Do original: Jardim das Flores (Sem flores) 7×7

1
Agora é casa popular.
O terreno da vovó.
Quando eu olho as casinhas.
A tristeza é bem maior.
Da floresta destruída.
As suas águas poluídas
E do rio eu tenho dó.

2
No portão de arame,
Iniciava a “trilhazinha”.
Que de longe já se via.
A casinha da vovó.
Ainda lembro com emoção.
O imponente Jambolão.
Que não tem nem mais o pó.

3
A sua casa era simples.
Muito bem arrumadinha.
É a sala e a cozinha.
Com mosquito de montão.
Tem no quarto mosquiteiro.
Com “picumá” e “fumeiro”.
E muita lenha no fogão.

4
No quintal tinha café.
Pé de Abacate e de Pitanga.
Tinha Goiaba e tinha Manga.
Pé de Indaiá e de Limão.
Brejaúva e Laranja.
Mais Ameixa e Banana.
Tinha Tucum e até Mamão.

5
Eu vou falar do Rio Preto.
Onde tinha uma “batêra”. 
Ai meu Deus, mas que tristeza!
Foi ali, morreu a moça*.
Quando o rio não dava pé.
Encobria o “chama-maré”.
Fazia viagens muito loucas

6
Eu pegava o Rio Grande.
E jogava a tarrafa.
E nem muito demorava
E na rede debatia.
Uma Traíra e três Carás.
Um Robalo e o Inundiá.
E uma grande Caratinga.

7
Estragaram a memória.
E tudo se acabou.
E não tem mais o valor.
E não ficou nem a “tapéra”.
E esta letra eu dedico.
Ao vô Colosso e Evaristo
Desbravadores daquelas terras.

Autoria e Criação: Márcio Ribeiro

Foto: Márcio Ribeiro

Data: 28/05/2004

Contato: ogaroca@bol.com.br

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GLOSSÁRIO

picumá: preto; vestígios de fumaça

fumeiro: local para secar o peixe em cima do fogo.

Tapéra: Casa quando fica abandonada pela morte dos proprietários

Batêra: Barco artesanal.

Trilhazinha: O diminutivo de trilha é “trilhinha”

Chama-maré: tipo de caranguejo.

Morreu a moça*: No Rio, ao lado esquerdo do loteamento e perto da santa, havia um poço onde morreu uma moça, nos anos 80. Era ali o porto onde ficavam as “batêras”.

*Jardim da Flores (7×7) é um documento histórico da cidade. Trata-se de uma história real baseada na memória do autor onde ele retrata a antiga casa de sua avó,  caseira do terreno onde hoje está localizado o Jardim das Flores, aos cuidados de Luciano de Bona. A casa de sua avó foi demolida para a extração de areia e construção das casinhas populares e existiu até o ano 2000.

A avó, Marciana Ribeiro, faleceu no dia 30/10/2013. Morou onde hoje é o terreno do atual Bairro Jardim das Flores por 24 anos, a partir de 1976. Morou no Crioulo, Barra do Una e na Lagoa do Itacolomy, ambos na Juréia. Leu estes versos e reprovou a parte que fala que a casa dela “tem mosquito de montão”.