Num mercado em que 68% dos jornalistas trabalham com assessoria de imprensa, ter uma segunda opção é sempre uma boa ideia.

Ainda na faculdade eu achava engraçado uma seção da Revista Imprensa intitulada Coleguinhas. Ela trazia, invariavelmente, exemplos de profissionais do jornalismo que haviam trocado de profissão ou que mantinham alguma outra ocupação em paralelo.

O que eu, na minha grandiosa ignorância, achava engraçado era o fato de existir um espaço destinado aos profissionais de jornalismo… que haviam se afastado do jornalismo. Eu pensava que aqueles não eram exemplos a serem citados. Para mim o espaço deveria ser usado com exemplos de jornalistas que haviam atingido sucesso na profissão, contando o caminho das pedras para os iniciantes como eu.

Mas isso foi antes de eu me mudar para a Capital Paulista, antes de eu ter que enfrentar o complicado mercado de trabalho. A maior parte dos jornalistas que mudam de profissão não o fazem por opção, mas por falta dela.

Recebi propostas de agências de comunicação que me ofereciam 2 dólares por artigo. Sim, você leu corretamente, dois dólares, pouco mais de quatro reais. Tudo bem que o valor era para texto de cozinha, não precisaria me deslocar para captar informações in loco, mas, ainda assim, seria necessário pesquisa e técnica e o valor continua sendo irrisório.

Em artigo publicado no blog Comunique-se, a jornalista Karin Villatore chama a atenção para o fato de que 68% dos profissionais formados em jornalismo trabalham em assessorias de imprensa. Os trinta e dois por cento restante se dividiriam em todas as possíveis categorias: jornalistas de TV, rádio, revista, jornal, online, etc.

Em resumo, a possibilidade de um jornalista morrer de fome se não tiver uma segunda opção de trabalho é uma realidade. A maior parte dos colegas tem que trabalhar em assessoria, não que isso seja demérito, mas seria bom ter mais opções.

Só depois de viver na pele foi que entendi que o mercado de trabalho para jornalistas, ao menos aqui em São Paulo, era bem diferente da idealização que eu fazia na faculdade. E que a seção Coleguinhas da Revista Imprensa era apenas um reflexo da nossa triste realidade.

José Fagner Alves Santos

Este artigo faz parte da campanha #PEDAblogBR.