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As igrejas de Paulo

Era o quê, uma igreja cristã? Será que já se usavam essas palavras? É provável, sim. Em suas cartas, Paulo fala de suas “igrejas” — que, para sermos menos clericais, podemos chamar simplesmente de seus “grupos”. E “cristã”? Sim, também. A palavra se formou em Antioquia, na Síria, onde Paulo começou a pregar cerca de dez anos depois da morte de Jesus. Sob sua autoridade, as conversões se multiplicaram e passou-se a chamar de kristianos os adeptos daquele Kristos que muitos, a começar pela autoridade romana, consideravam um chefe rebelde ainda vivo.

Essa lenda urbana fez seu caminho, errático, até Roma, onde no ano 41 o imperador Cláudio julgou por bem reagir, promulgando um decreto contra os judeus, acusados de provocar distúrbios em nome de seu mentor Chrestos. Roma, Antioquia e Alexandria eram as capitais do mundo, mas até mesmo num recanto tão provinciano do império como a Macedônia, onde vivia Lucas, algumas dezenas de pessoas em algumas cidades se consideravam como a Igreja de Cristo.

QUEM ERAM OS PRIMEIROS FIEIS?

Essas dezenas de pessoas não eram pobres pescadores analfabetos, como naquela Galileia das origens a cujo respeito elas nada sabiam, tampouco poderosos, e sim comerciantes, como a negociante de púrpura Lídia, artesãos, escravos. Lucas exagera a importância de alguns recrutas de categoria mais elevada, romanos em especial, mas Lucas é um pouco esnobe, inclinado ao name-dropping e absolutamente capaz de ressaltar que Jesus não só era o filho de Deus, como, por parte da mãe, de excelente família. Alguns eram judeus helenistas, a maioria gregos judaizados, mas todos, judeus e gregos, após conhecerem Paulo, julgavam-se filiados a um ramo especialmente puro e autêntico da religião de Israel, não a um movimento dissidente. Continuavam a frequentar a sinagoga, se lá não encontrassem oposição muito ferrenha.

A oposição, dito isso, manifestava-se infalivelmente a partir do momento em que havia uma sinagoga de verdade, uma colônia judaica de verdade, judeus circuncidados de verdade. Não era o caso em Filipos, era o caso em Tessalônica, para onde Paulo foi imediatamente depois. Lá, os judeus não gostaram nada que o recém-chegado arrebanhasse parte de seus fiéis. Denunciaram-no como arruaceiro às autoridades romanas e o forçaram a bater em retirada, e o roteiro se repetiu em Bereia, cidade vizinha.

O que podiam fazer então os convertidos de Paulo? Ou, como antes, ir à sinagoga e se reunir discretamente para seguir as diretrizes de seu novo guru. Ou, pura e simplesmente, abrir outra sinagoga. Sério? Era simples assim? Temos um pouco de dificuldade em aceitar isso. Pensamos imediatamente em cisma, heresia. É que estamos acostumados a considerar toda religião mais ou menos totalitária, mas na Antiguidade isso não era absolutamente verdade.

Nesse ponto, como em muitos outros relativos à civilização greco-romana, reporto-me a Paul Veyne, que é não só um grande historiador, mas também um escritor maravilhoso. Como Renan, ele me acompanhou ao longo de todos os anos dedicados a escrever este livro, e sempre apreciei sua companhia: sua vivacidade, excentricidade, avidez pelo detalhe. Ora, diz Paul Veyne, os locais de culto no mundo greco-romano eram pequenas empresas privadas, o templo de Ísis de uma cidade tinha tanto a ver com o templo de Ísis de outra quanto têm, digamos, duas padarias.

Um estrangeiro podia dedicar um templo a uma divindade de seu país assim como, hoje, abriria um restaurante de especialidades exóticas. O público decidia se ia ou não. Se aparecesse um concorrente, o que de pior podia acontecer era que ele cooptasse a clientela — o que censuravam a Paulo.

A CENTRALIZAÇÃO JUDAICA 

Os judeus, no tocante a essas questões, já eram menos descontraídos, mas foram os cristãos que inventaram a centralização religiosa, com sua hierarquia, seu Credo válido para todo mundo, suas punições para quem dele se afastasse. Essa invenção, na época a que nos referimos, ainda engatinhava.

Mais que uma guerra de religiões, cuja simples noção era inacessível aos antigos, o que tento descrever está mais perto de um fenômeno muito comum nas escolas de ioga e artes marciais — certamente em outros círculos também, mas falo do que conheço. Um aluno adiantado decide dar aulas e arrasta consigo parte dos colegas. O mestre chia, mais ou menos abertamente. Alguns alunos, por espírito de concórdia, fazem uma aula com um, uma aula com outro, e dizem que tudo bem, são complementares. No fim, a maioria acaba fazendo uma escolha.

