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Os atos dos apóstolos

Paulo viajava então com dois companheiros, que os Atos dos Apóstolos dizem se chamarem Silas e Timóteo. Ainda não sei direito o que fazer desses coadjuvantes, o que me interessa é que, até Trôade, esse trio é designado como “eles” e que, ao partirem de Trôade, vira “nós”. Lucas entra em cena.

Os Atos também contam que, no momento de seu encontro, Paulo hesita quanto ao seu itinerário. Após ter deixado a Síria, passara cinco anos percorrendo a Cilícia, a Galácia, a Panfília, a Liacônia, a Frígia e a Lídia. Esses nomes exóticos pertencem aos antigos reinos helenísticos, que viraram remotos distritos do Império Romano. Grosso modo, cobrem de leste a oeste a Turquia atual.

Afastando-se do litoral e dos portos onde se concentra a população, Paulo embrenhou-se no interior. Circulava a pé, nos dias fastos em lombo de mula, por estradas ruins infestadas de salteadores. Seus pertences resumiam-se a um saco, o manto fazia as vezes de tenda. Não existiam mapas, o horizonte de uma aldeia limitava-se à aldeia vizinha, para além era o desconhecido. Paulo ia rumo ao desconhecido.

Imagem do apóstolo Paulo

Escalou montanhas escarpadas, atravessou desfiladeiros, viu aquelas estranhas concreções rochosas que ainda hoje extasiam os turistas que visitam a Capadócia, alcançando, no vasto platô anatólico, lugarejos adormecidos onde não obstante havia colônias judaicas, mas eram judeus tão rústicos, simplórios e isolados de tudo que, ao contrário dos que povoavam as grandes cidades, davam boa acolhida às palavras de Paulo e adotavam Cristo sem criar caso.

Ao cabo de cinco anos, julgando aquelas comunidades suficientemente consolidadas em sua fé para se virarem sem ele, quis regressar às zonas mais civilizadas. Seu objetivo era dar continuidade à sua missão na Ásia, que é a parte litorânea a oeste da Turquia. Então o Espírito de Deus barrou seu caminho.

É assim que Lucas escreve, sem pestanejar nem esclarecer a forma que essa intervenção do Espírito assumiu. Então, a cena é muito difícil de visualizar. A fim de me aprofundar, reportei-me às notas da Bíblia de Jerusalém e da Tradução ecumênica da Bíblia, que doravante chamarei simplesmente de BJ e TEB. Essas duas traduções são as que mantenho sobre minha mesa de trabalho.

Além disso, ao alcance da mão, numa prateleira, tenho a protestante, de Louis Segond, a de Lemaître de Sacy, conhecida como Bíblia de Port-Royal, e a mais recente, das edições Bayard, ou Bíblia dos escritores, à qual decerto voltarei, uma vez que colaborei em sua edição.

As notas da BJ e da TEB são abundantes e em geral muito bem-feitas, mas se quisermos saber como o Espírito de Deus agiu para barrar o caminho de Paulo cumpre admitir que são decepcionantes. Embora formulando hipóteses ligeiramente divergentes quanto ao itinerário do apóstolo, ambas se limitam a dizer que o Espírito impediu Paulo de ir à Ásia porque seu desígnio era fazê-lo ir à Europa.

BUSCANDO AJUDA EM RENAN

Felizmente há uma versão mais racionalista do episódio. É de Renan. Os apóstolos, diz ele, viviam num mundo de sinais e prodígios, julgavam, em todas as circunstâncias, obedecer à inspiração divina e interpretavam sonhos, incidentes fortuitos e contratempos, que acontecem o tempo todo em uma viagem, como injunções do Espírito.

Nessa versão, Paulo teria dito a Lucas que se sentia numa encruzilhada e não sabia para onde dirigir seus passos. Lucas, que retornava para sua casa, na Macedônia, teria se oferecido como guia e lhe sugerido apresentar pessoas do lugar a quem seu anúncio poderia interessar. Paulo teria concluído que Lucas lhe fora enviado pelo Espírito.

Talvez tenha sonhado com ele na noite seguinte. Na passagem dos Atos que me serviu de brecha para entrar neste relato, fala-se num macedônio que aparece a Paulo para, em nome de seus compatriotas, convidá-lo a atravessar para a outra margem. Esse misterioso macedônio não seria o próprio Lucas? A história não perde nada, penso, ao ser contada desse jeito.

Acabo de recorrer à autoridade de Renan, e o farei outras vezes. É um de meus companheiros nessa viagem aos países do Novo Testamento. Tenho seus dois calhamaços comigo, ao lado de minhas Bíblias, e penso ser hora de apresentá-lo ao leitor que não o conhece direito, ou simplesmente não o conhece.

Ernest Renan era um bretão modesto, educado num catolicismo fervoroso, destinado ao sacerdócio. Durante seus estudos no seminário, sua fé pôs-se a vacilar. Ao cabo de uma longa e dolorosa luta interior, desistiu de servir um deus no qual não tinha mais certeza de acreditar. Virou historiador, filólogo e orientalista. Achava que para escrever a história de uma religião o melhor é ter acreditado e não mais crer.

Foi com essas disposições que empreendeu sua grande obra, cujo primeiro volume, a Vida de Jesus, provocou um grande escândalo em 1863. Homem de ciência ponderado e movido pelo amor ao conhecimento puro, Renan foi um dos homens mais odiados de seu tempo.

Excomungado, teve sua cátedra cassada no Collège de France. Todos os grandes panfletários da direita católica, Barbey d’Aurevilly, Léon Bloy, J. K. Huysmans, arrastaram seu nome na lama. Eis, para dar o tom, algumas linhas de Bloy: “Renan, o Deus dos espíritos covardes, o sábio barrigudo, a ardilosa latrina científica de onde emana para o céu, em volutas temidas pelas águias, o untuoso odor de uma alma exilada das cloacas que o viram nascer”.

QUENTE OU FRIO

Pessoas cujos gostos eu respeito, sem deles compartilhar, têm Bloy na conta de um excelente escritor. São as mesmas que, de toda a Bíblia, gostam de decorar o versículo do Apocalipse segundo o qual Deus “vomita os mornos”. Renan, convenhamos, prestava-se a essa caricatura. Era gordinho, bonzinho, calçava sua poltrona com almofadinhas macias, tinha rosto de cônego e a cara de hipócrita, talvez melíflua, e prestou grandes desserviços ao papa Bento XVI.

Dito isso, o que durante várias gerações fez com que fosse considerado o Anticristo, a ponto de existir quem corresse para se confessar ao ver um de seus livros na vitrine de uma livraria, me parece e deveria parecer, penso, a grande parte de meus leitores, uma exigência mínima de rigor e razão. (É isso o que penso hoje, naturalmente: se tivesse lido Renan antes dos vinte anos, quando era protestante dogmático não praticante, não só o teria detestado, como sentiria orgulho disso.)

Todo o projeto de Renan consiste em dar uma explicação natural a acontecimentos tidos por sobrenaturais, reconduzir o divino ao humano e a religião ao terreno da história.

Ele não se opõe a que cada um pense o que quiser, acredite no que quiser, ele é tudo menos sectário, simplesmente cada qual com seu ofício. Ele escolheu ser historiador, não padre, e o papel de um historiador não é, não pode ser, afirmar que Jesus ressuscitou, nem que ele é filho de Deus, somente que um grupo de pessoas, num certo momento, em circunstâncias que merecem ser narradas em detalhe, meteu na cabeça que ele ressuscitou, que ele era o filho de Deus, chegando inclusive a convencer mais gente.

Recusando-se a acreditar na ressurreição, e mais genericamente nos milagres, Renan conta a vida de Jesus buscando saber o que pode realmente, historicamente, ter acontecido, que os primeiros relatos narram com distorções em função de sua crença.

