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Lucas e Paulo: um possível primeiro encontro

Temos poucas informações sobre o primeiro encontro entre Paulo de Tarso e aquele que se convencionou chamar de São Lucas. Não sabemos como essa amizade teve início. Podemos apenas conjecturar. Eu tenho algumas ideias. Se tivesse que escrever um enredo sobre o tema, saberia por onde começar.

A cena se passaria na sinagoga de Trôade. Lucas viaja a trabalho, que decerto tem a ver com sua atividade de médico. É seu costume, quando está de passagem numa cidade estrangeira, ir à sinagoga no dia do shabat. Lá, mesmo sem conhecer ninguém, não se sente deslocado, pois as sinagogas são iguais em todos os lugares. Um recinto simples, quase nu. Sem estátuas, afrescos ou ornamentos. Isso também lhe agrada, faz descansar sua alma.

Após a leitura de praxe da Lei e dos Profetas, o chefe da sinagoga pergunta se alguém deseja tomar a palavra. Segundo o costume, ele a concede primeiro aos recém-chegados. Embora recém-chegado, ocupar a tribuna não faz o gênero de Lucas. Imagino-o inclusive temendo ser notado, temendo que o olhar do chefe da sinagoga se detenha nele, mas não tem tempo de ficar preocupado pois um homem se levanta e se dirige ao centro da sala. Apresenta-se como Paulo, um rabino procedente da cidade de Tarso.

Seu aspecto não é nada animador: de roupas pobres, baixo, atarracado, careca, as sobrancelhas pretas juntando-se acima do nariz. Olha as pessoas à volta como um gladiador olha o público antes de um combate. Sua voz é baixa, no início ele fala devagar, mas à medida que se exalta sua elocução se acelera, torna-se veemente, espasmódica.

“Homens de Israel”, começa Paulo, “e vós, que temeis a Deus, escutai. O Deus de Israel escolheu a nossos pais e fez crescer o povo em seu exílio na terra do Egito. Depois, erguendo seu braço, fê-los sair de lá, e durante quarenta anos, mais ou menos, cercou-os de cuidados no deserto…”

O público meneia a cabeça, Lucas também. Isso eles conhecem. E conhecem a continuação, que o orador evoca sem grande conhecimento da elipse, porém com louvável minúcia cronológica. Após os quarenta anos no deserto, a instalação das doze tribos na terra de Canaã, depois o governo dos Juízes, depois o dos Reis, cujo maior foi Davi, filho de Jessé, um homem segundo o coração do Senhor…

“Da descendência de Davi, conforme a promessa”, continua Paulo, “o Senhor fez nascer uma criança que, homem, será uma grande luz para seu povo…”

Novos meneios de cabeça. Isso também todo mundo conhece.

“E agora”, prossegue o orador, “agora, homens de Israel, escutai bem! Sabei que o Senhor cumpriu sua promessa. Sabei que ele deu a seu povo o Salvador que ele esperava e que esse Salvador se chama Jesus.”

Nesse ponto, Paulo estende a pausa e encara os ouvintes, que levam certo tempo para digerir o que acabam de escutar.

Não há nada de inusitado na evocação do Salvador que um dia deve vir recompensar os bons, punir os maus e restaurar Israel em seu reinado. Um prosélito como Lucas ouviu muito o nome, ou melhor, o título desse Khristos: o Salvador, o Messias, aquele que recebeu a unção divina. Mas isso não o interessa tanto. Quando o assunto vem à baila na sinagoga, ele escuta com o ouvido distraído. Inclina-se a classificar a coisa no bricabraque do judaísmo mais folclórico que filosófico, que não diz respeito senão aos judeus. De toda forma, o que dizem sempre é que ele deve vir. Ora, é uma coisa completamente diferente o que Paulo diz: que ele veio. Que tem outro nome sem ser Khristos, um nome judeu completamente banal, Jesus, em versão original Yeshua, e esse nome, sucedendo a majestosa litania dos Samuel, Saul, Benjamin e Davi, provoca um efeito tão canhestro como se, depois de esgotar a lista dos reis da França, disséssemos que o último é Gérard ou Patrick.

