Domine sua língua antes de tentar aprender o idioma alheio

Compartilhei com um amigo, que vive há mais de vinte anos nos Estados Unidos, um post do blog Mundo de K sobre um trecho de tradução do Monólogo de Molly Bloom em Ulysses, “sim eu disse sim eu quero Sim”. A referida tradução foi realizada por Caetano Galindo, doutor em linguística pela Universidade de São Paulo (USP) e professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná. Cito esses traços do currículo de Galindo para esclarecer que estamos falando de um profissional renomado, com experiência de mercado e conhecimentos acadêmicos. Recomendo que você busque informações sobre ele. Verás o quão conceituado ele é.

Esse meu amigo, qua já está extremamente familiarizado com o idioma inglês, ao terminar a leitura, comentou que o texto parecia fazer mais sentido no idioma original. Lembrei-me imediatamente da recomendação de Arthur Schopenhauer: “Escreva seus próprios livros dignos de serem traduzidos e deixe outras obras como elas são.”

Não digo qua a tradução do Galindo seja ruim, longe de mim. Mal tenho domínio sobre o meu próprio idioma. Mas entendo a colocação desse meu amigo quando diz que faz mais sentido em inglês. O texto foi pensado e produzido naquele idioma. Toda e qualquer tradução, por melhor que seja, será sempre uma reconstrução com base no original. Muito se perde e não há como evitar que isso aconteça. As traduções, via de regra, sempre serão mais pobres que os originais.

Compartilho essa observação para lembrar de alguns colegas de profissão que, antes de dominar o seu próprio idioma, se esforçam para aprender o inglês. O fruto desse processo é, quase sempre, um analfabeto bilíngue. Seria muito melhor conhecer as nuances do português antes de se aventurar em outro idioma qualquer. Mas o poder da indústria cultural é muito forte, acaba influenciando todos nós.

Fica a minha recomendação. Aprenda o básico sobre gramática, mas também sobre a musicalidade da sua própria língua. Mais importante do que grafar corretamente é escrever de modo a se fazer entender. Esse treinamento, para quem já é alfabetizado, não dura mais do que dois ou três anos. É claro que o aprendizado pode durar por toda uma vida, mas, ao menos você conhecerá o básico do seu idioma.

O aprendizado de uma segunda ou terceira língua, depois desse processo, só terá a enriquecer seu repertório. Mas, no caso de você não viver do que escreve, esqueça tudo que eu disse. Estou falando apenas do aperfeiçoamento do ofício.

 

José Fagner Alves Santos

 

  • Rafael Neves

    Se você vive do que escreve e não domina nem o seu idioma é realmente complicado, mas isso é bem comum no Brasil.