Cada ser humano é dotado de individualidades, percepções e culturas diferenciadas de acordo com seu histórico e âmbito social no qual está inserido. Essa multiplicidade de características presentes em cada um sofre grandes influências de um aspecto essencial, que é inerente ao mundo: as imagens. Somos levados, muitas vezes, ou na maior parte do tempo, a adotar determinados conceitos, condicionados pelo poder imagético e sua capacidade de rotulação das coisas.

Um forte exemplo está na Religião e na idealização imagética do divino. Ao pensarmos na imagem de Jesus Cristo, por exemplo, automaticamente a mente de muitos é condicionada a pensar na figura de um homem branco, cabelos compridos, olhos azuis. Uma construção fomentada também pela forma como os meios comunicacionais o retratam, seja em livros, filmes ou descrições. Mas será que essa representação não poderia ser diferente? Rompendo esse paradigma, o artista e padre jesuíta Geraldo Lacerdine lançou a mostra Sagrado Primitivo – O intermédio de dois mundos.

Após permanecer um tempo em cartaz no Conjunto Nacional, a exposição está a poucos dias de encerrar sua temporada na Paróquia São Luiz Gonzaga, onde estreou em 10 de dezembro de 2017. A mostra traz 23 pinturas de Lacerdine, que se destacam por retratar o sagrado de modo totalmente humanizado, convidando o público a deslocar a espiritualidade sacra para as necessidades reais do mundo em que vivemos hoje. Temas como desigualdade, miséria e preconceito são abordados nas obras.

“Por séculos foi incutida a ideia de que o sagrado é eurocêntrico, permeado de pureza, figuras brancas e loiras, sempre nórdicas e incorruptíveis, enquanto o mundano (humano) é o extremo oposto, com figuras imperfeitas, borradas, deformadas, exalando fraqueza e sexualidade vil”, afirma Lacerdine. Essa transição para a humanização do sagrado é perceptível inclusive na Bíblia, cujos livros do Antigo Testamento configuram a imagem de Deus como um ser punitivo e autoritário, sempre acima do humano, enquanto que os livros do Novo Testamento ressaltam essa humanização divina, quando Deus reveste o formato humano por meio da vinda de seu filho Jesus.

Outra alternância fundamental na concepção imagética de Deus com a vinda de Jesus se encontra na forma com que ele passa a lidar com os seres humanos, estando sempre entre os mais necessitados, acolhendo-os com um olhar misericordioso e compassivo. Essa compaixão e misericórdia exalam-se nas obras de Lacerdine e na forma de retratar as figuras divinas. Imagens de anjos e da Sagrada Família negros, com olhares sofridos e traços magérrimos e marcados nos instigam a pensar no sofrimento expresso na aparência física do povo brasileiro. Um dos destaques de sua obra são os olhares homogêneos e que parecem fundir-se, como que provocando para a necessidade de tratarmos com igualdade as diversidades.

A obra Amor e Cuidado é um exemplo ao trazer a imagem de Jesus e Pedro com olhares similares, de modo que o discípulo parece ser envolto no coração de Cristo. Uma similaridade que externa essa abertura transcendental do humano. Afinal Pedro foi um discípulo que, apesar de ter negado Jesus três vezes, jamais deixou de ser amado por Cristo, que o recebe em sua misericórdia mediante o arrependimento sincero do apóstolo.

Essa similaridade no olhar também é encontrada em Mater Dei, uma pintura de mãe negra segurando seu filho no colo. As faces idênticas e homogêneas quase se fundindo refletem a intensidade e unicidade do amor maternal da Virgem pelo seu filho, refletidos nas mais diversas mães da sociedade.

E uma das mais chamativas talvez seja a obra Família de Nazaré pelo seu tamanho e cores fortes utilizadas, com as figuras de Maria, José e o menino Jesus pintadas com um olhar mais humano, onde podemos nos ver refletido nele. Quem for à exposição também poderá adquirir um livro com todas as pinturas exibidas.

Uma excelente mostra para fazer repensar a questão do sagrado e como ele pode ser expresso muito mais na essência espiritual do que em construções imagéticas já rotuladas. Obras que nos fazem enxergar a espiritualidade divina no olhar misericordioso ao outro por meio do sagrado primitivo.

Fotos Mariana Mascarenhas (clique na imagem para ampliá-las) 

Clique aqui para conferir vídeo sobre exposição. 

Serviço:

Exposição Sagrado Primitivo – O intermédio de dois mundos

Onde: Paróquia São Luiz Gonzaga: Av. Paulista, 2378, Consolação, São Paulo – SP. Tel: (11) 3231-5954

Quando: todos os dias, das 9h às 22h – sujeito a alterações

Quanto: grátis

Até 30 de janeiro de 2018