Jesus? Quem é esse Jesus?

Sobrancelhas se erguem, se franzem. Olhares perplexos são trocados. Mas não terminou. É só o começo.

“Jesus era o Cristo”, continua Paulo. “Mas os habitantes de Jerusalém e seus chefes, sem o saber, cumpriram as palavras do profeta, que são lidas a cada shabat. Eles se recusaram a escutá-lo. Fizeram troça dele. Não se limitaram a troçar. Sem motivo algum, eles o condenaram e o fizeram morrer na cruz.”

O público se agita: “Na cruz!”

A cruz é um suplício pavoroso e, acima de tudo, humilhante. Destina-se exclusivamente à ralé da humanidade: salteadores de estradas, escravos fugidos. Para continuar a transposição, é como se anunciassem que o salvador do mundo não só se chama Gérard ou Patrick, como foi condenado por pedofilia. Ficam todos chocados, porém cativados. Em vez de altear a voz, como faria um orador menos hábil, Paulo desce um tom. O público é obrigado a permanecer calado e até mesmo a se aproximar para ouvi-lo.

“Depuseram-no num túmulo. E ao fim de três dias, como está dito nas Escrituras, o Senhor o ressuscitou. Ele apareceu primeiro a seus doze companheiros mais próximos, e depois a muitos outros. Quase todos ainda estão vivos: podem testemunhar. Também posso testemunhar, pois ele apareceu para mim por último, que sou um simples zé-ninguém e sequer o conheci em vida. Eles o viram, eu o vi, respirando e falando quando estava morto. Quem foi testemunha de tal coisa não pode fazer mais nada senão testemunhar. Por isso corro o mundo propagando o que acabo de vos dizer. A promessa feita a nossos pais, o Senhor a cumpriu. Ressuscitou Jesus e também a nós ressuscitará. Tudo isso é para breve, para muito mais cedo do que julgais. Sei que é difícil acreditar. No entanto, é de vós que é exigido que acreditem. Vós, os filhos da raça de Abraão, vós a quem a promessa foi feita, mas não somente vós. O que digo vale também para os gregos, os prosélitos. Vale para todos.”

Procurei reconstituir o que Paulo dizia: o discurso modelo que, nas sinagogas da Grécia e da Ásia, por volta do ano 50 de nossa era, ouviram as pessoas que se converteram a alguma coisa que ainda não se chamava cristianismo. Compilei e parafraseei as fontes mais antigas. Para aqueles a quem essa receita interessa, há um pouco da grande profissão de fé que aparece na primeira carta de Paulo aos coríntios, e muito de uma longa réplica que, anos mais tarde, Lucas pôs na boca de Paulo no capítulo 13 dos Atos dos Apóstolos. Sem garantir que tal reconstituição seja literalmente exata, julgo-a bem próxima da verdade. Paulo começava em terreno conhecido, recapitulava a história judaica, lembrava a promessa à qual ela se dirige e, de supetão, desferia que a promessa fora cumprida. O Messias, o Cristo, viera sob o nome de Jesus. Morrera ignominiosamente, depois ressuscitara, e aqueles que acreditassem nisso ressuscitariam também. De um discurso conhecido e mesmo um pouco batido, passava-se sorrateiramente a alguma coisa cujo potencial de escândalo, acostumados que estamos à sua extravagância, é difícil avaliar.

Quando Lucas descreve as reações à pregação de Paulo, o roteiro é sempre o mesmo. Após um momento de perplexidade, parte dos ouvintes se entusiasma, enquanto a outra proclama blasfêmia. Essas reações extremas não surpreendiam Paulo. O que ele anunciava rachava o mundo ao meio tão claramente quanto uma machadada. Os que acreditavam, os que não acreditavam: duas humanidades separadas.

Lucas não se escandalizou. Isso significa que teria acreditado prontamente no que Paulo dizia? Difícil imaginar algo assim. Contudo, na voluta de uma frase, nos Atos, ele menciona uma terceira reação: a de pessoas que, à saída da sinagoga, caminhavam ao lado do apóstolo e lhe faziam perguntas. Talvez porque essa também pudesse ter sido a minha reação, vejo perfeitamente Lucas nesse terceiro grupo: os que nem rasgam as roupas em sinal de indignação nem se prostram, mas ficam intrigados, perturbados pela convicção do orador e, sem desejar assumir compromisso, têm vontade de saber mais a respeito disso.

A discussão, hoje, continuaria no bar, e talvez Lucas tenha sentado com Paulo e seus dois companheiros de viagem em uma taberna do porto de Trôade. Barcos em segundo plano, redes secando, polvo grelhado no prato, jarra de retsina: vemos o quadro. Os outros dois vão dormir cedo. Lucas fica a sós com Paulo. Falam até o raiar do dia, ou melhor, Paulo fala, fala, e Lucas escuta. Pela manhã, tudo lhe parece diferente. O céu não é mais o mesmo, as pessoas não são mais as mesmas. Ele sabe que um homem voltou dentre os mortos e que daí em diante sua vida, a dele, Lucas, não será mais a mesma.

Talvez a coisa tenha acontecido assim. Ou…

Acho que tenho uma ideia melhor.

Lucas era médico, Paulo, doente. Ele repete isso mais de uma vez em suas cartas. Na que escreveu aos gálatas, lembra que, em virtude dessa doença, demorou-se junto a eles, agradecendo-lhes por não haverem manifestado desprezo ou nojo diante de seu corpo enfermo – quando isso era uma provação para eles. Insiste muito neste fato: tinha méritos quem dele se aproximava. Em outra carta, queixa-se de um “aguilhão na carne”. Em várias oportunidades suplicou a Deus que o livrasse dele, mas Deus não quis assim. Contentou-se em lhe responder: “Basta-te a minha graça.”

Milhares de páginas foram escritas sobre esse “aguilhão na carne”. O que poderia ser aquela doença misteriosa que, nos momentos de crise, tornava o corpo de Paulo tão repugnante, além de lhe causar sofrimentos tão intensos, a ponto de importunar Deus a esse respeito? Suas palavras sugerem uma doença de pele, daquelas que coçam até sangrar – eczema, psoríase gigante –, mas também o que Dostoiévski fala sobre suas crises epiléticas ou Virginia Woolf sobre seus mergulhos na depressão – penso nesta entrada do diário da escritora, tão simples e pungente: “Hoje o terror voltou.” Nunca saberemos o que Paulo tinha, porém, quando o lemos, vislumbramos alguma coisa de terrivelmente doloroso e até mesmo vergonhoso. Alguma coisa que voltava sempre, mesmo quando, após longos períodos de recuperação, ele se julgava livre dela. Alguma coisa que amarrava o corpo e a alma.

Vamos à segunda versão. Lucas presencia o escândalo na sinagoga. Pensativo, volta a seu albergue. Cuida de seus afazeres. No dia seguinte é chamado, pois há um viajante doente. Esse viajante é Paulo. Devorado pela febre, devastado pela dor, o corpo, e talvez o rosto, coberto por um lençol com nódoas de pus e sangue. Lucas acredita que ele vai morrer. Fica de vigília, faz o que pode para reconfortá-lo, mas nada parece capaz de reconfortá-lo. Durante dois dias, não deixa a cabeceira do moribundo, que fala com uma voz rouca, sibilante, que num semidelírio diz coisas ainda mais estranhas do que na sinagoga, e que, no fim, não morre. Em seguida, voltamos à versão precedente da cena, a conversa entre os dois homens, mais íntima, mais confiante em virtude do que acaba de acontecer, e agora convém nos perguntarmos o que Paulo enunciava em privado.

