É bastante provável que você, caro leitor, prezada leitora, em algum momento durante esta temporada de verão em Peruíbe tenha reclamado — ou presenciado alguém reclamar — da qualidade das conexões de telefonia celular e internet. Com a cidade superlotada, fazer uma ligação ou conectar-se à internet torna-se exercício de paciência. Aqueles que há mais tempo frequentam este balneário certamente se lembrarão das longas filas que se formavam no prédio da TELESP, quando ansiosos turistas aguardavam sua vez para fazer chamadas DDD nos guichês telefônicos. Tempos em que ter telefone era luxo e ter telefone na praia luxo ainda maior.

Mas antes de telefonia celular, internet 4G, TELESP, etc, muito antes da televisão e do rádio, passavam por Peruíbe os cabos de um importante meio de comunicação utilizado no país a partir do século XIX, a telegrafia elétrica.

As primeiras linhas, restritas ao Rio de Janeiro, capital da Corte, começaram a funcionar em 1852. Apenas a partir de 1865 se iniciou um plano para expansão das instalações telegráficas no restante do Império. Inicialmente, o avanço seria em direção ao norte. Contudo, a eclosão da Guerra do Paraguai em 1865 fez com que a propagação fosse no sentido do sul do país. A Repartição Geral dos Telégrafos organizou um grande mutirão nacional para a construção de uma linha da Corte até o front. O apoio de autoridades das áreas por onde o fio passava foi primordial e proprietários de terras custearam parte das despesas com o fornecimento dos postes e mão-de-obra, ambos tirados das suas fazendas. A parte terrestre iniciou-se em setembro de 1865 e foi concluída em junho do ano seguinte, ligando a Corte até o Sul do território imperial. A linha Sul seguiu o seguinte trajeto: da capital do país ligava-se a Itaguaí, Mangaratiba, Angra dos Reis, Parati, no Rio de Janeiro; Ubatuba, São Sebastião, Santos e Iguape, em São Paulo; Paranaguá, no Paraná; São Francisco do Sul, Itajaí, Desterro (Florianópolis) e Laguna, em Santa Catarina; Torres, Conceição do Arroio e Porto Alegre, na província de São Pedro do Rio Grande do Sul.

Figura essencial para o sucesso deste empreendimento foi Guilherme Schüch de
Capanema (1824-1909) — agraciado por Pedro II com o título de Barão de Capanema —, então diretor da Repartição Geral dos Telégrafos. De acordo com o Dicionário Biobibliográfico Brasileiro , Capanema era filho de Roque Schüch e Cecília Bors, nascido em Minas Gerais, doutor em matemática e ciências físicas pela Escola Militar do Rio de Janeiro, engenheiro pela Escola Politécnica de Viena, lente da Escola Politécnica, professor honorário da Academia de Belas Artes, agraciado com o título de conselheiro do Imperador, major honorário do exército, comendador da ordem da Rosa e da de Cristo, sócio do IHGB, sócio do Instituto Fluminense de Agricultura, fundador da Sociedade Estatística do Brasil. Lecionou física e mineralogia na Escola Militar, fez parte da Comissão Científica do Ceará como diretor da seção geológica e mineralógica. Capanema também foi inventor e empresário em diversos outros ramos. Por exemplo, inventou e produziu o Formicida Capanema, comercializado até o início do século XX.

Selos postais brasileiros comemorativos da instalação do telégrafo no Brasil, com imagens do Barão 

Em setembro de 1868, entre a segunda-feira, 28 de setembro, e a quinta-feira, 1 de outubro, o jornal Diário do Rio de Janeiro — editado na Corte , de propriedade do Bacharel Custódio Cardoso Fontes — publicou, em 4 partes, um relato elaborado pelo Barão de Capanema intitulado “Viagem por terra de Santos à Santa Catharina em serviço público”. O texto narra a expedição empreendida por Capanema a partir de junho de 1868 com o objetivo de substituir os cabos submarinos instalados nas 17 barras existentes ao longo do traçado da linha telegráfica Rio-Porto Alegre, os quais apresentaram defeitos e paralisaram o funcionamento da rede.

Primeira página do Diário do Rio de Janeiro, de 28 set. 1868, com a publicação da primeira parte de “Viagem por terra de Santos à Santa Catharina em serviço público”

Com ironia refinada e humor ácido, o engenheiro apresenta um retrato interessante da burocracia, da falta de planejamento e da corrupção que (já) dominavam o Estado brasileiro. Demonstra, também, um pensamento prático e objetivo a fim de solucionar as mazelas da infraestrutura do país. Mas o que nos interessa no relato é a descrição feita pelo Barão de sua passagem pelo bairro de Peruíbe, pertencente ao distrito da Conceição de Itanhaém, e pelas regiões do Guaraú e da Barra do Una até alcançar Iguape. Convidamos você, leitor, a nos acompanhar, a partir do próximo artigo, nesta interessante viagem em companhia da expedição do Barão de Capanema.

Confira fotos do trajeto que ainda estão preservados.

Barão de Capanema seguia rumo ao sul do país…

Na sua passagem pela região da Juréia, Capanema atravessou rios.

Por toda a praia da Jureia e pelo maciço, ao fundo, passava o telégrafo

Estrada do Telégrafo em foto recente com um Cachorro-do-mato se aproximando

Morro das três pontas, possível de se ver da Praia do Una

Atrás no morro do Grajaúna, próximo a entrada do Itacolomi

Vista da Praia do Rio verde, na mesma estrada por onde o Barão passou

Vista da Praia do Itacolomi e Morro do Grajaúna

Detalhe de um poste do Telégrafo que ainda resiste ao tempo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Metade de um dos postes do telégrafo que ainda resiste ao tempo com a estrada lateral

No maciço, vista para a Praia da Jureia com a Barra do Ribeira, em Iguape, à frente

Barão de Capanema: Selos postais brasileiros comemorativos da instalação do telégrafo no Brasil

 

Texto e Pesquisa: Fábio Ribeiro *

*Professor de História da Rede Pública e Mestre em História Social pela FFLCH/USP

Fotos: Márcio Ribeiro

Postagem: Márcio Ribeiro

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