Possivelmente você teve uma pessoa que, em determinado momento de sua vida, acendeu a faísca da sua curiosidade sobre determinado assunto ou área do conhecimento. Talvez tenha sido mais de uma pessoa. O fato é que, sem essa intervenção sua vida poderia ter tomado um rumo completamente diferente.

O historiador francês Jean-François Sirinelli classifica essas pessoas como despertadores intelectuais[1]. Aquele seu professor, parente, amigo, vizinho ou até mesmo um desconhecido, que faz você começar a notar algo que antes não notava. Que faz você querer saber cada vez mais, ir além do que a maioria das pessoas ao seu redor são capazes.

Meu despertar intelectual se deu com o colunista de uma revista semanal. Eu aguardava pacientemente a chegada de cada nova edição apenas para ler aquela seção. O resto da revista não me interessava. Curioso é que eu comecei a ler aquelas linhas por acidente. Passei muito tempo em busca das referências bibliográficas trazidas por aquela coluna. Aquelas leituras me levaram a outras, que me levaram a outras… Demorou um bom tempo até que eu não precisasse mais daquelas referências de leitura. Hoje sigo um caminho completamente diferente, mas sua contribuição é inegável.

Um dos métodos mais eficientes para rastrear a origem de uma ideia é compreender quem foi o despertador intelectual deste ou daquele indivíduo. Apesar de acharmos que pensamos com nossa própria concepção de mundo, somos fortemente influenciados por todos os conceitos presentes em nosso processo de formação. Repetimos ideias apreendidas como se tivessem brotado espontaneamente dentro de nossa consciência. Essa é uma impossibilidade diante da força de todo o aparato cultural que a sociedade nos oferece.

Entender quem foi o seu despertador intelectual e, consequentemente, quem foi o despertador do seu despertador, pode nos dar indícios do caminho que determinadas ideias seguiram até chegar a você. Nas palavras do próprio Sirinelli:

Sob a condição, é claro, de não nos limitarmos às trajetórias apenas dos “grandes” intelectuais e de descermos até o estrato intermediário dos intelectuais de menor notoriedade, mas que tiveram importância enquanto viveram, e até a camada, ainda mais escondida, dos “despertadores” que, sem serem obrigatoriamente conhecidos ou sem terem sempre adquirido uma reputação relacionada com seu papel real, representaram um fermento para as gerações intelectuais seguintes, exercendo uma influência cultural e mesmo às vezes política. A descrição desses três níveis e dos mecanismos de capilaridade em seu interior facilitaria sobretudo a localização de cruzamentos, onde se encontrariam maitres à penser e “despertadores“, e o esclarecimento de genealogias de influências — pois um “despertador” pode ocultar dentro de si um outro, que o marcou uma geração antes — , tornando mais inteligíveis os percursos dos intelectuais (p. 246).

Sendo assim, é possível entender que muitas ideias são defendidas por questões emocionais, e só são racionalizadas depois de aceitas como verdades. Diante disso fica fácil compreender o porquê tantas pessoas se recusam a aceitar um fato, mesmo depois dele ser exaustivamente comprovado.

É por isso que muitos de nós absorvem as informações de forma seletiva, focando apenas naquilo que nos é conveniente. Compreender que o mundo não é um sistema binário pode ser o primeiro passo. Enxergar a complexidade à sua volta exige árduo exercício que precisa ser realizado diariamente.

Não sei qual o caminho para a verdade, mas a estrada para o erro é ter certeza de tudo. É preciso ser cético. Desconfie. A ciência não é baseada em certezas, mas em informações que são constantemente atualizadas e refinadas, numa complexidade que aumenta de forma exponencial.

Mas você pode evitar toda essa trabalheira. Basta continuar repetindo os slogans das suas redes de sociabilidades sem se preocupar com as origens de tais ideias. O resultado já é de domínio público.

 

José Fagner Alves Santos

[1] A referência é do seu artigo, Os Intelectuais, publicado no livro Por uma história política, do René Remond