Ao entrar por este terreno
Não deves temer ofensas quaisquer.
Não tentes mudar o que é pleno
Tampouco abrir fendas de “malmequer”.

Ao entrar por este terreno agreste
Não te movas bruscamente.
Já não importa, de outrora, o que fizeste
Mas não queiras o tormento novamente.

Entrai em plenitude.
Deixai de fora métodos, fórmulas…
… as rimas.
Sejais não mais tão manso quanto o cordeiro
Nem mesmo intenso qual o tigre.

Tigre, Tigre…
Já não te agracias mais nem mão nem olho imortal!
Já não mais tão temível é tua simetria.
Estás agora entregue à loucura de reis.

Deixai de fora, também, o formalismo demasiado.
Fala de modo que se entenda!
E não absorva desses terrenos
A secura predominante em poucos acres.

Não azede tua face frente à acridez de uns momentos
Nem se jogue às cegas à doçura emanada ao acaso.

Encontrará nesses domínios a influência de mil reinos:

Um rancor escocês de fatal ambição,
A trágica insanidade dinamarquesa,
Ambos, fruto da mesma necessidade
De idealizar o fantástico.

Os portões do meu reino estão entreabertos
Sujeitos a visitas inesperadas de muitas Ofélias.
E, tal qual o príncipe dinamarquês,
Já não me vejo tão consciente.

E entre letras e números escondo minha face.
E entre os reinos em meu reino, me enterro
Em delírios quase bélicos; quase belos.

Em meu reino composto já não há espaço
Para a futilidade e indecisão em muitos regaços.
Já não emana a sede juvenil, o medo, o modo, a tara.

Nesse terreno hostil, estabilidade é rara.
Se desfaz a cada passo. Se prolonga a cada afago.
A nudez da alma se rendendo ao acaso.
A nudez do corpo, satisfazendo-se no acaso.

Em meu reino, em minha alma, em meu corpo, ao meu lado
Todo o externo se desmancha
Todo extremo se preenche
E toda superfície se aprofunda.

Em meu reino, em minha alma, em meu corpo, frente a mim
Todo olhar se faz dramático e cego
Toda ansiedade é mansidão
Todo desejo é, a si mesmo, rendição (ou redenção?).

Em meu reino, em minha alma, em meu corpo, ao meu redor
Tudo leva à dor
E toda dor provém do desejo de abster-se à dor.
Só há um momento no qual é fundamental despertar: agora.

Em meu reino, em minha alma, em meu corpo, dentro de mim
Os dois extremos da vida se encontram
Numa valsa desvairada, arrítmica e fugaz
Nas lembranças do que jaz inerte, e no que pulsa irreverente.

Ao adentrares por estes portões
Vem em paz, mas prepara-te para a guerra
Infinda e feroz que mil a reinos assola
Em minha alma, em meu corpo, ao meu lado, frente a mim,
Ao meu redor, dentro de mim …

A inconstância subjetivada em pontos alinhados
Será companhia constante e irrefutável.
Não te iludas com o mal uso do verbo (descobres quais verbos)
Mas te entregas, em todo enunciado, em corpo e alma.
Ao adentrares por estes portões…