Quem conheceu a oratória política pós-Maio de 1968 se lembra da pergunta ritual: “De onde você fala?” Continuo a achá-la pertinente. Para ser tocado por um pensamento, preciso que ele seja veiculado por uma voz, emane de um homem, e que eu saiba o caminho que ele percorreu nesse homem. Penso inclusive que, numa discussão, os argumentos de peso são exclusivamente os argumentos ad hominem. Paulo fazia parte dos homens que não titubeiam em dizer de onde falam, isto é, em falar de si próprios, e Lucas não demorou a conhecer sua história, tão mirabolante como seus discursos.

Paulo conta que antes se chamava Saulo, de Saul, nome do primeiro rei de Israel. Era um jovem judeu extremamente devoto. Seus pais, comerciantes prósperos da grande cidade oriental de Tarso, queriam que ele se tornasse rabino e o encaminharam para estudar junto a Gamaliel, o grande mestre fariseu de Jerusalém. Os fariseus eram especialistas na Lei, homens de estudo e fé, cujas opiniões, como as dos ulemás no islã, fixavam jurisprudência. Saulo sonhava tornar-se um segundo Gamaliel. Lia e relia sem descanso a Torá, escrutando cada palavra fervorosamente.

Um dia, ouviu falar de uma seita de galileus que se autodenominavam “aqueles que seguem o Caminho”, distinguindo-se dos outros judeus por uma crença estranha. Poucos anos antes, o mestre deles, por razões bastante obscuras, fora supliciado na cruz, coisa chocante por si só, mas que eles não tentavam esconder: ao contrário, reivindicavam-na. Mais chocante ainda: recusavam-se a crer em sua morte. Diziam tê-lo visto entrando no sepulcro e então, em seguida, estava vivo, falava, comia. Diziam que ressuscitara. Queriam que todo mundo o adorasse como o Messias.

Ao ouvir isso, Saulo poderia ter dado de ombros, mas reagiu exatamente como agora reagiam seus ouvintes mais devotos: com blasfêmias, e ele não brincava com a blasfêmia. Sua devoção beirava o fanatismo. Não se limitava a aprovar a lapidação de um adepto do crucificado, supliciado diante de seus olhos: queria agir, sacrificar-se. Espreitava as casas onde lhe haviam dito que os adeptos do Caminho se reuniam. Se suspeitasse de alguém, ordenava que fosse retido e atirado na prisão. Transpirava, ele próprio admite, ameaça e morte diante daqueles heréticos. Um dia, decidiu partir para Damasco, onde alguns seguidores haviam sido identificados, com o intuito de trazê-los acorrentados a Jerusalém. Porém, ao meio-dia, enquanto caminhava pela estrada pedregosa, uma luz intensa o cegou subitamente e uma força invisível derrubou-o de seu cavalo. Uma voz sussurrou em seu ouvido: “Saulo! Saulo! Sou aquele a quem persegues. Por que me persegues?”

Quando se levantou, não enxergava mais nada. Cambaleava como se estivesse bêbado. Aqueles que o acompanhavam conduziram-no, cego e vacilante, até uma casa desconhecida, onde ele permaneceu três dias confinado num quarto, sozinho, sem comer nem beber. Tinha medo. O que lhe dava medo não era um perigo externo, mas o que se revolvia, feito um animal, em sua alma. Muitas vezes, nos exaltados devaneios de sua mocidade, sentira uma coisa prodigiosa e ameaçadora a rondá-lo. Agora não o rondava mais. Estava entranhada no mais recôndito de seu ser, prestes a devorá-lo por dentro. Ao fim de três dias, ele ouviu a porta do quarto se abrir e alguém se aproximar. Este alguém ficou junto a ele, em silêncio, durante um longo tempo. Ele ouvia as batidas de seu coração, a pulsação de seu sangue. Por fim, o homem falou. Disse: “Paulo, meu irmão, o Senhor me enviou. Ele deseja que o seu coração desperte.”

