Publicado em novembro de 2015

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

Imagine-se num lugar onde você não tenha a menor ideia de qual seja, a espera de uma visita misteriosa e, dentro de algum tempo depois, dá de cara com o seu próprio “eu” do futuro de muitos anos posteriores – e o que é pior, você se frustra completamente com você mesmo(a) ao se ver mais velho(a).

É exatamente isso o que acontece no espetáculo Pergunte ao Tempo, em cartaz no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo. No palco nos deparamos com as inquietudes e ansiedades de um jovem (Giovani Tozi) que se encontra num ambiente inusitado – sem saber ao certo como e por que foi parar ali – acompanhado de sua ex-namorada (Guta Ruiz), enquanto esperam a chegada de um visitante (Luis Damasceno) a poucos minutos da virada do ano.

A peça traz uma grande riqueza textual e reflexiva, ao permitir que os espectadores possam “assumir” o lugar dos personagens e se imaginarem conversando consigo mesmos num tempo que se passa mais a frente. O cerne do espetáculo é abordar as variáveis do tempo. Ao decorrer da trama, os três personagens revelam suas fraquezas, frustrações e medos ao se cruzarem num momento praticamente surreal.

Um futuro que se apresenta de uma forma completamente diferente da esperada pelo protagonista e que, inclusive, tentou ser evitada por ele, além de conflitos amorosos e familiares – como a rixa do protagonista com o seu pai, e ao mesmo tempo, a descoberta de que, mesmo sem querer, acabamos nos tornando sombra de nossos genitores em muitas de suas manias, defeitos e comportamentos – também são esmiuçadas ao decorrer da peça.

Durante 75 minutos de espetáculo, passado, presente e futuro se contrapõem e se misturam ao mesmo tempo e nos reforçam o fato de que, por mais que a sociedade avance em termos tecnológicos e de grandes descobertas, existe algo que jamais poderemos controlar e, cedo ou tarde, se cessará para cada um: o tempo.

A peça tem texto e direção de Otávio Martins – que também dirigiu o renomado espetáculo Caros Ouvintes