As obras de arte são ferramentas que nos ajudam na compreensão da realidade e não se esgotam numa única investida interpretativa. Estas se multiplicam ao infinito, demonstrando com isso seu potencial de permanência no imaginário coletivo. De tempos em tempos, essas obras são reinterpretadas de acordo com as pautas do momento. Algumas dessas releituras são bem sucedidas, enquanto outras caem no esquecimento. O filme O Poço está na primeira dessas categorias. Seu resultado é tão bom que a produção ganha vida própria e consegue se descolar da sua principal fonte de inspiração, A Divina Comédia, de Dante Alighieri.

O filme, dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia, é uma bela metáfora sociológica que, de tão óbvia, salta aos olhos do mais desatento espectador. O diretor não abre mão das referências abundantes, passando pela antropofagia religiosa, filosofia girardiana, poesia de Oscar Wild, até as alucinações de Dom Quixote e os círculos do inferno de A Divina Comédia – representados pelos níveis do poço. Tudo isso, somado a pitadas de terror e violência explícita, contribui para impactar o expectador logo nos primeiros minutos. O filme, no entanto, não é uma obra didática, quase não apresenta respostas. Pelo contrário, ao final da obra as perguntas são abundantes, contribuindo muito mais para explicar a realidade de forma figurativa do que para ser esmiuçado numa resenha que pretenda desvendar seu significado.

A película conta a história de Goreng (Ivan Massagué), uma figura alta e magra – parecendo uma versão mais jovem do personagem Dom Quixote – que escolhe, por algum motivo que não fica claro (teria sido o desejo de parar de fumar?), passar uma temporada na prisão vertical conhecida como O Poço. Seu primeiro companheiro de cela vai fazendo o papel de orelha da história, explicando os detalhes de funcionamento do lugar:

“Existem três tipos de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem”.

Esse mesmo personagem orelha, Trimagasi, faz questão de mostrar como as metáforas iniciais são óbvias, chegando ao ponto de se achar dono do termo.

Cada cela suporta dois prisioneiros. Um grande buraco no centro serve de caminho para uma plataforma que desce diariamente com alimentos. Essa plataforma para por dois minutos em cada cela vertical. Esse é o tempo que cada prisioneiro tem para comer. Para completar, eles não podem estocar nada. A metáfora está clara, os de cima comem primeiro e os de baixo vão ficando com as sobras. Quanto mais em baixo, menor a quantidade de alimento diário.

A cada mês, no entanto, os presos trocam de andar. Quem está em cima hoje pode estar em baixo amanhã. O confinamento somado às incertezas do futuro mais imediato fazem despertar os instintos mais primitivos em cada um. As referências a Dante são “óbvias”, as metáforas sociais também. A referência a Dom Quixote está dada desde o momento em que Goreng escolhe levar para sua cela um exemplar do livro. Ele planeja ler o romance durante seu período de confinamento.

Semelhante à nova esquerda, o personagem principal faz alusão a livros que nunca leu e romantiza a luta, tal qual a batalha do Cavaleiro da Triste Figura contra os moinhos de vento. O livro de Cervantes é um apanhado de anedotas sobre um esquizofrênico que acredita lutar pela melhora da sociedade. Em resumo, nenhum lado é poupado da crítica feroz.

A história foi escrita originalmente para ser uma peça de teatro, mas nunca foi encenada.

Muitos tentaram esclarecer toda a simbologia e alegoria da obra, eu prefiro deixar que você se divirta procurando os esclarecimentos na sua bagagem pessoal. Essa é uma obra que serve muito mais para explicar do que para ser explicada. As interpretações são infinitas, tal qual A Divina Comédia ou Dom Quixote, você só precisa desenvolver a sua.

Vejam a explicação da própria Netflix: 

Disponível na plataforma de streaming Netflix, com 94 minutos de duração, O Poço é um filme com classificação etária de 16 anos, cheio de violência explícita, linguagem imprópria e nudez, exatamente como a vida real.

 

José Fagner Alves Santos

  • no

    Obrigado por compartilhar sua interpretação.

    Eu gostaria de entender um pouco mais sobre como você chegou à conclusão: “… principal fonte de inspiração, A Divina Comédia, de Dante Alighieri.” Poderia elaborar um pouco mais? Você se baseou apenas no canto Inferno? Se sim, como fica sua análise quanto à aleatoriedade(filme) VS pré determinados(livro) dos níveis/castigos ?

    Outra observação que fiquei na dúvida é tom de crítica à “nova esquerda”. Seu objetivo é dizer que Goreng era um “…esquizofrênico que acredita lutar pela melhora da sociedade…”?

    • Fagner

      Tudo bem com você? Muito obrigado por ler o texto e ainda mais por comentar. Tentei impor o mínimo possível da minha interpretação, mas como você percebeu, falhei miseravelmente.

      Suas dúvidas são muito interessantes.

      Primeiro vamos à questão da principal influência.