Diante de cada episódio do Evangelho, ele faz a triagem: isso sim, isso não, isso talvez. Sob sua pena, Jesus passa a ser um dos homens mais notáveis e influentes que viveram na terra, um revolucionário moral, um mestre de sabedoria como Buda — mas não o filho de Deus, pela simples razão de que Deus não existe.

UMA BOA LEITURA

A vida de Jesus continua sendo mais instrutivo e agradável de ler do que 99% dos livros que todos os anos continuam a ser publicados sobre o mesmo assunto, mas ainda assim ele envelheceu mal. O que tinha de novidade não é mais novidade, a fluidez elegante do estilo, tipicamente da Terceira República, não raro descamba para a pieguice, e é difícil para o leitor contemporâneo não se irritar quando Renan elogia Jesus por ter sido o protótipo do “homem galante”, por ter “possuído no mais alto grau o que vemos como a qualidade essencial de uma pessoa distinta, isto é, o dom de sorrir de sua obra”, ou opõe favoravelmente suas “sutis diatribes” de cético à crença obtusa e fanática de Paulo — seu saco de pancada.

A vida de Jesus, contudo, é só a ponta do iceberg. O mais apaixonante são os seis volumes seguintes da História das origens do cristianismo, em que essa história, muito menos conhecida, é narrada em detalhe: como uma pequena seita judaica, fundada por pescadores analfabetos, unida por uma crença extravagante na qual nenhuma pessoa racional teria apostado um sestércio, em menos de três séculos devorou intestinamente o Império Romano e, desafiando toda verossimilhança, perdurou até nossos dias.

E o que é apaixonante é não apenas a história, em si extraordinária, que Renan conta, como a extraordinária honestidade com que o faz, isto é, abrindo os bastidores de seu trabalho de historiador para o leitor: as fontes de que dispõe, como as explora e em nome de quais pressupostos.

Gosto de sua maneira de escrever a história, não ad probandum, como ele diz, mas ad narrandum: não para provar alguma coisa, mas para contar o que aconteceu. Gosto de sua boa-fé cabeça-dura, o escrúpulo que tem em distinguir o certo do provável, o provável do possível, o possível do duvidoso, e a calma com que responde aos críticos mais virulentos:

“Quanto às pessoas que, no interesse de sua crença, necessitam que eu seja um ignorante, um espírito falso ou um homem de má-fé, não tenho a pretensão de modificar sua opinião. Se ela é necessária a seu repouso, eu me odiaria caso os desiludisse”.

A embarcação que liga o litoral da Ásia à costa da Europa desembarca Paulo e seus companheiros no porto de Neápolis, de onde eles se dirigem para Filipos, na Macedônia. É uma cidade nova, construída pelos romanos, que há dois séculos ocupam o antigo reino de Alexandre, o Grande.

De uma ponta a outra do império, da Espanha à Turquia, estradas romanas, pavimentadas tão solidamente que muitas ainda existem, ligam umas cidades às outras, todas no mesmo modelo: largas avenidas entrecortando-se em ângulo reto; ginásio, termas, fórum; abundância de mármore branco; inscrições em latim, enquanto a população fala grego; templos dedicados ao imperador Augusto e sua esposa Lívia, cujo culto puramente formal, que empolga tanto quanto as cerimônias de Onze de Novembro ou Catorze de Julho, convivem sem trauma com o das divindades locais.

Se não podemos afirmar que os romanos inventaram a globalização, porque ela já existia no império de Alexandre, é inegável que eles a levaram a um ponto de perfeição que perdurou por cinco séculos.

É como os McDonald’s, a Coca-Cola, os shopping centers, as lojas Apple de hoje: aonde quer que se vá, encontra-se a mesma coisa, e é claro que existem os ranzinzas para deplorar esse imperialismo ao mesmo tempo cultural e político, mas no geral a maioria das pessoas está satisfeita de viver num mundo pacificado, pelo qual se circula livremente, onde ninguém se sente estrangeiro em parte alguma, onde só fazem a guerra os soldados de ofício, nas fronteiras longínquas do império, e sem que isso repercuta na vida de cada um senão sob a forma de festas e triunfos em caso de vitória.

