Todos acham que sabem escrever, mas um pouco de leitura deixaria isso mais claro

Ainda hoje é muito grande o número de pessoas que me abordam pedindo dicas para publicar um livro. Alguns têm a ideia na cabeça, outros já estão com o livro escrito, alguns poucos já escreveram dois ou três volumes diferentes.

Confesso que fico sensibilizado. Em tempos de internet as pessoas continuam cultivando o livro, esse objeto tão antigo e tão atual. Inevitavelmente recordo-me de alguns versos do Humberto Gessinger, “nos interessa o que não foi impresso, mas continua sendo escrito à mão. Escrito à luz de vela, quase na escuridão. Longe da multidão”.

As dicas são sempre as mesmas: crie um blog, publique constantemente, desenvolva um público. Tente as editoras pequenas, tente a auto publicação.

A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo?

Luis Fernando Verissimo
A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo mas é claro, certo?
Luis Fernando Verissimo

Essas sugestões partem do pressuposto de que a pessoa quer ver seu livro publicado, quer ter o volume impresso para presentear os amigos e parentes. Esse conceito, no entanto, vem mudando gradativamente nos últimos dois anos. A maior parte das pessoas que me abordam quer publicar em alguma editora específica. A pergunta é sempre assim: “como eu faço para publicar na editora X?”. Confesso que não tenho a resposta. Conheço algumas poucas pessoas do mercado editorial, sei que a triagem é um tanto rigorosa, a não ser que você seja diretamente indicado por alguém.

É aí que eu entro, ou ao menos é isso que as pessoas acham. Essas pessoas querem ser indicadas. Querem que eu vá diretamente ao editor e diga que ele deve publicar aquele manuscrito.

Invariavelmente eu faço o exercício de ler o material em questão. Nunca se sabe quando vai aparecer o próximo Hemingway. O fato é que, a maioria desses amigos escritores não tem noção básica de escrita. Desconhecem completamente as regras gramaticais – qualquer que seja –, mal conseguem desenvolver uma estrutura frasal e elaboram tramas pueris.

Claro que eu não sou especialista em gramática, basta ler o que escrevo para perceber o quanto desconheço da nossa querida língua; não tenho lá grande domínio da escrita e não saberia desenvolver uma trama ficcional, por mais pueril que fosse. A diferença é que eu tenho consciência disso. Não fico incomodando meus amigos da área de comunicação exigindo ser indicado.

Conto tudo isso para ilustrar essa nossa falta de autoanálise. Não conseguimos nos enxergar. Acreditamos naquela autoprojeção criada pela nossa vaidade. É a falta desse exercício de consciência que tanto tem prejudicado nosso convívio social. Se o meu amigo não enxerga como eu sou fantástico, é porque suas limitações intelectuais não o permitem. Enquanto houver essa linha de pensamento as relações de sociabilidade se limitarão a um ritual de fingimentos autoglorificantes.

Pensemos nisso.

José Fagner Alves Santos