Essas pequenas igrejas que se desenvolveram na Macedônia nos anos seguintes à passagem de Paulo não viviam em comunidade — como, em Jerusalém, os discípulos e a família de Jesus. A orientação do apóstolo era que cada qual permanecesse onde estava e não alterasse em nada o cotidiano de suas vidas.

Em primeiro lugar, porque o fim do mundo estava próximo e, até lá, era inócuo agitar-se ou fazer planos. Depois, porque a verdadeira mudança operava-se alhures: na alma. Se és escravo, dizia Paulo, não procures libertar-te. Chamando-te, de toda forma, o Senhor te liberta, quanto aos homens livres, tornam-se teus escravos. Se és casado, assim permanece. Se não és, não procures mulher. Se és grego, não te submetes à circuncisão — fiquei admirado de saber que, para frequentar as termas sem constrangimento, alguns judeus helenizados reconstituíam cirurgicamente o prepúcio: essa operação chamava-se “epispasmo”.

A PAZ DO SENHOR, IRMÃO

Longo corredor dentro de um monastério

Lemos sem espanto que eles se tratavam mutuamente de “irmãos” e “irmãs”. Estamos errados. Deveríamos nos espantar. Séculos de sermões começando por “Caríssimos irmãos” nos acostumaram a esse uso, mas na Antiguidade isso era um completo disparate. Podia-se chamar alguém de “irmão” por extensão ou metáfora, para reforçar a intimidade de um laço, mas a ideia de que todos os homens são irmãos é um achado dessa pequena seita, que a princípio deve ter escandalizado.

Imaginemos um padre, hoje, ao dirigir-se a seus fiéis, chamando-os de “maridos e mulheres”, como se todo homem fosse marido de toda mulher e vice-versa. Não soaria mais estranho que o “irmãos e irmãs” em vigor nas igrejas de Paulo, e não admira que suas reuniões tenham frequentemente passado por incestuosas ou, no mínimo, libertinas.

E, nesse ponto, isso não correspondia à verdade. As primeiras igrejas cristãs eram tudo menos locais de libertinagem. No início do século II, Plínio, o Jovem, nomeado governador da remota região da Bitínia, na costa do mar Negro, escreverá ao imperador Trajano uma carta carregada de perplexidade que é um dos primeiros documentos de fonte pagã sobre os cristãos.

Ao assumir seu posto, Plínio descobre que a religião cívica está em decadência, os templos, vazios, que ninguém mais compra na feira de carnes imoladas aos deuses, e, segundo ele ouve dizer, a principal razão dessa situação desoladora é o sucesso de uma seita da qual ele nunca ouviu falar: os discípulos de Cristo.

Eles se reúnem secretamente, o chefe de gabinete de Plínio acha que é para fazer safadezas, Plínio não se contenta com esses rumores. Informa-se, envia alguém, e o resultado da investigação é desnorteante. Quando se encontram, aquelas pessoas limitam-se a partilhar uma refeição frugal, a olhar umas para as outras sorrindo, a cantar hinos.

 

ERAM TODOS CARETAS

Tanta mansidão preocupa, quase que se preferiria as safadezas, mas é preciso reconhecer: ninguém transava com ninguém. Essa pureza de costumes quase alarmante nos incomoda — em suma, a mim incomoda tanto quanto a Plínio.

Autores bem-intencionados tentaram corrigir a horrível reputação de desmancha-prazeres de que goza Paulo entre os modernos. Para defendê-lo contra as acusações de pudicícia, machismo e homofobia, que, a partir de suas cartas, chovem sobre ele, procuram descrevê-lo como um revolucionário moral, pregando o verdadeiro amor do corpo humano num mundo obstinado em degradá-lo. Até pode ser, mas essa linha de defesa é a mesma dos que consideram o véu integral a mais alta expressão do respeito da mulher, achincalhada pela pornografia ocidental.

Paulo não era apenas solteiro — o que já ia contra a moral judaica, que considera o homem não casado um homem incompleto. Era casto, gabava-se de ser virgem e proclamava que esta era de longe a melhor opção. Encabulado, admite numa carta ser “melhor casar-se a ficar abrasado” — por “abrasado” ele se refere ao que chama de porneia, que significa exatamente o que você está pensando — e que, em relação a esses assuntos, “digo eu, não o Senhor”. Às vezes nos perguntamos a partir de quais critérios, mas o fato é que Paulo distingue com nitidez as questões sobre as quais se exprime como porta-voz do Senhor daquelas sobre as quais se limita a dar sua opinião pessoal.