Uma cidade como Filipos é metade povoada por macedônios de raiz, metade por colonos romanos. Sem dúvida há poucos judeus, pois não há sinagoga. De toda forma, há um pequeno grupo que se reúne fora dos muros, nas margens de um rio, para celebrar o Shabat de maneira informal.

Seus membros não são judeus, fazem apenas uma ideia muito vaga da Torá. Imagino-os como praticantes de ioga ou tai chi que, num lugarejo onde não há professor, dão um jeito de praticar assim mesmo, com um livro, vídeos ou sob a autoridade do único que, entre eles, fez algum curso ou oficina.

Esse tipo de grupo, em geral, é majoritariamente feminino e, por mais heterodoxo que seja, tratando-se de uma religião em que o serviço não pode ser celebrado senão na presença de no mínimo dez homens, este é o caso do de Filipos: Lucas, em seu relato, só menciona mulheres. É possível que já as conhecesse, que tivesse participado de suas reuniões e soubesse o que estava fazendo ao lhes apresentar seus três novos amigos.

***

 

PAULO E SEUS DISCÍPULOS

“Quando o aluno está preparado, o mestre aparece”: provérbio conhecido no meio das artes marciais. Tudo indica que os alunos estavam bem preparados, pois reconheceram imediatamente em Paulo o mestre que esperavam. Lucas menciona em especial uma tal de Lídia, aparentemente líder do grupo.

“Ela escutava”, escreve. “O Senhor abrira-lhe o coração para que ela atendesse ao que Paulo dizia.” Apesar de seu entusiasmo pelo judaísmo, Lídia jamais cogitou estimular a circuncisão do marido e dos filhos — ninguém, aliás, lhe pediu isso.

Contudo, quando Paulo evoca o rito um tanto peculiar, mediante o qual se consolida sua fé no que ele manifesta, ela insiste para se submeter a ele.

Convém dizer que, ao contrário da circuncisão, ele é indolor e não deixa vestígios. A pessoa entra no rio, se ajoelha, o oficiante imerge por alguns instantes sua cabeça na água, diz em voz alta que a asperge em nome de Cristo e pronto, terminou, a pessoa nunca mais é a mesma. Chama-se batismo.

Lídia, após recebê-lo, quer que sua família o receba também. Quer que o novo guru e seus companheiros venham morar em sua casa. Paulo de início recusa, pois tem como regra não depender de ninguém, mas Lídia é tão animada, tão simpática, que ele se deixa violentar.

Ela é, Lucas esclarece, negociante de púrpura, isto é, tecidos tingidos que são uma especialidade da região e têm grande saída para exportação. Não mulher de negociante, negociante. Isso cheira a empresa próspera, a matriarcado, a mulher enérgica.

PAULO ERA CARISMÁTICO

Quatro desvairados religiosos hospedando-se na confortável residência de uma mulher enérgica e convertendo toda a sua família, se hoje isso daria o que falar numa cidade do interior brasileiro, não vejo por que não tenha dado o que falar numa cidade do interior macedônio do século I.

Um pequeno círculo se reúne na casa de Lídia, em torno de Paulo e seus companheiros. Alguns anos mais tarde, Paulo remeterá uma carta aos moradores de Filipos na qual faz questão de saudar Evódio, Epafródito e Síntique, e para mim é um prazer escrever os nomes desses figurantes, Evódio, Epafródito, Síntique, que chegaram a nós depois de atravessar vinte séculos.

Devia haver outros: eu diria uns dez, vinte. O carisma de Paulo e a autoridade de Lídia fazem tão bem que todos se põem a crer na ressurreição daquele Jesus cujo nome sequer sabiam poucos dias antes. Todos são batizados. Ao fazerem isso, não pensam absolutamente trair o judaísmo, para o qual se voltaram com zelo tão aferrado quanto desinformado. Ao contrário, agradecem a Deus por lhes ter enviado aquele rabino tão instruído que agora os guia e lhes mostra como adorar em espírito e verdade.

