Sou uma pessoa um tanto desagradável. Falo alto, gesticulo muito, sou incisivo em minhas colocações. Para piorar, não tenho o mínimo traquejo social. Não sei como me vestir, não sei como me portar, evito entrar em ambientes que considero requintados demais para o meu poder aquisitivo.

Durante muito tempo culpei os outros. Eram eles os diferentes, eram eles que não atendiam às minhas expectativas, eram eles que não entendiam a minha genialidade. Eu era um diamante bruto esperando alguém me descobrir e lapidar. Mas a gente cresce e amadurece. Os tombos ao longo da vida vão nos fazendo aprender. Como diria Nietzsche, “aquilo que não me mata, me fortalece”. Tudo bem. Você está certo, acabei de reproduzir um grande clichê, mas acabei não resistindo.

Eu continuo sendo uma pessoa desagradável, mas gosto de acreditar que, a cada dia um pouco menos. Eu tenho analisado o meu comportamento. Tenho me observado e tenho tentado explicar para mim mesmo o motivo de ter feito o que fiz. A cada dia descubro um pouco mais de mim, das minhas falhas. É assim que vou tentado melhorar. Vou buscando soluções para os meus defeitos, para as minhas dificuldades de adaptação. É um trabalho penoso e cansativo, mas os frutos são muito doces.

Não acho que seja necessário mudar quem eu sou para me adaptar ao que os outros desejam de mim. Acredito apenas que não há mal nenhum em descobrir minhas falhas e tentar, conscientemente, melhorar a cada dia.

Existem pessoas que têm medo de abalar suas convicções. Bem, se as minhas forem abaladas significa que não eram tão sólidas quanto eu havia imaginado. De qualquer modo, é sempre bom nos questionarmos, reafirmarmos aquilo em que acreditamos, ou então descobrir que estávamos errados. Tudo isso faz parte do amadurecimento, mas, como diria Raul, é sempre mais fácil achar que a culpa é do outro. Eu sei, mais um clichê. Viu? Percebi mais uma falha minha. No momento em que isso começar a me atrapalhar de alguma forma, vou buscar me corrigir.

Platão recomendava que, todos os dias antes de dormirmos, repassássemos em nossa mente os acontecimentos do dia e explicássemos para nós mesmos o motivo de termos feito determinadas coisas. Nós costumamos criar desculpas que justifiquem o nosso comportamento, mas é importante sabermos no nosso íntimo o verdadeiro motivo. Só assim conservaremos intacta a nossa consciência.

Alguns séculos depois, Agostinho de Hipona escreveu o livro As confissões. Um clássico da literatura intimista e autobiográfica. Não é preciso ser católico para apreciar esse livro. De qualquer forma, a confissão é hoje um dogma da Igreja Católica. Muito mais do que contar ao padre, você precisa contar para si mesmo a verdadeira motivação dos seus atos.

Não sou católico, nunca fui, mas é assim que eu tento conservar minha sanidade. Não tenho padre para me confessar, mas todos os dias, antes de dormir, conto para mim mesmo por quê fui grosso com aquela pessoa, por quê contei aquela mentira, por quê agi de forma errada. Isso impede que a minha argumentação entre pela seara do vitimismo. Isso faz com que eu saiba quem sou.

Torço para que a utopia do aperfeiçoamento contínuo continue me guiando.

 

José Fagner Alves Santos

Foto de Hernan Herrero