No filme MIB Homens de Preto, os agentes intergalácticos, quando querem que alguém esqueça algo importante, lançam mão de um dispositivo que dispara uma luz fortíssima que produz um tipo de reset na memória das pessoas. Estivessem no Brasil, tal dispositivo seria algo desnecessário.

No último dia 04 de agosto, durante convenção do PT, ficou decidido que Lula seria mesmo lançado candidato à Presidência da República, o que chama atenção, pois o candidato já é considerado inelegível dada as circunstâncias em que se encontra, ou seja, preso. Sem falar do outro obstáculo que diz respeito ao silencio imposto pela juíza Ana Lebos, que o proibiu de dar entrevistas, embora não seja incomum que presos façam matérias televisivas no Brasil atual. Portanto, fazer campanha parece algo quase inalcançável para o ex-presidente.

Mas, se Lula sabe que muito provavelmente não retornará ao Planalto em janeiro de 2019, o que então ele busca com toda essa luta para continuar a ser o líder do PT? Por que busca falar aos eleitores mesmo que por meio de cartas enviadas através dos advogados e até permite que advogados que nem conhece use seu nome em pedidos de habeas corpus, alguns sendo nada mais que cópias uns dos outros, conforme ocorreu no mês de julho, quando mais de 251 ações ingressaram no Superior Tribunal de Justiça?

Simples. Ele não quer ser vítima do sistema automático de reset instalado de fábrica, que a maioria dos brasileiros possui em suas memórias. Ele sabe que, se cumprir, mesmo que apenas um terço dessa pena atual em silencio, quando retornar ao mundo externo terá perdido alguns desses cerca de 40% de eleitores fiéis.

Mas não é só o Lula que corre contra o tempo, ou melhor, contra os efeitos do auto reset. Aécio Neves, derrotado em 2014 e com a imagem manchada por denúncias suficientes para fazê-lo não intentar a vaga no Planalto, nas eleições de 2018, tenta aproveitar os eleitores que ainda lhe são fiéis para conseguir a modesta vaga de deputado federal por Minas Gerais, que por curiosidade não foi sua melhor fonte de votos em 2014. Também por meio do eleitorado mineiro, mas com um pouco mais de ousadia,  a ex-presidente Dilma Roussef busca uma vaga no Senado Federal. Em comum ambos têm o fato de que não querem ser esquecidos pelo eleitorado e almejam reconstruir suas trajetórias.

O sistema de auto reset brasileiro mostrou-se eficiente em diversos casos. Na política temos casos como o de Paulo Maluf que só não saiu candidato a cargo público este ano porque obteve direito de prisão residencial sob alegação de estar moribundo. Na condição de réu por crime de lavagem de dinheiro e corrupção passiva, desde 2006, por crimes cometidos entre 1993 e 1996, Maluf conseguiu se eleger graças ao auto reset para o cargo de deputado federal por São Paulo, em 2006, 2010 e mais recentemente em 2014.

Mas não é apenas em favor de casos como o de Maluf que o auto reset funciona eficientemente. De acordo com dados de uma pesquisa realizada em 2018 pela Ideia Big Data, 79% dos eleitores brasileiros não sabem em quem votaram para deputado federal, em 2014. Outras pesquisas indicam que o mesmo acontece com o voto para deputado estadual e, com menos incidência, também com os votos para senadores. Isso significa que a maioria do eleitorado não sabe de quem cobrar representatividade, simplesmente por que não sabe em quem votou.

A ação do sistema de auto reset é danosa por que ela nos leva a uma questão que é mais importante do que escolher um novo presidente para o Brasil. Trata-se da questão da governabilidade. Ter governabilidade significa que o governante está negociando e distribuindo cargos e oferecendo vantagens para que os partidos o apoiem mesmo em decisões que não reflitam a vontade do eleitorado.

Devido a ações de maquiagem nas contas públicas, as chamadas “pedaladas fiscais” e também graças à governabilidade abalada, o processo de impeachment contra Dilma Roussef atingiu seu objetivo em 2016, obtendo 316 votos a favor do prosseguimento e apenas 137 contra. Em comparação, Michel Temer, em 2017, mesmo com delações, malas de dinheiro e até denúncia por obstrução da justiça, negociou com os partidos, relocou ou criou cargos e liberou verbas e como resultado obteve governabilidade. Prova disso foram as rejeições na Câmara dos dois processos que poderiam levá-lo ao impeachment.

Com isso, o que podemos entender é que, tão importante quanto escolher um presidenciável que reflita nossos anseios é escolher deputados e senadores que lhe garantam sua governabilidade, de preferência sem a necessidade de mensalinhos, mensalões ou qualquer nome que venhamos a dar com intenção de incriminar ou maquiar.

Quando nasce um brasileiro, ele traz em si uma etiqueta na qual está escrito “Sistema de Auto Reset Inside”. Infelizmente não precisa ativá-lo, ele já está operante e, para nossa infelicidade, é eficiente e quase que à prova de vírus que o destrua. Sim. Precisamos desabilitar tal sistema nocivo. Começar a escolher e lembrar quem foi o escolhido para poder cobrar de alguém.

Se não acabarmos logo com o auto reset continuaremos reclamando e sendo culpados pela causa de nossas reclamações. Ou nos tornamos responsáveis pelas ações que tomamos e passamos a decidir de forma certa ou outros decidirão por nós exclusivamente de acordo com seus interesses.