Enquanto o desconhecido pronunciava essas palavras, aquele que ainda se chamava Saulo tentava resistir. Lutava com todas as forças, apavorado ante aquela coisa prodigiosa e ameaçadora que crescia dentro dele, e queria expulsá-la de si. Gostaria de continuar a ser ele mesmo, se chamar Saulo, não se deixar invadir, não se render. Chorava, era sacudido por tremores. Então, subitamente, tudo cedeu. Aceitou a invasão. E, em vez de destruí-lo, a coisa prodigiosa e ameaçadora que crescera dentro dele começou a embalá-lo como a uma criança. O que ele tanto temera se anunciava como a maior felicidade, uma felicidade inimaginável havia poucos instantes e agora evidente, inexpugnável, eterna. Não era mais Saulo, o perseguidor, mas Paulo, que um dia seria perseguido, e se regozijava em ser perseguido, e, um a um, seus irmãos, que também viriam a sê-lo, entravam no quarto e o cercavam.

Beijavam-no, misturavam suas lágrimas de alegria às dele. Entre eles as palavras não eram mais necessárias. Seus corações se comunicavam, silenciosos, extáticos. Não havia mais tabiques, opacidade, mal-entendido. Tudo que separa os homens uns dos outros desaparecera, bem como tudo que os separa do mais íntimo de si mesmos. Tudo agora era transparência e luz. Ele não era mais ele mesmo, era finalmente ele mesmo. Uma espessa membrana lhe caíra dos olhos. Voltara a enxergar, mas isso nada tinha em comum com sua visão pregressa. O horror e a piedade o arrebatavam quando, num relâmpago, revia aquele que ele tinha sido até sua libertação e o mundo tenebroso em que vivera, julgando-o real. O horror e a piedade também o arrebatavam quando pensava naqueles, tão numerosos, que ainda vagavam por aquele mundo trevoso, sem saber, sem nada suspeitar. Então jurou ir em seu socorro, não abandonar nenhum deles, triunfar sobre o medo da metamorfose como Jesus em pessoa triunfara sobre o seu.

 

Abençoado pelos irmãos de Damasco, Saulo voltou a Jerusalém. Com seu novo nome, Paulo, percorreu as sinagogas proclamando que o homem crucificado havia poucos anos era de fato Cristo, o Messias que Israel esperava. Seus mestres e amigos fariseus o renegaram. Quanto aos que ele perseguira com seu ódio, estes desconfiavam dele, receando um ardil. Ele terminou por convencê-los da sinceridade de sua conversão e, a fim de que anunciasse não só aos judeus como aos gentios a notícia da morte e da ressurreição de Cristo, em prelúdio à morte e à ressurreição de toda a humanidade, eles o enviaram para além das fronteiras de Israel.

Paulo não evocava as Escrituras para demonstrar a validade e as credenciais de uma doutrina, mas procedia de outro modo. Ele dizia: Tu dormes, desperta. Tua vida mudará de ponta a ponta. Não compreenderás sequer como conseguiste viver essa vida, pesada e trevosa, como outros continuam a vivê-la como se fosse a vida, sem desconfiar de nada. Dizia: És uma lagarta, fadada a se tornar uma borboleta. Se pudéssemos explicar à lagarta o que a espera, ela certamente teria dificuldade em compreender. Teria medo. Ninguém decide num estalo deixar de ser o que é, tornar-se outra coisa que não si mesmo. Mas assim é o Caminho. Uma vez feita a travessia, sequer nos lembramos mais daquele que éramos antes, aquele que escarnecia ou tinha medo, é a mesma coisa. Alguns se lembram: são os melhores guias. É por isso que eu, Paulo, te conto tudo isso.

