Publicado em 22 de setembro de 2015 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

Um filme para ser bom não necessariamente precisa investir em recursos altamente tecnológicos e apresentar grandes efeitos especiais, muito pelo contrário: um longa que saiba explorar, com riqueza de detalhes, a profundidade das relações e conflitos sociais, tendo como maior enfoque o trabalho interpretativo dos atores, pode atrair numerosos públicos por gerar empatia nos telespectadores.

O mercado cinematográfico europeu é um exemplo que segue esta linha, muitas vezes contrária às megaproduções hollywoodianas, criando pontos de identificação nos espectadores com os conflitos vividos pelos personagens dos filmes. O cinema brasileiro não fica de fora e também conta com longas que cativaram públicos pelos dramas sociais, como Central do Brasil, O Ano em que Meus Pais saíram de férias, É Proibido Fumar – estes dois últimos com direção de Anna Muylaert.

Um dos filmes do gênero mais recentes, também dirigido por Anna Muylaert, que estreou há pouco tempo nos cinemas, e está em cartaz em 22 países, é Que Horas Ela Volta? Na trama, Regina Casé vive Val, uma empregada doméstica que mora na casa dos seus patrões em São Paulo e não vê a filha Jéssica (Camila Márdila), que mora no interior de Pernambuco, há 13 anos.

Sempre obediente a todos os pedidos da patroa Barbara (Karine Teles), as relações começam a se abalar quando a filha de Val decide ir à São Paulo prestar vestibular e hospeda-se na casa onde a empregada está. Inconformada com a “prisão social”, a qual sua mãe está submetida, sempre fazendo suas tarefas de forma praticamente robotizada, sem nunca contestar e se rebelar com os patrões, Jéssica não agrada especialmente Barbara, com seu jeito temperamental e impositivo de ser.

Anna esmiúça as diferentes barreiras existentes entre classes sociais e famílias cujos membros se isolam em seus mundos virtuais dos celulares e computadores, enfraquecendo e rompendo laços e diálogos familiares – o que no longa fica presente na linha divisória que separa Val dos donos da casa e limita o espaço da empregada à cozinha e ao quartinho onde ela dorme, além da ausência de diálogos mais profundos entre Barbara, seu marido (Lourenço Mutarelli) e o filho adolescente (Michel Joelsas), os quais apenas compartilham um espaço físico, mas mal se interagem entre si.

A constante aparição da imagem de uma porta, dividindo o cenário da cozinha e da sala da residência onde Val trabalha – reforçando a divisão social imposta pelos patrões – é um dos elementos que causa tensão na plateia pela forma como os personagens parecem viver em suas bolhas individualistas, temendo romper fronteiras.

Regina Casé destaca-se no filme potencializando a transformação gradativa de seu personagem após a chegada da filha, perceptível na mudança de uma Val sempre preocupada em agradar os patrões e seu filho – conferindo-lhes um tratamento diferenciado em relação ao dado a Jéssica – para outra Val que começa a perceber a prisão a que estava submetida e a aproximar-se mais de sua filha.

Que Horas Ela Volta?  levou o prêmio de público no Festival de Berlim e ganhou prestígio internacional pelos países onde passou.

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