Inteligência não é habilidade para jogar bola, fazer cálculos matemáticos ou se expressar verbalmente. Inteligência não é, nem mesmo o ato de pensar.
Estava aqui me lembrando de ouvir, em uma aula, que a crítica à inteligência alheia é um disparate. “Olhem o Neymar”, dizia a professora exaltada, “a habilidade que ele tem nos pés é uma clara demonstração de sua inteligência”. Respirei fundo e deixei passar. A classe, por sua vez, não demonstrava nenhum tipo de reação ao comentário. Todos ali deveriam ser grandes fãs de futebol.

Nada contra – nem nada a favor – de que se divirtam torcendo para um time ou jogador qualquer. Se bem não fizer, mal também não faz. O que me incomodou foi o fato de eu já conhecer tal argumentação. Era uma derivação, um pouco empobrecida, da teoria das inteligências múltiplas.

Essa ideia surgiu como contra ponto à teoria do QI. Enquanto a segunda propõe uma medida de inteligência com base em habilidades matemáticas, verbais e artísticas, a primeira expandia essas habilidades para o campo físico.

Trocar uma ideia estúpida por outra pior não resolve o problema.

A etimologia da palavra inteligência designa a capacidade de apreender a verdade. Apreender é diferente de aprender. Aprender é decorar por repetição esta ou aquela técnica. Apreender é, por definição, tomar posse do conhecimento e torná-lo seu.

Só se intelige, portanto, quando apreendemos a verdade/realidade tal qual ela se apresenta perante nossa compreensão. Desse ponto, a inteligência se apresenta para nós por meio do pensamento, dos sentimentos, da imaginação, da intuição. Mas nenhum deles pode ser classificado como inteligência em si. São apenas ferramentas para ela.

Vamos exemplificar: é possível pensar e não inteligir, como é possível inteligir sem pensar.

Quantas vezes você já ficou horas e horas pensando sobre determinado assunto sem conseguir entender? Quantas vezes você já compreendeu uma coisa de súbito, sem estar pensando sobre ela?

Quando pensamos, manifestamos o desejo, quase sempre frustrado, de inteligir. O pensamento é um automatismo que a cultura nos lega. Ele funciona como ferramenta para a inteligência, mas, não nos garante sucesso no resultado.

A inteligência só existe na realização do seu objetivo. Ela não se encontra nos meios utilizados para isso.

A essa altura, você deve estar me perguntando: “mas, o que é a verdade?”, não é mesmo? A dúvida é válida. Ela é fruto do mesmo relativismo das inteligências múltiplas. E será assunto de uma próxima conversa.

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