As ideias de Agostinho sobre o sexo continuam influenciando, ainda hoje, o pensamento de muitos setores religiosos.

Por mais que eu me esforce, não consigo lembrar o nome daquele garoto negro e gordo que frequentava a escola dominical comigo. Estranhamente, recordo muito bem de várias conversas que tivemos no caminho para casa. Voltávamos sempre debatendo assuntos que não tínhamos coragem de expor dentro da igreja.

Eu devia ter entre nove e dez anos de idade. Frequentava a igreja desde sempre, era um garoto temente a Deus, e costumava me sentir um tanto falso por não conseguir cumprir tudo aquilo que se esperava de mim. Tinha internalizado os valores cristãos, mas achava muito chato ter que frequentar o culto diariamente. Minha mãe fazia certa pressão, ela acreditava que aquilo era o melhor para mim.

Ainda não tínhamos aparelho de TV em casa, eu não tinha autorização de brincar na rua, frequentava a escola de segunda a sexta e, aos domingos, levantava cedo para ir à escola dominical, minha vida toda era muito chata. Eu acreditava que seria mais prazeroso ficar em casa dormindo.

Num domingo em que voltávamos de uma dessas reuniões, a conversa adentrou o campo da sexualidade. Dois moleques que mal haviam saído das fraldas discutindo sexo. Eu tinha medo de dizer algo que soasse pecaminoso, mas o garoto gordo parecia um pregador extremista. Descreveu a sexualidade como sendo um dos maiores erros da humanidade, argumentou que só os filhos de Satanás cederiam a esse tipo de tentação.

Eu, achando que estava fazendo uma ressalva muito inteligente, contra argumentei: “a não ser que as pessoas sejam casadas.” O gordo olhou para mim com o cenho franzido e disparou: “Nem sendo casados. O casal só pode fazer uma única vez, para fins de reprodução.”

Não respondi nada, mas pensei: e os casais que têm mais de um filho?

Seguimos em frente sem dizer mais nada. Aquela não era necessariamente a postura da igreja, mas era uma visão que o meu amigo gordo havia desenvolvido com base em tudo que ele vinha escutando. De qualquer modo, aquela conversa me impactou. Anos depois, quando entrei na puberdade e o desejo começou a aflorar, o sentimento de culpa era uma constante. Eu tinha medo de conversar com algum adulto sobre o tema. Não queria que me achassem um depravado. Foi um período bastante difícil.

Só muito tempo depois fui descobrir que a ideia do pecado original era uma construção feita por Santo Agostinho, em seu livro As Confissões, e que esse foi um dos pilares do cristianismo durante muito tempo.

Tudo isso me voltou à memória na semana passada, enquanto lia, na revista piauí, o ensaio: Santo Agostinho, Inventor do Sexo – Como o autor das Confissões concebeu a doutrina do pecado original, escrito pelo jornalista Stephen Greenblat. Esse texto foi publicado originalmente na revista The New Yorker, e é uma versão resumida dos primeiros dois capítulos do livro Ascenção e Queda de Adão e Eva, que será publicado no mês de abril pela Companhia das Letras. O Contardo Calligaris já havia escrito sobre ele.

Gosto muito desse tipo de estudo, que faz um mapeamento sobre a criação e evolução de uma ideia ou conceito. Afinal, é muito comum repetirmos argumentos que nos chegam prontos. E é sempre bom ter noção de suas origens.