Publicado em 19 de junho de 2015 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

A comunicação atual nunca dispôs de tantos meios para se aprimorar cada vez mais: são tablets, smartphones, notebooks os quais, com seus recursos e aplicativos, permitem que nos comuniquemos das mais variadas formas. Todavia, o mais curioso neste fato é que existe uma grande ironia proporcionada por todo este aparato tecnológico: justamente a falta de comunicação.

Estamos vivendo numa sociedade na qual internautas expõem suas opiniões e ideias – sendo muitas na base do achismo – de forma hegemônica, resistindo a toda e qualquer tipo de opinião contrária. E muitas vezes essa intolerância tem chegado ao seu limite gerando ferrenhas, prolongadas e desnecessárias discussões que não chegam a lugar algum. E nada acrescentam à vida de qualquer dos “contendores”.

É justamente esta incomunicabilidade social tão perpetrada nos grupos sociais que é muito bem explorada na peça do dramaturgo, roteirista e diretor norte-americano David Mamet: Oleanna. A peça, que também já virou filme, não faz uma crítica ao excesso de tecnologia, mas sim à incapacidade do ser humano em escutar o próximo. É incrível como tal problema continua ganhando forças mesmo com o passar dos anos, já que Oleanna foi escrita em 1992, mas sua história pode muito bem ser equiparada aos dias de hoje.

O espetáculo ganhou sua primeira versão brasileira em 1996 – com Antônio Fagundes e sua mulher, na época, Mara Carvalho, no elenco – e atualmente está em cartaz no Sesc Pompeia, com direção de Gustavo Paso.

A peça se passa num único cenário, uma sala de aula de faculdade, onde um professor (Marcos Breda) e uma aluna (Luciana Fávero) entram em constantes diálogos conflitivos. Temendo ser reprovada, a aluna procura seu professor expressando sua dificuldade em entender seu vocabulário, definido por ela como muito complexo. Ela também expressa sua insatisfação pelo ar de superioridade e poder com que seu mestre parece lidar com os alunos.

A partir daí dá-se início então a um verdadeiro jogo de poder e de palavras, onde cada um defende seu ponto de vista: o professor, tentando sempre desqualificar indiretamente a aluna com seu discurso aprimorado e ao mesmo tempo evasivo, já a estudante, à medida que isso ocorre, mostra-se cada vez mais incomodada. Ela chega a usar o único recurso disponível no momento para que pudesse se sobressair ao professor, como tanto desejava: acusá-lo de assédio sexual, usando como prova principal o tempo que permanecia sozinha com ele em sala de aula.

A relação entre os dois personagens é minuciosamente explorada tanto nos diálogos quanto no cenário, cuja disposição das cadeiras e da mesa no decorrer da peça proporcionam ao público a leitura da progressão de sentimentos enérgicos que afloram em cada personagem à medida que a discussão fica mais acalorada.

Já o discurso cênico é dotado de uma riqueza vinda não propriamente das palavras em si, mas das mensagens subliminares que elas trazem, afinal, é perceptível como tanto o professor quanto a aluna estão ambos fechados em suas bolhas, separados por um muro, onde um não escuta o outro.  Já o desfecho da obra fica por conta da imaginação de cada espectador.

A peça é apresentada em três versões: Marcos Breda interpreta o professor numa delas, a atriz Miwa Yanagizawa em outra e ainda há uma terceira versão na qual ambos se revezam para fazer o papel do mestre.

Na apresentação do dia 14/06/15, o ator Marcos Breda foi quem contracenou com Luciana Fávero e ambos atingiram uma sintonia cênica perfeita, conferindo ainda mais força ao embate proposto pelo espetáculo e prendendo cada vez mais a atenção da plateia.

Vale a pena conferir, afinal não se trata apenas de um espetáculo que fala da relação entre professor e aluno, mas sim de um problema que atinge a humanidade em todos os níveis e formas – a incomunicabilidade ou falta de comunicação adequada – nos remetendo a uma ótima reflexão para os dias de hoje.

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