No último dia 27 de julho, a presidente do STF, Carmen Lúcia, manifestou sua preocupação quanto à polarização atualmente existente entre os brasileiros no que diz respeito à política. Segundo ela, atualmente “estamos nos colocando uns contra os outros e não contra as ideias uns dos outros”.

Talvez o leitor não se lembre, mas essa tal polarização, começou a ser construída logo após os resultados das eleições de 2014, quando certa emissora de televisão passou a veicular sucessivamente em seus telejornais a imagem do mapa do Brasil cortado ao meio, supostamente para indicar que os eleitores de determinado candidato se concentravam nesta ou naquela parte do país.

De acordo com uma publicação da revista Exame, em agosto de 2016, atualmente o assunto que mais motiva as pessoas a se ofenderem por meio de redes sociais é a política. Sim. Em pouco tempo conseguimos fazer com que o brasileiro discutisse mais por convicções políticas do que por futebol e religião, por exemplo. E isso acontece por um motivo muito simples; é que deixamos que a paixão assumisse as rédeas que deveriam ser da razão.

De acordo com o neurologista André Palmini, da Faculdade de Medicina da PUC do Rio Grande do Sul, quando estamos apaixonados desligamos inconscientemente os mecanismos que nos permitem analisar criticamente o objeto de nosso encanto. Ou seja, passamos a filtrar uma série de informações, optando por aquelas que reforçam nossa admiração pelo ser amado.

Da mesma forma, ao sermos adestrados a nos vermos como trouxinhas ou coxinhas adquirimos uma febre do rato, cada um à sua maneira, e nos apegamos à sensação que ela nos causa bem como seus sintomas. A saber, selecionamos contra quem nos indignar ou não, decidimos se vamos ou não fazer panelaços; se, desesperadamente, alguém deve ou não ser mantido na cadeia e até se reformas devem ou não acontecer, tendo como fator decisório não nossa razão, mas a paixão.

De certa forma, estamos mais preocupados em preservar os objetos de nossa paixão que a nós mesmos. Acontece que, por mais que durem, paixões viram amor ou fogo de palha uma hora terminam, seja porque o doente se curou ou então porque não resistiu e morreu. Para nossa infelicidade, enquanto febre ou paixão se estendem, quem perde é o Brasil como um todo. Para se ter uma ideia, o PIB brasileiro que já vinha sofrendo significativas flutuações despencou desde o início da crise política iniciada em 2014, e aqui vale ressaltar que a crise é política e não econômica como fomos levados a acreditar.

Portanto, nos curamos da nossa paixonite mesclada com febre do rato ou continuaremos em nome dessa paixão pagar o alto preço à Juan de Marco da inconsequência. Nas palavras da senhora Carmen Lúcia, podemos voltar a ser a “pátria gentil” ou continuar a nos digladiar nas arenas da paixão e aí independentemente de sermos trouxas ou coxas, certamente estaremos sendo burros.

Texto: Marcos Rodrigues

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil