Foto Mariana Mascarenhas 

Olhares que gritam, choram, se desesperam…. mesmo que o corpo não corresponda externamente a tais expressões, aprisionado num silêncio oprimido, que chega a ser sufocante. Contrariando tal aprisionamento, vemos mãos e braços levantados, brados e clamores resistentes a opressões, enfim, LEVANTES. Este é o tema da mostra em cartaz no Sesc Pinheiros, cuja temporada se encerra em 28/01/2018.

Levantes é uma exposição que transcende histórias, épocas e gerações para traçar singularidades que se assemelham na vivacidade do ato da resistência e da revolta. A mostra apresenta maneiras distintas de gestos populares e políticos, decorridos das transformações sociais, refletidos em revoltas e/ou revoluções.

Pinturas, fotografias, vídeos e documentos compõem a mostra de curadoria do filósofo e historiador da arte, o francês Georges Didi-Huberman, considerado um dos maiores intelectuais franceses de sua geração. Com dezenas de livros publicados, suas obras contemplam reflexões aprofundadas numa perspectiva interdisciplinar, que, situada no âmbito filosófico, vai da filosofia da imagem à história da arte, passando pelo cinema e pela literatura.

Fotos Mariana Mascarenhas (clique na imagem para ampliá-las)

Realizada pela instituição francesa Jeu de Pamme, a mostra já percorreu diversos lugares do mundo e, para sua exibição no Brasil, foi feito um recorte especial que possa trazer o público para a realidade do próprio país. Ao contemplar as imagens expostas, é possível identificar levantes populares nos mais diversos locais do mundo, que se diferenciam pelo contexto, geografia, história e cultura.

Singularidades que, apesar de tão distintas, se unificam no olhar fotografado, no gesto, enfim, no poder da imagem que capta a essência da indignação humana: a qual ultrapassa fronteiras para nos alertar que, por trás de tudo isso, independente do contexto, existem seres humanos clamando por serem vistos como seres humanos.

Por meio dessa mostra, Didi-Huberman nos faz uma provocação de cunho filosófico sobre até que ponto a imagem é capaz de nos chocar e o quanto seu excesso pode nos acomodar diante do trágico, aniquilando nossa capacidade de enxergar o outro sob o olhar dele, e nos centrando em nossas individualidades e egoísmos.

Uma outra reflexão trazida está no fato de que as reinvindicações populares não se concentram apenas nos gestos físicos, mas, e principalmente, na retratação imagética. Afinal a imagem em si já significa um levante quando nos traz tais gritos, clamores e opressões, mesmo quando o grito não acontece literalmente. Caso da exibição de fotos dos campos de concentração nazistas, em que os judeus não podiam reivindicar qualquer ato que fosse, mas o retrato de seus rostos e sofrimentos já se configura como um grande levante, com o intuito de chocar e alertar para a catástrofe da época.

Trata-se de uma mostra para ser apreciada com tempo e que nos provoca sobre os mais diversos prismas sociológicos, históricos e filosóficos sobre nossa capacidade de enxergar o sofrimento no olhar do outro e o por quê da relevância de se levantar contra a opressão. Gesto movido pelo sonho e desejo de mudança.

Sigmund Freud, antes de ter de reconhecer a eficácia da pulsão de morte – ele precisou da Primeira Guerra Mundial para isso -, já havia afirmado, no fechamento de seu livro sobre o sonho, a “indestrutibilidade do desejo”. Que magnífica hipótese! Como seria bom se fosse verdade! A indestrutibilidade do desejo é algo que nos faria, em plena escuridão, buscar uma luz apesar de tudo, por mais fraca que fosse. Para quem está perdido numa floresta em plena noite, a luz de uma estrela distante, de uma vela por trás de uma janela ou de um vaga-lume bem perto é incrivelmente bem-vinda. É quando os tempos se levantam.

Didi-Huberman

Serviço:

Exposição Levantes

Onde: Sesc Pinheiros – Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo (SP)

Quando: terça a sábado, das 10h30 às 21h30; domingo, das 10h30 às 18h30

Quanto: Grátis

Até 28/01/18