Paulo também dizia que o fim dos tempos se aproximava. Estava absolutamente convencido disso, tanto que é uma das primeiras verdades de que seus interlocutores ficam convencidos. O fim dos tempos se aproximava porque aquele homem que ele chamava Cristo ressuscitara e, se aquele homem que ele chamava Cristo ressuscitara, era porque o fim dos tempos se aproximava. Não se aproximava de maneira abstrata, como se pode dizer sobre a morte de cada um, a qualquer instante. Não, Paulo dizia, ele acontecerá quando ainda estivermos vivos, nós que agora falamos. Nenhum de nós que está aqui morrerá sem ter visto o Senhor encher o céu com sua potência e separar os bons dos maus. Se o interlocutor desse de ombros, não valia a pena continuar. Seria igualmente inútil expor o caminho do Buda a alguém que ficasse indiferente à primeira de suas verdades – tudo na vida é mudança, sofrimento – e à pergunta que, pela lógica, a segue: Existe um meio de escapar a essa série de mudanças e sofrimentos? Quem não aderir a esse diagnóstico e não colocar para si a questão do remédio, quem achar a vida muito boa do jeito que é, não tem nenhuma razão para se interessar pelo budismo. Analogamente, alguém que no século I da nossa era não tinha vontade de acreditar que o mundo caminhava para um fim iminente não era um freguês para Paulo.

Ignoro até que ponto essa visão era compartilhada na época. Parece-me que, hoje, ela é. Falando do que conheço – meu país, meu pequeno círculo sociocultural –, me parece que muita gente, de maneira vaga, porém persistente, e pelas mais variadas razões, acha que vamos dar com a cara no muro. Porque nos tornamos numerosos demais para o espaço a nós destinado. Porque áreas cada vez maiores desse espaço, de tão devastadas, estão em vias de se tornar inabitáveis. Porque temos os meios de nos autodestruir e seria espantoso que não os utilizássemos.

Feita essa constatação, formam-se dois tipos de mentalidade, representadas, em meu convívio, por Luana e por mim. O primeiro tipo, a ala moderada à qual pertenço, pensa que caminhamos talvez não para o fim do mundo, mas para um desastre histórico de grande porte, envolvendo a extinção de parte considerável da humanidade. Como isso se dará, em que resultará, os membros desse grupo não fazem a mínima ideia, mas acham que, se não eles, seus filhos estarão nas primeiras fileiras.

O fato de isso não impedi-los de fazer filhos mostra a que ponto, por meio de suas alas moderadas, de longe as mais numerosas, os dois tipos de mentalidade convivem facilmente. Quando, à mesa da cozinha, repito o que li no livro de um sociólogo alemão sobre as guerras dignas de um pesadelo, que estas resultarão inevitavelmente das mudanças climáticas, Luana, do segundo tipo, responde que sim, claro, há desastres históricos, a peste negra, a epidemia de gripe espanhola, as duas guerras mundiais, sim, há grandes mutações, mudanças de civilizações e, como se diz agora, paradigmas, mas também que desde que a humanidade existe uma de suas atividades favoritas é temer e anunciar o fim do mundo, e que isso não tem mais motivos para acontecer hoje ou amanhã do que tinha nas mil circunstâncias em que, no passado, ele pareceu inquestionável para espíritos feito o meu.

Um louco furioso, Calígula, acabava de reinar sobre Roma. Em breve, outro, Nero, surgiria. Terremotos sacudiam a terra, vulcões cobriam cidades inteiras de lava e vaticinava-se que leitoas conceberiam monstros com garras de falcão. Seria o suficiente para concluir que o século I, mais que qualquer outro, era sacudido por crenças apocalípticas? Israel, sim, sem dúvida, mas o mundo romano no apogeu do Império, de sua pujança e estabilidade? O mundo ao qual pertencia alguém como Lucas?

Não sei.

 

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