Meu pai sempre foi enfático sobre o respeito que deveríamos ter à vida animal. Ele dizia que só era permitido matar algum animal se fosse para seu próprio consumo. E antes que os vegetarianos de plantão procurem a maior pedra para atirar, isso aconteceu na época em que Elvis ainda era vivo. A regra só não valia para os ratos, mas deixo esse assunto para outra crônica.

Sempre acreditei que meu pai usava essa argumentação como forma de amenizar sua culpa quando ele era obrigado a matar alguma galinha ou coelho para o almoço de domingo. Mesmo tendo presenciado essas cenas, nunca tive a intenção de, algum dia, ter eu mesmo que matar algum bichinho. O máximo que eu fazia, desde pequeno, era pescar, limpar e assar o peixe ao lado do rio, junto com os meus amigos, enquanto contávamos algum causo. Sempre levei a sério a regra que meu pai tinha incutindo em mim.

Certo dia, após voltar das aulas, busquei a sombra de uma árvore para descansar e enquanto digeria a comida do almoço. Comigo havia um estilingue feito com borracha de câmara de pneu de avião. Não me perguntem como eu adquiri, ou como eu poderia ter certeza da legitimidade e da origem do produto. Eu era apenas uma criança de 8 anos com uma boa conexão.

Estava eu treinando algumas estilingadas, procurando aperfeiçoar a minha boa pontaria. Neste momento, um pardal, posou do outro lado da rua. Uma distância boa. Aquele pequeno pássaro havia calculado perfeitamente o quanto precisaria ficar longe do perigo ou do alcance do pequeno Silva. Sem pestanejar, minha mão esquerda procurou por alguma pedra com formato arredondado, na terra ao meu redor, e num movimento imperceptível pelo pardal, coloquei aquela pedra no estilingue e pensei em pregar um susto no inocente e indefensável pássaro. A ideia era assustá-lo com o barulho da pedra passando perto. Mirei, calculei o vento e gravei todos os detalhes para poder contar depois aos meus amigos. Puxei a malha para atrás da minha orelha esquerda, enquanto, com a mão direita, eu procurava deixar aquela forquilha o mais distante da minha vista, centralizando o pequeno pardal na minha mira imaginária. Quando soltei a malha, a pedra foi lançada em tamanha velocidade que nem o filho do vento alcançaria.

O que era para ser engraçado, virou um trauma. O pequeno pardal nem teve tempo de ouvir o zunido da pedra. Ela acertou em cheio na nuca do pequeno suplicante. Neste momento gelei. Por estar muito longe concluí que o pardal havia se escondido nos arbustos à sua frente. Corri até lá na esperança de não o encontrar, desejando que ele tivesse voado no último instante. 

Chegando lá, só pude constatar, pela quantidade de sangue no chão, que a morte tinha sido instantânea. E agora, o que eu faria?

A intenção não era tirar a vida daquele pequeno ser, mas a “cagada” estava feita. Peguei aquele pequeno ser, corri para casa, agradecendo aos céus por minha mãe ter ido visitar a minha tia. Coloquei um pouco de água para ferver, peguei uma faca, cortei a cabeça e deixei escorrer o resto do sangue, do mesmo modo que meu pai fazia com as galinhas. 

Depois, depenei a pequena criatura com água fervente e, em pouco tempo eu já havia limpado as tripas e demais órgãos. Coloquei uma frigideira no fogo e adicionei óleo quente, temperando com pimenta do reino e sal.

Minutos depois eu estava comendo o pequeno animal, mesmo sem fome. Eu tentava aliviar o peso na consciência, justificando que ele havia se tornado meu alimento. O máximo que deu foi para palitar os dentes com um de seus finos ossos.

Naquele dia aprendi uma lição: usar apenas pimenta do reino para tempero.