Diz a regra da boa convivência que, em um diálogo entre duas pessoas, um fala e o outro ouve para logo depois contra-argumentar. Tudo isso de forma educada, com base na argumentação saudável.

Diz a regra pois, na prática, a teoria é bastante diferente.

Hoje não debatemos mais: atacamos violenta e selvagemente. Na maioria das vezes, temos uma sede imensa de colocar o outro em uma posição humilhante. Queremos ser o dono da verdade e, baseados em um discurso frágil e ensimesmado, nos colocamos como PhDs em tudo, tendo como base científica os nossos próprios achismos, o que nos faz desmerecer e até evitar o contraditório, seja por medo ou insegurança.

E isso, definitivamente, não é debate. É monólogo.

Desprezamos experiências e opiniões, queremos a razão em tudo para assim garantirmos a supremacia e o poder ilusório da chamada “última palavra”. Desconsideramos a inteligência alheia pelo simples fato de nos julgarmos acima do bem e do mal, em uma atitude infantil e absolutamente pequena.

Em atitudes arrogantes e prepotentes, queremos comprovar por A mais B que o outro está errado ou, pelo menos, não tem tanta razão quanto aparenta, mesmo que sua argumentação ou experiência permita esta ou aquela avaliação.

Em outro olhar, menosprezamos a conquista e o saber individuais, muitas vezes, pasmem, em uma equipe que deveria trabalhar em prol de um bem comum cada vez mais teórico. Uma situação mesquinha e ignorante, que só acirra os ânimos de maneira desnecessária.

O resultado disso: uma luta inglória na qual a vitória existe apenas para um ou alguns poucos, mas perde o coletivo, em uma espécie de reafirmação das palavras de Fernando Henrique Cardoso no primeiro volume de seus “Diários da Presidência”:

Cada um faz do seu mundo um pequeno mundo

É como se evoluíssemos em um caminho que nos leva do nada ao lugar nenhum. E o resultado: a massificação do revanchismo e consolidação da ignorância.