 

PAULO, O VIRGEM

Oito velas vermelhas acesas e enfileiradas

Assim, é a pessoa de Paulo que, “por causa das angústias presentes”, estima vantajoso permanecer virgem. O Senhor é menos exigente. Diz apenas que convém permanecer na condição em que se encontrava no momento em que foi chamado. Casado, se casado etc. Paulo, por sua vez, esclarece: “Aqueles que têm esposa, sejam como se não a tivessem; aqueles que choram, como se não chorassem; aqueles que se regozijam, como se não se regozijassem; aqueles que compram, como se não possuíssem. Pois passa a figura deste mundo. Eu quisera que estivésseis isentos de preocupações”.

Já se encontravam por conta do Shabat, passaram a se encontrar para a refeição do Senhor, no dia seguinte ao Shabat, e depois, pouco a pouco, a se encontrar todos os dias. Tinham tanto a se dizer! Tantas experiências novas a contar, comparar. Olhando de fora, no entanto, faziam a mesma coisa que na sinagoga: ler e interpretar as Escrituras. Agora, contudo, dispunham de uma nova grade de leitura, nova e prodigiosamente excitante.

Nas palavras não raro obscuras dos profetas, procuravam prenúncios da morte e da ressurreição de Cristo, do fim iminente dos tempos, e quem procura, é claro, acha. Liam, interpretavam, exortavam-se. Sobretudo, rezavam. Rezavam como se nunca houvessem rezado antes.

 

***

 

O QUE VEM A SER ORAÇÃO?

Mulher jovem com os dedos entrelaçados, a mão perto da boca, em posição de oração

Eu gostaria que neste ponto o leitor se perguntasse o que significa para ele a palavra “oração”. Para um grego ou romano do século I, era uma coisa bastante formal: uma invocação pronunciada em voz alta, no âmbito de um rito, e dirigida a um deus no qual seria falso dizer que não se acreditava, mas no qual se acreditava como se acredita numa companhia de seguros. Havia contratos especializados, igual ao firmado com o deus da ferrugem do trigo. Solicitavam sua proteção, agradeciam-lhe por tê-la concedido, se o trigo enferrujasse ele era criticado por sua negligência, e, uma vez de costas para o altar, estava-se quite, não se precisava mais pensar naquilo.

Para muitos, esse convívio mínimo com o divino era suficiente. Assim como há épocas mais ou menos religiosas (penso que aquela a que me refiro não era mais que a nossa, porém muito similar), há temperamentos mais ou menos religiosos. Existem pessoas com inclinação, e logo talento, para essas coisas, como para a música, e outros que se gabam de viver muito bem sem elas.

No mundo greco-romano do século I, as almas pias não tinham grandes opções, daí apreciarem tanto o judaísmo. De simples recitação, a prece transformava-se entre os judeus numa conversa em que o coração se derramava. Seu deus era um interlocutor, todos os interlocutores ao mesmo tempo: confidente, amigo, pai alternadamente carinhoso e severo, marido ciumento a quem nada podem esconder — o que às vezes seria preferível. Erguendo os olhos para ele, mergulhavam no mais íntimo de si. Já era muito, mas Paulo pedia mais. Pedia que orassem o tempo todo.

Existe um livrinho, escrito por volta do fim do século XIX, intitulado Relatos de um peregrino russo. Li e reli esse livro no meu período cristão, ainda o releio às vezes. O narrador é um pobre mujique que mal sabe ler, que tem um braço mais curto que o outro e que um belo dia, na igreja, ouve o padre ler esta frase dita por Paulo: “Orai sem cessar”. Ela o fulmina. Ele compreende que isso é mais do que importante, é essencial. Mais do que essencial, vital. Que é a única coisa que conta. Mas se pergunta: como podemos orar sem cessar? E eis o pequeno mujique a percorrer as estradas da Rússia em busca de homens mais instruídos e devotos que ele, que lhe explicarão como agir.

 

ALGUNS LIVROS DE REFERÊNCIA

Os Relatos de um peregrino russo são uma apresentação, maravilhosamente vulgarizada, de uma corrente mística que existe há quinze séculos na Igreja ortodoxa e que os teólogos chamam de hesychasmo, “prece do coração”. O livrinho teve uma descendência moderna inesperada: duas novelas de J. D. Salinger, Franny e Zooey, que foram uma das grandes paixões literárias de minha juventude.

