O INSS, A FRAUDE E A IMBECILIDADE LEGALIZADA

A fraude bilionária no INSS, descoberta tardiamente pela Polícia Federal e agora apressadamente debatida por um Congresso que simula espanto, é o exemplo didático daquilo que venho denunciando há anos: a burocracia estatal brasileira — corrompida, aparelhada e intelectualizada pela mentalidade do jeitinho e da malandragem— já não serve ao povo, mas contra ele. Ela é, antes de tudo, um aparelho de produção sistemática da mentira.
A profusão de mais de 40 projetos de lei para coibir fraudes previdenciárias é a encenação final de um teatro podre, onde cada parlamentar finge reagir ao que, em silêncio ou omissão, ajudou a consolidar. É um desfile de oportunismo legislativo — e, como todo desfile, exige máscaras, coreografia e uma plateia de tolos para aplaudir.
Mas antes de qualquer lei, é preciso perguntar: como se tornou possível, legal e rotineiro descontar valores dos benefícios de idosos, indígenas, deficientes e analfabetos sem o consentimento expresso destes? A resposta é cruel: essa aberração não só foi tolerada — foi institucionalizada.
Sim, institucionalizada por meio daquilo que o establishment chama de “democratização do crédito”, mas que, na prática, não passa de um sistema parasitário de captura do pouco que resta ao pobre. Associações fantasmas, convênios suspeitos com o próprio INSS, descontos automáticos com base em “autorizações presumidas”, tudo isso protegido por uma teia jurídica intrincada, escrita em jargão técnico justamente para afastar o cidadão comum da compreensão de seus próprios direitos. Trata-se de uma versão moderna do “jus primae noctis”: o direito do Estado de ser o primeiro a gozar da renda alheia.
Essa farsa tecnocrática é filha direta da mentalidade positivista que impera na máquina pública brasileira desde o Império, passando incólume pelo Getulismo, a Nova República e chegando, com sua roupagem mais hipócrita, na era atual. Tudo se faz em nome do “progresso”, da “inclusão”, da “eficiência” — mas sempre em detrimento da verdade e da liberdade.
O que está em jogo aqui não é apenas a má gestão de dados ou a falta de fiscalização: é uma corrupção ontológica, no sentido mais aristotélico do termo. Um Estado que, tendo por missão servir à sociedade, transforma-se em predador dela. Um Leviatã acéfalo, guiado por algoritmos, pareceres jurídicos e diretrizes políticas elaboradas por gente que jamais enxerga o povo — mas o administra, como quem administra gado.
O que esperar de um Congresso que só reage quando a podridão já escorre pelas bordas da própria urna funerária da República? Nada. Ou pior: medidas simbólicas, estatísticas manipuladas, audiências públicas que mais parecem talk-shows de deputados e uma ou outra CPI usada como palanque eleitoral.
O brasileiro é espoliado por dentro e por fora: por dentro, com a erosão moral que vem da certeza de que ninguém cuida dele; por fora, com o débito automático em sua conta, justificado por uma autorização que ele nunca deu. E quando reclama, descobre que o número do protocolo sumiu.
Esse é o Brasil real, o país onde o roubo já não se esconde — ele se traveste de benefício. Onde a vítima é chamada de “titular do benefício” e o ladrão de “entidade conveniada”. Onde o esbulho vem com carimbo e papel timbrado. E quando, por acaso, algum delegado ousa abrir a caixa de vermes, o Congresso, com seus 40 projetos, aparece para tampar o cheiro — e não para limpar a sujeira.
Conclusão? Nenhuma medida legislativa surtirá efeito enquanto o problema de fundo — o aparelhamento do Estado por uma elite político-burocrática que odeia o povo e despreza a moral — não for extirpado. Mas isso não se resolve com leis. Isso só se resolve com um levante cultural, moral e espiritual. É preciso restaurar a ideia de que o Estado é servo, e não senhor. É preciso denunciar, com todas as letras, que a fraude do INSS não é exceção — é método.
E que, se você ainda não foi roubado, é apenas porque sua vez ainda não chegou.
