferece escolhas entre riscos distintos.
O que se desenha no horizonte do Golfo Pérsico não é um embate decisivo que encerrará uma era. É mais um capítulo na sequência interminável de conflitos que caracterizam a modernidade. A crença de que uma demonstração de força pode restaurar uma ordem estável é compreensível — ela atende à necessidade humana de finalidade. Mas a história recente sugere que a força, mesmo quando avassaladora, produz consequências que escapam ao controle de seus próprios arquitetos.
O ceticismo não é uma postura de indiferença. É o reconhecimento de que projetos grandiosos de remodelação política frequentemente terminam de maneira que seus proponentes jamais previram. A concentração de navios de guerra pode alterar o equilíbrio tático; dificilmente altera as estruturas profundas de identidade, poder e memória que sustentam os conflitos. E enquanto essas estruturas persistirem, cada exibição de “letalidade máxima” será apenas mais um movimento em um jogo que não admite finais definitivos.
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