Continuam naturalmente a observar o Shabat, interrompem seus trabalhos, acendem velas, oram, e Paulo faz tudo isso com eles, sem deixar, contudo, de lhes ensinar um novo ritual. É uma refeição realizada não no sábado, mas no dia seguinte, a qual Paulo chama de ágape.

O ágape é uma verdadeira refeição, uma refeição de festa, embora Paulo insista para que não se coma nem beba em excesso. A princípio cada um deve levar um prato que preparou em sua casa.

Essa norma não devia funcionar muito bem em Filipos, pois a refeição se desenrolava na casa de Lídia, e Lídia, tal como a imagino, era o tipo de dona de casa generosa e tirânica ao mesmo tempo, que quer sempre fazer tudo sozinha, prepara sempre três vezes mais comida do que será consumido e, se alguém tenta ajudá-la, diz que não, que é muito amável mas não é assim que a coisa funciona. “Deixe, deixe que eu cuido disso, vá sentar com os outros.”

Num certo momento dessa refeição, Paulo se levanta, parte um pedaço de pão e diz ser o corpo de Cristo. Ergue uma taça cheia de vinho e diz ser seu sangue. Em silêncio, pão e vinho rodam a mesa e cada qual come um pedaço de pão e bebe um gole de vinho. Em memória, diz Paulo, da última refeição que o Salvador fez nesta terra, antes de ter sido pregado na cruz. Depois, cantam uma espécie de hino onde se fala de sua morte e ressurreição.

***

DONS DIVINATÓRIOS

“Certo dia”, continua Lucas, “quando íamos para o lugar de oração, veio ao nosso encontro uma jovem escrava que tinha um espírito pitônico.” “Ter um espírito pitônico”, minhas Bíblias e Renan concordam nesse ponto, significa ser possuída, detentora, como a Pítia de Delfos, de um dom profético e divinatório.

A escrava aborda Paulo, Timóteo, Silas e Lucas e talvez alguns de seus adeptos filipenses. Interpela-os, segue-os, proclama aos berros que eles são servidores do Altíssimo e anunciam o caminho da salvação.

Recomeça no dia seguinte e nos subsequentes. Paulo, que preferiria uma publicidade mais discreta, a princípio segue em frente, desviando os olhos. Não adianta, a homenagem só faz tornar-se mais ruidosa, e ele, perdendo a paciência, exorciza intempestivamente a possuída em nome de Cristo. O espírito a abandona.

Espasmos, sobressaltos, prostração. Fim da crise histérica. A crer em Lucas, Paulo realiza tais façanhas corriqueiramente, embora pense duas vezes antes de alardear seus poderes. Por um lado, a coisa impressiona e mitiga os sofrimentos, por outro, as conversões obtidas não são lá de muito boa qualidade.

O resultado, em geral, é só chateação. Há outra história desse tipo nos Atos. Lucas não a testemunhou: Timóteo é quem deve ter lhe contado, pois ela se passou dois anos antes, em Listres, sua cidade natal, nas montanhas da Licaônia. Lá, Paulo curou um paralítico e, à vista de tal milagre, os habitantes de Listres se jogaram com as faces no chão. Tomavam-nos, a ele e seu acólito, por Zeus e Hermes descidos à terra.

Quando topei com essa passagem, ela me fez pensar na maravilhosa história de Rudyard Kipling, O homem que queria ser rei, e no filme que John Huston fez a partir dela. Os dois aventureiros expulsos do exército da Índia representados por Sean Connery e Michael Caine embrenham-se atrás de fortuna nos confins do Himalaia, que a Licaônia, no século I, devia emular amplamente em matéria de selvageria.

