A capacidade de reprodução exponencial, característica dos blogs, não melhorou nossa habilidade de leitura, nossa técnica de escrita ou a transparência social

leitura e compreensão

Paulo Freire abre o livro “A importância do ato de ler” (aqui), reafirmando que a prática pedagógica é uma prática política. Talvez por conta de algum resquício do pensamento de Rousseau e seu “bom selvagem”. Parece que Freire ainda acreditava que o homem nascia como uma folha em branco, pronto para ser preenchido. A educação faria esse papel de domesticação do bicho homem, de preenchimento da folha em branco que é a alma do indivíduo. A visão política dependeria da educação recebida por cada um. Hoje sabemos que as coisas não são tão simples assim.

Mas, e sempre tem um ‘mas’, acredito que ele se referia à prática política no sentido aristotélico. A política é a arte de viver e administrar a pólis (pólis eram as cidades-estado na Grécia clássica, daí vem termos como metrópole e política). Para viver em sociedade é preciso respeitar certas regras, ter um código de conduta, é preciso que existam órgãos reguladores. Mesmo assim, algumas pessoas ainda quebram as regras de convivência social, mesmo sabendo dos riscos de punição e das dificuldades para quem não possui um nível mínimo de instrução.

É por isso que a internet é vista como uma terra sem lei. A rede mundial de computadores é um ambiente (virtual, eu sei) em que as pessoas procuram reconstruir sua imagem social, ou, para usar um termo da era digital, criam um avatar de si mesmo, daquilo que gostariam de ser ou representar para a sociedade.

Até aí, nada demais. O problema se dá quando essa reconstrução da nossa imagem torna-se um comportamento obsessivo. Isso costuma ser sintoma de quem quer enganar os outros para tirar proveito próprio.

É muito fácil criar um blog – ou vários – com conteúdos auto glorificantes. É muito fácil editar uma página na Wikipédia, é muito fácil inserir uma informação aqui e ali. Não acho necessário dizer que é preciso tomar cuidado com a informação encontrada na internet, mas a quantidade de pessoas que são ludibriadas por charlatães bacharelescos – no melhor estilo machadiano – ainda é muito significativa.

Dizia Paulo Freire:
“A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquela. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto.”

Mas o mais grave (e é disso que trata a análise de Freire) é o número insignificante de indivíduos capazes de entender essa sentença, ou este artigo como um todo. Se você não teve dificuldades, parabéns, você sabe ler. É muito mais fácil se prender a textos com fórmulas prontas de como ganhar dinheiro; é mais fácil se ater a fotografias engraçadinhas postadas no Facebook; é muito mais simples ignorar este texto por não estar entendendo o que está sendo dito. Mas, e sempre tem um ‘mas’, diante de tal situação, qual é a real importância de uma blogosfera presa num processo de autofagia? O que é possível aprender nesse campo de leitura? Qual é a contribuição para a sociedade em que vivemos?

Não estou dizendo que todos os blogs sejam superficiais, nem que todo leitor seja analfabeto funcional, mas a quantidade de conteúdo sem valor e de leitores que não sabem ler ainda é desesperadora. Você pode até dizer que sempre foi assim, mesmo antes da era digital. É verdade, mas se formos por essa lógica, para que serviu a revolução digital?

José Fagner Alves Santos

Este artigo faz parte da campanha #PEDAblogBR.

There are currently no comments.