Era o último dia das férias escolares. Como todos os dias anteriores, eu voltava de um rio que passava no meio de uma fazenda na pequena cidade de Fronteira do Sul. A fazenda era grande e os donos e funcionários nunca me flagraram nadando, ou mesmo durante o tempo em que eu ficava deitado nas pedras observando as nuvens, procurando alguma com formato de animal ou qualquer objeto humanamente reconhecível.

Descobri esse rio quando meu pai, que é mecânico, foi chamado para consertar uma caminhonete. Para mim era o paraíso. Lugar perfeito para viver até o fim da minha vida. Sombra e água fresca cristalina. Mesmo não tendo nenhum amigo, eu gostava de ir àquele lugar para apreciar o silencio. Se bem que não era bem o silêncio que eu apreciava, visto que, invariavelmente, era possível ouvir o canto dos pássaros e o som da correnteza do rio. Depois que o descobri, passei a desfrutá-lo todos os dias das minhas férias.

Na escola nunca tive amigos, talvez por ser pobre ou por ser filho do único mecânico da cidade. Todos na minha escola diziam que mecânicos eram criaturas rudes, sem estudo, e por isso eram desprezados pela sociedade, ao menos na cidade em que eu vivia. Nunca consegui entender que sociedade era essa, afinal, rico ou pobre, todos um dia precisarão do mecânico. Basta que se tenha um veículo qualquer precisando de conserto.

Eu também não compreendia por que meu pai me mandava estudar. Meu sonho era ser mecânico igual a ele. Meu pai, embora sempre fosse rígido comigo em relação aos estudos, gostava de me ensinar um pouco de mecânica sempre que podia. Depois que minha mãe morreu, com 28 anos apenas, em decorrência de um acidente de carro, ele dedicou sua vida à oficina mecânica e a me criar e educar. Ele é o maior pai que alguém poderia desejar, não tenha dúvidas disso.

O caminho de volta à minha casa levava, mais ou menos, uma hora e trinta minutos. Era tempo suficiente para minhas roupas secarem, assim meu pai não ficaria sabendo que eu havia passado a tarde no rio. Para ele eu estava na biblioteca da cidade estudando. De repente fui abordado pela turma do Tuca. Um bando de pivetes que gostam de mexer e ameaçar os garotos da escola. “Olha quem apareceu no nosso pedaço, galera”! Exclamou o Tuca – chefe da gangue. Com ele havia uns cinco puxa sacos, todos ávidos em obedecer a suas ordens. Eu não podia acreditar que no meu último dia de férias, iria levar uma surra e provavelmente apareceria no primeiro dia de aula com o olho roxo.

Sabia que a surra seria inevitável, eram seis contra um. Sem contar que eu não tinha nenhuma experiência com brigas. A gangue foi se aproximando e se posicionado em volta de mim. Seria questão de minutos para levar uma surra homérica. “E aí, galera, o que vamos fazer com este moleque que invadiu o nosso território?” Perguntou Tuca já dando a entender que a questão era retórica. “Vamos fazer ele pagar um pedágio, Tuca”, falou todo orgulhoso o moleque que estava à sua direita. “Boa ideia, Bafo”, respondeu Tuca que já ia enrolando uma corrente em sua mão direita.

Naquele momento eu não conseguia me concentrar na gravidade da situação. Por mais estranho que possa parecer, eu só me preocupava em entender o motivo de apelidarem àquele moleque de “Bafo”. Será que ele tinha mau-hálito? Eu sei que essa deveria ser a última coisa a se pensar num momento com esse, mas era tudo o que vinha a minha mente.

Eles foram chegando cada vez mais perto. Tentei focar minha mente. Seria preciso formular uma desculpa para meu pai. Como explicar que apanhei na saída da biblioteca para onde eu disse que iria? Eu não sabia se fechava os olhos e aguentava os golpes de forma resignada, ou se era melhor tentar reagir. Talvez eu pudesse minimizar os estragos. “Deixem ele em paz”, gritou uma voz que veio de trás de mim. Virei a cabeça para olhar.

Era um moleque do meu tamanho com um cachorro beagle. Em sua mão tinha uma laranja que ele ficava jogando pra cima e aparando, num movimento de elevador sobe e desce. Talvez aquilo fosse para disfarçar o nervosismo, pensei eu. “Se vocês tocarem um dedo nele, vocês irão se arrepender” insistiu o malabarista de uma laranja só. Eu não conseguia acreditar. Como alguém que nem me conhecia podia ameaçar uma gangue de seis apenas com uma laranja na mão e um cachorro do lado? O pior é que o cachorro nem demonstrava ser perigoso. “Olha só, apareceu um anjo da guarda”, retrucou Tuca desenrolando a corrente da sua mão direita.

Não sabia se me alegrava com a pausa que a interrupção me proporcionou ou me concentrava na surra que ambos iríamos levar. “Aí, chefe, vamos dar uma lição neste suplicante e no vira-lata?” “Sim, Véio Zuza, vamos mostrar com quem ele mexeu.” Replicou Tuca. “Só vou avisar mais uma vez, deixe o garoto em paz e ninguém vai se machucar” avisava o moleque com a sua laranja na mão. “Você vai se arrepender de ter parido” gritou um pivete com um pacote de bolacha na mão. “Ter nascido, Fofão, idiota”, retrucou o Tuca. Eu não conseguia assimilar o que estava acontecendo. A prioridade era tentar achar uma desculpa para meu pai: como eu apanhei na biblioteca? “Aí, galera, vamos dar uma surra nesses dois pivetes”, gritou Tuca. Para mim, aquilo soou como uma pena de morte. Quando a gangue começou a se posicionar contra o garoto com a laranja na mão e o pequeno cachorro, eu vi que estávamos perdidos. “Última chance!”, gritou ele com a laranja na mão. Continuava jogando pra cima e aparando com a mesma mão, como se nada estivesse acontecendo. O cachorro olhava como se pressentisse que algo iria acontecer. Foi quando um dos garotos da gangue me segurou por trás, me deixando totalmente imobilizado. Nesse momento, Tuca gritou para pegar o moleque que havia desafiado a turma. Quatro foram em direção dele. O cachorro saiu em disparada, corria mais que um piloto de formula 1.

O menino que brincava jogando a laranja pra cima e pra baixo, como se fosse um malabarista, jogou a fruta em direção a uma janela de uma casa velha que ficava à beira da estrada, no meio do nosso caminho. Os segundos que se seguiram foram intensos, mas eu os enxerguei como se estivessem passando em câmera lenta. Todos nós sabíamos que a janela que ele acertou era do “Velho Buldogue”, um senhor aposentado, ranzinza, que tinha dois pitbulls, três rottweilers e cinco pastores alemães. Em menos de dois segundos após o barulho do vidro da janela quebrada, o canil inteiro começou a latir com sede de sangue. Dois tiros de espingardas foram disparados para o ar. Foi o suficiente para deixar todos paralisados.

No desespero, eu não sabia o que fazer. O beagle velho já estava do outro lado da cidade, foi o mais inteligente entre nós. Uma mão me agarrou por trás e gritou corra. Mais três tiros de espingarda foram dadas no ar e um portão se abriu. Caí na realidade. O perigo agora não vinha da turma do Tuca e sim do Velho Buldogue. Sem pensar duas vezes comecei a correr em direção ao meu “anjo da guarda”. O resto da gangue se espalhou como peças de quebra cabeça. Cada um para um lado diferente, e salve-se quem puder.

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