Como os nativos nunca tinham visto homens brancos, não dá outra: os dois são adorados como deuses. Michael Caine, que na história faz o papel de Sancho Pança, planeja aproveitar-se do tumulto para passar a mão no tesouro do templo e zarpar dali.

Sean Connery, que faz o Dom Quixote, conclui que não falta discernimento àqueles montanheses, exalta-se, termina acreditando realmente ser um deus, e a coisa termina muito mal. Nos últimos planos, vemos as crianças da aldeia jogando bola, na poeira, com a cabeça enfaixada em panos ensanguentados. Ao contrário de Michael Caine, Paulo não queria abusar da credulidade dos licaônios ou, pelo menos, não da mesma forma.

Só as suas almas, não o seu ouro, lhe interessavam. Mas ele conheceu não só a vertigem de Sean Connery, a cujos pés uma multidão se prosterna, como a cólera dessa multidão quando ela descobre que aquele a quem ela adora não passa de um homem.

Paulo, em Listres, foi apedrejado, dado como morto e largado num fosso, e esse é o risco que ele volta a correr, em Filipos, onde os amos da escrava possuída recebem muito mal sua intervenção. Eles exploravam o dom da infeliz, exigindo dinheiro todas as vezes que ela emitia um oráculo.

Uma vez exorcizada por Paulo, ela equivale a um mendigo indiano curado de sua repulsiva e lucrativa enfermidade: não serve para mais nada.

PAULO É PUNIDO

Furioso com aquela intromissão em seus assuntos, os amos alcançam Paulo e Silas, colocam-nos contra a parede e arrastam-nos até os magistrados da cidade, acusando-os de perturbar a ordem pública. “Esses homens”, denunciam, “perturbam nossa cidade. São judeus e propagam costumes que não são os de Roma.” Judeus ou cristãos, os inquisidores não sabem diferenciá-los, os magistrados tampouco e na verdade não estão nem aí para isso.

O império, nos países conquistados, praticava uma política de exemplar laicidade. A liberdade de pensamento e de culto era completa. O que os romanos denominavam religio tinha pouco a ver com o que denominamos religião e não envolvia nem crença professada nem efusão da alma, e sim uma atitude de respeito, manifestada pelos ritos, para com as instituições da cidade.

A religião no sentido em que a entendemos, com suas práticas bizarras e fervores despropositados, eles chamavam-na desdenhosamente de superstitio. Era coisa de orientais e bárbaros, que eram livres para se entreter com isso ao seu bel-prazer, desde que não perturbassem a ordem pública.

Ora, é de perturbar a ordem pública que são acusados Paulo e Silas, e eis por que os tolerantes magistrados de Filipos ordenam que eles sejam despidos, açoitados, espancados e, para terminar, jogados na prisão com correntes nos pés. O que Lucas e Timóteo fazem durante esse tempo? Os Atos calam-se a respeito disso.

Supomos que tenham se mantido prudentemente recolhidos. Por outro lado, os Atos registram que, à noite, em seu calabouço, Paulo e Silas oram estrepitosamente, entoando louvores a Deus, e que seus colegas de cativeiro os escutam maravilhados. Subitamente, um terremoto abala os alicerces do cárcere, arranca as portas, arrebenta inclusive o cadeado das correntes.

Os prisioneiros poderiam se aproveitar disso para se evadirem, e talvez os demais o façam, mas Paulo e Silas, não. Isso impressiona de tal forma o carcereiro que ele também passa a acreditar no Senhor Jesus Cristo e convida os dois homens para irem à sua casa. Lava suas feridas, oferece-lhes uma refeição e pede para ser batizado junto com toda a família.

No dia seguinte, após confabularem, os magistrados da cidade ordenam que soltem discretamente aqueles prisioneiros indesejáveis. Paulo, então, banca o superior: “Um indulto não significa nada para mim”, diz. “Sou cidadão romano, me vergastaram e aprisionaram sem julgamento, isso é contrário à lei, estais errados e não sairei daqui como ladrão. Não, enquanto não vierdes vos desculpar, fico na prisão. Estou muito bem aqui.”