A heroína, uma adolescente sexy e neurótica, topa, na Nova York boêmia dos anos 1950, com esse livrinho russo anônimo, é por sua vez fulminada e, para grande horror da família, passa a murmurar da manhã à noite: “Senhor Jesus, tende piedade de mim”. De que maneira seu irmão, um jovem ator pretensioso e genial, arranca-a dessa mania, ao mesmo tempo que a aprova em suas últimas consequências, você saberá lendo as duas novelas de Salinger.

Elas também saíram dessa palavra de Paulo, atestada na primeira carta aos tessalonicenses e que da primeira vez foi tomada ao pé da letra naquelas igrejas perdidas da Macedônia ou da Anatólia, por volta dos anos 1950 de nossa era: “Orai sem cessar”.

No começo, tal como o pequeno mujique, os irmãos e irmãs de Tessalônica, Filipos e Bereia se preocupam: “Mas não sabemos o que devemos dizer. Não sabemos o que devemos perguntar”. Paulo lhes respondia: “Não vos preocupeis, o Senhor sabe melhor do que vós do que necessitais. Não peçais bens, não peçais que vossos negócios prosperem, não peçais sequer virtudes. Pedi apenas ao Cristo que ele vos conceda o dom da prece. É como se quisésseis fazer filhos: para isso, é preciso primeiro encontrar a mãe, e a oração é a mãe das virtudes. É orando que aprendereis a orar. Não vos percais em longas frases. Repeti somente, empenhando nisso todo o vosso coração: Marana-tha, que quer dizer: ‘Vinde, Senhor’. Ele virá, prometo-vos. Descerá sobre vós, fará sua morada em vós. Não sereis mais vós que vivereis, mas ele, o Cristo, que viverá em vós”.

Se porventura dissessem: “Vamos tentar”, ele meneava a cabeça: “Não tenteis. Fazei”. Não permaneceu muito tempo nem em Tessalônica, nem em Bereia, nem em Filipos, mas deixou as instruções e o mantra. Assim providos, irmãos e irmãs exercitavam-se com ardor, comparando suas práticas entre si. Um se levantava mais cedo, deitava-se mais tarde, assim que tinha um instante se retirava para os fundos de sua loja para sentar no chão com as pernas em xis, sozinho, e à meia-voz repetir Marana-tha, até que o sangue lhe latejasse nas têmporas, o ventre esquentasse e ele não se lembrasse mais do sentido do que dizia. Outro repetia isso em silêncio e assim não precisava estar sozinho. Podia fazê-lo o tempo todo, em qualquer lugar, no meio da multidão.

 

COMO REZAR/ORAR CORRETAMENTE?

Homem rezando dentro da igreja

Rezava caminhando, selecionando sementes, conversando com os fregueses. Dizia ao primeiro, o que precisava se sentar com as pernas em xis: “Porventura te trancas no quarto para respirar? Não. Paras de respirar quando trabalhas? Quando falas? Quando dormes? Não. Então por que não rezar como respiras? Tua respiração pode se transformar em prece. Inspiras e chamas o Cristo. Expiras e recebes o Cristo. Até seu sono pode vir a ser prece. ‘Durmo, mas meu coração vela’, diz a noiva no Cântico dos cânticos. A noiva é tua alma. Mesmo dormindo, ela está acordada”. Paulo também dissera isto: “Permanecei em vigília”, e alguns exercitavam-se em não dormir mais.

A insônia voluntária lhes proporcionava visões. Exaltavam-se a ponto de entrar em transe. Nesses transes, uns louvavam a Deus em grego: chamavam a isso profetizar. Outros emitiam gritos, suspiros, gemidos. Às vezes proferiam sons que pareciam ser palavras e até frases, mas que não se compreendiam. Chamava-se “falar em línguas” esse fenômeno classificado pelos psiquiatras sob o nome de glossolalia, e davam-lhe imenso valor. Seria uma língua desconhecida na medida em que não a identificavam, ou simplesmente uma língua que não existia, que nenhum homem falava na terra? Impossível saber, mas ninguém duvidava que seus falantes eram inspirados por Deus, e não possuídos por um demônio como a pitonisa de Filipos.

Tentava-se transcrever essas séries de fonemas misteriosos, salvaguardá-los, decifrar seu sentido. (Na esteira de sua experiência mística, Philip K. Dick também deu para pensar e sonhar numa língua desconhecida. Anotava o que podia. A partir de suas anotações, fazia pesquisas, e, finalmente, identificou-a. Adivinhem que língua era essa? Duvido que acertem: era grego koiné, o falado por Paulo.)

 

 

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