      A Divina Comédia”, para alguns especialistas como o espanhol Asín-Palácios, foi inspirada numa obra islâmica chamada de “Viagem Noturna”. Segundo a tradição islâmica, em meados do século VII, o profeta Maomé teria sido guiado pelo anjo Gabriel numa viagem miraculosa. Você encontra uma explicação completa sobre isso no livro “La Escatologia Musulmana em la Divina Comedia”, escrito pelo Asín-Palácios.

      Segundo essa tese, Dante teria adaptado a escatologia muçulmana para uma versão cristã. Isso não significa que todos os aspectos da primeira obra estejam ali, mas apenas que houve uma influência.

      Tempos depois, Kant secularizou a teleologia cristã, já que ele interpretava a história do cristianismo com uma marcha gradual, na qual a religião seria gradativamente substituída pelo culto à razão. Em resumo, a concepção que Kant nos apresenta é uma secularização moralista da escatologia e da teleologia cristã.

      Logo depois temos a proposta hegeliana. Hegel apresentava o processo histórico como tendo uma finalidade. Ele guarda a ideia cristã da unidade histórica do mundo, mas abandona a noção de providência, que se apresentava inadequada para aquela fase em que a filosofia se encontrava.

      Marx, por sua vez, transforma a dialética hegeliana da história em seu materialismo dialético. Apesar das muitas críticas realizadas pelos estudiosos do marxismo, parte significativa da militância segue esse credo. E isso também é verdade para os adeptos do liberalismo e outras correntes semelhantes.

      Para uma melhor compreensão sobre esses aspectos, recomendo o livro “Missa Negra”, escrito pelo filósofo John Gray. O autor aponta que a aleatoriedade é uma constante muito maior do que qualquer pretensa rigidez teleológica. Isso não impede, no entanto, que tenhamos uma utopia para nortear nossas ações. Essa é a vertente ideológica mais aceita atualmente entre os acadêmicos.

      Isso posto, voltemos à sua pergunta.

      Como eu escrevi na resenha: “De tempos em tempos, essas obras são reinterpretadas de acordo com as pautas do momento. Algumas dessas releituras são bem sucedidas, enquanto outras caem no esquecimento”.

      Ou seja, a releitura é feita com base na concepção de mundo que temos hoje, como “A Divina Comédia” representou o pensamento de sua época e “Viagem Noturna” representa a visão islâmica do período em que foi desenvolvida (é possível que alguma obra anterior também tenha servido de inspiração). A predeterminação, muito bem apontada por você, é algo que não cabe nessa releitura. Mas ela estará presente em várias interpretações que serão feitas sobre o filme.

      Quanto ao comentário sobre a esquizofrenia de Quixote, é bom lembrar que estamos falando metaforicamente. O cavaleiro acreditava estar fazendo a diferença no mundo, analogamente a todos nós que buscamos uma sociedade mais justa. Muito provavelmente nossas conquistas serão graduais e facilmente reversíveis, mas sem uma utopia que guie nossos passos a vida seria muito mais difícil. Veja que, por acreditar que pode fazer a diferença, Goreng segue o seu norte e nós torcemos por ele até o último momento.

  • Giva Moreira.

    Fagner, parabéns pela análise! Além das influencias na literatura, percebi que as influências simbólicas de ótica religiosa são presentes no filme. Tive a forte impressão por exemplo, quando o “homem sábio” diz que a “pana cotta” era a mensagem, e depois o goragh percebe com seu amigo que a criança é a verdadeira mensagem, fica uma leve impressão no ar de referência bíblica:.”Vinde a mim A criancinhas pois delas é o reino dos céus.” E ” para chegar ao reino dos céus tem que ter o coração puro como o de uma criança”
    E a criança que pode sim ser uma “miragem no pós vida” . Foi dito antes pela agente que crianças e menores de 16 anos eram proibidas no poço. No final a menina sobe na plataforma que sobe para o nível 0, ou seja, o paraíso e o goragh segue o seu caminho no pós vida.
    – Giva Moreira.

    • Fagner

      Boa. Como eu disse, as interpretações são infinitas e todas são válidas. Os clássicos não se esgotam numa única análise. Muito boa essa sua contribuição, meu bom amigo. Obrigado por comentar.

  • no

    Oi, Fagner. Obrigado pela resposta.

    Uma outra coisa que lembrei que outra pessoa me disse e achei interessante foi que a personagem que faz a entrevista com os participantes do poço, em um determinado momento, pergunta à Goreng qual era sua comida favorita. Isso deu a entender – ou não – de que se as pessoas, APENAS, comessem sua comida favorita, haveria comida para todos. Ainda não tenho um posicionamento quanto à essa afirmação, mas achei interessante. =D

    Até mais.

    • Fagner

      Recomendo que você veja o vídeo explicativo da própria Netflix. Ele está disponível nesta página. Algumas coisas são esclarecidas nesse conteúdo. Eu agradeço mais uma vez o seu comentário.

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