O que está por trás dessa cena de comédia é a cidadania de Paulo, que, a princípio ignorada pelos magistrados de Filipos, convence-os, quando tomam conhecimento dela, de que entraram numa roubada. Um judeu obscuro podia ser vergastado sem julgamento, um cidadão romano, não: este poderia apresentar queixa e lhes trazer aborrecimentos.

Com razão, Jérôme Prieur e Gérard Mordillat, autores da famosa série documental sobre as origens do cristianismo, Corpus christi, acham suspeito que, brutalizado pelas autoridades, Paulo tenha demorado tanto a se valer desse título, que lhe teria evitado espancamento e noite no pelourinho.

Eles se perguntam se ele era mesmo cidadão romano. E, uma vez que estamos falando de hipóteses, os mesmos Prieur e Mordillat observam que o que Lucas e o próprio Paulo contam sobre as primeiras proezas deste último como perseguidor de cristãos, “agrilhoando e lançando na prisão homens e mulheres”, obtendo, contra os cristãos de Damasco, mandados de prisão assinados pelo sumo sacerdote de Jerusalém, é absolutamente inverossímil no contexto do judaísmo no século I.

ROMA E O CRISTIANISMO

A administração romana, que monopoliza o poder de polícia e faz questão de permanecer neutra nas querelas religiosas, jamais teria permitido que um jovem rabino fanático saísse prendendo pessoas em nome de sua fé.

Se tivesse tentado isso, ele é que se veria na cadeia. Se quisermos levar a sério o que Paulo diz, isso implica uma coisa completamente diferente: ele ter sido uma espécie de miliciano, auxiliar de um exército de ocupação. Um historiador de que falarei adiante defendeu essa tese audaciosa, mas não é preciso ir tão longe para, desde agora, extrair da fabulação de Paulo uma conclusão instrutiva sobre sua psicologia e seu senso de efeito dramático.

Talvez ele não tenha sido esse Exterminador judeu que ele próprio se apraz em descrever, “não transpirando senão ódio e morte” e semeando terror na Igreja da qual um dia será pastor, mas sabe que a história fica mais bem contada desse jeito, o contraste é mais sedutor.

Paulo, o apóstolo, é maior por ter sido Saulo, o inquisidor, e penso que essa característica casa bem no quadro com aquela ilustrada no episódio de Filipos: o gozo que ele sente em se deixar espancar, quando lhe bastaria uma palavra para ser libertado — contudo, para pronunciar essa palavra, ele espera até se ver coberto de sangue e equimoses, e aqueles que o agrediram, por seu erro até o pescoço.

O braço de ferro termina bem para Paulo, que sai da prisão de cabeça erguida, mas ele é incentivado pelos magistrados, de toda forma, a ir enforcar-se em outras plagas. Ele vai se despedir de Lídia e de seus familiares, exorta-os a se mostrarem dignos de seu batismo, depois segue viagem com Silas e Timóteo.

A continuação de suas aventuras é narrada nos Atos, porém, nesse ponto, seu futuro autor, Lucas, desaparece da própria narrativa. Seja porque não quis acompanhar Paulo, seja porque Paulo não quis que ele o acompanhasse, ele retorna aos bastidores, de onde só sairá três capítulos e sete anos mais tarde. Só então ele voltará ao “nós” da testemunha ocular, e nas mesmas cercanias.

É o que me faz pensar, junto com Renan, que ele era macedônio e que passou esses sete anos em Filipos, e o que eu gostaria de fazer agora é imaginar esses anos longe do teatro de operações, naquela Grécia setentrional, balcânica, onde se desenrolam os filmes lentos e brumosos de Theo Angelopoulos.

Imaginar como, na ausência de Paulo, se desenvolveu uma daquelas pequenas igrejas que ele semeava em seu caminho como pedras. O que se sabia de suas viagens, a repercussão de suas cartas. Como germinava, ao longo daquele longo inverno, o que ele tinha semeado.

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