O atual liberalismo é a redescoberta tardia de um projeto de tolerância surgido no século XVI, no continente europeu.

 

Na última segunda-feira, dia 17 de abril de 2017, foram lançados dois livros sobre o economista e diplomata, Roberto Campos. Ele estaria, se vivo ainda fosse, comemorando 100 anos de idade. Roberto Campos foi um dos maiores expoentes do liberalismo do País.

O primeiro desses livros, Lanterna na proa, foi organizado por Paulo Rabelo e Ives Gandra da Silva Martins; o segundo, O homem que pensou o Brasil, teve como organizador Paulo Roberto de Almeida. Os dois livros se complementam e são leitura indispensável para quem quer entender o desenvolvimento das ideias no Brasil no último século.

Roberto Campos era contra o estatismo, o protecionismo e o populismo. É dele a frase: “A primeira coisa a fazer no Brasil é abandonar a chupeta das utopias em favor da bigorna do realismo”.

Aproveito a oportunidade para fazer algumas observações sobre o liberalismo. Os amigos mais próximos sabem que sempre defendi alguns valores liberais, como a economia de mercado e a tolerância na convivência. Não que a ideia de tolerância tenha começado com o liberalismo. Na Índia budista, na antiga Alexandria, entre os otomanos e os mouros, na antiga sociedade romana, religiões diferentes coexistiram por longos períodos de paz. No entanto, o ideal de uma vida comum que não está baseada em crenças comuns é uma herança liberal.

De qualquer modo, não defendo o liberalismo como ideia perfeita, longe disso. Tenho plena consciência de que, também aqui, existem os fanáticos empunhando certas ideias com ardor religioso. Além do mais, todo idealismo tem um toque dogmático. Mas existem divergências dentro da própria corrente.

O liberalismo sempre teve duas faces. De um lado, a busca por uma forma de vida ideal, travestida de tolerância. Na outra vertente, a tentativa de encontrar modos de viver em paz no meio de diferentes modos de vida. Não sei se você percebeu, mas são ideias antagônicas. E essa não é a única contradição. Grosso modo, o liberalismo pode ser dividido em dois grupos:

  • O primeiro deles busca a melhor forma para a aplicação de princípios universais, uma receita para um regime universal. Seus principais representantes seriam John Locke, Immanuel Kant, John Rawls e, em certa medida, Friedrich A. Hayek.
  • O segundo procura meios para a coexistência pacífica, um projeto de coexistência. Seus principais representantes seriam Thomas Hobbes, David Hume, Isaiah Berlim, Michael Oakeshott.

No caso de existir um modelo universal que possa ser aplicado, a própria ideia de tolerância estaria ameaçada. E é preciso lembrar que as sociedades atuais são profundamente mais complexas, mais diferenciadas do que aquelas em que o liberalismo nasceu. Além do mais, a experiência nos mostra que os conflitos pessoais e sociais não podem ser evitados, já que os seres humanos sempre terão razão para viver diferenciadamente.

Tomemos dois casos práticos como exemplo:

  • Locke compreendia a tolerância como um modo de levar as pessoas para a única religião que ele acreditava ser verdadeira. Mas essa mesma tolerância, dentro daquilo que ele compreendia, não poderia ser estendida aos ateus ou aos católicos, porque ele não tinha certeza de que a simples persuasão os guiaria para aquele credo;
  • Hobbes, por sua vez, via a tolerância como um projeto de entendimento. Ele não se importava com a crença que o indivíduo pudesse ter, apenas via a tolerância como uma ferramenta para manter a paz. A finalidade da tolerância, desse ponto de vista, seria a coexistência e não o consenso.

Ficou claro? A realidade é muito mais complexa do que supõe algumas ideologias. As pessoas sempre terão motivos válidos para viver de formas diferenciadas. Nem sempre é possível chegar a um consenso. Respostas simples com apelo populista estão muito mais próximas de esquemas religiosos do que da ciência em si.

De qualquer forma, recomendo os dois livros sobre o Roberto Campos. Conhecimento nunca é demais.

 

José Fagner Alves Santos

Imagem: Julia Freeman-Woolpert