Prática ajuda a conscientizar população local e atrai turistas do mundo todo

Produção laboratorial do jornalismo online da Unisantos

Desde os primórdios da humanidade, as aves são apreciadas dentro do âmbito cultural, sendo atribuídas a diversos símbolos, reais ou imaginários, que serviram de inspiração para a arte e literatura. Hoje, essa admiração se encontra através das fotografias de diversos “birdwatching”, que contribuem não só para uma prática turística sustentável, mas para preservação de diversas espécies de aves silvestres, como ocorre em Peruíbe.

O ornitólogo, Bruno Lima, 35 anos, começou a estudar as aves com 8 anos de idade e trabalha na área desde 2005. Na infância, Bruno ganhava livros sobre pássaros: “Eu morava em Santos e lá não tem muitos pássaros, então ficava imaginando quando eu iria ver na vida real, hoje convivo diariamente com as aves.”.

Para Bruno a observação de aves é um estilo de vida: ”Eu aprendi sobre equipamentos, fiz amigos e até conheci minha esposa em campo”. O ornitólogo chegou em Peruíbe no ano de 2004, onde vive até hoje: “Minha ideia era tornar Peruíbe uma referência internacional para observação de pássaros, hoje ela é uma cidade conhecida e já tem muita gente trabalhando com a observação de aves”.

Através da prática, o ornitólogo já conseguiu salvar muitos pássaros: “Uma vez eu estava guiando quatro ingleses em Iguape e passou um cara que tinha acabado de prender um Sabiá Una. Eu conversei com ele e expliquei que vinham estrangeiros para observar aves e o homem disse que gostava do canto do pássaro por isso tinha capturado. Nós conversamos durante muito tempo e ele resolveu soltar o bicho. ”

“Conheci uma senhora em Santos, em 2006, na área continental, no Caruara, que tinha uma barraca frutas na feira, ela envenenava os passarinhos com frutas, dizia que era concorrência porque eles comiam a banana na casa dela. Ai eu disse: porque a senhora não pega as bananas velhas e faz um comedouro para pássaros do lado da sua barraca e coloca uma placa “Por que os pássaros são bonitos ? Porque eles comem minhas frutas”. Depois disso ela mudou completamente o pensamento e começou a vender mais que os outros “

O biólogo e técnico ambiental, Fábio Luís Donezette, proprietário do Mochileiros Hostel, uma pousada especializada em observação de aves. O biólogo trabalha profissionalmente como consultor de observações de aves desde 2012. “É uma história engraçada, porque quando mudei pro Guaraú, tem mato, a cidade é maravilhosa, todos falavam que tinha emprego, mas não tem. Infelizmente, o trabalho é muito saturado. A gente tem que ficar procurando, inventando as coisas pra fazer. Eu comecei a observar um grupo de turistas de observações de aves perdido aqui no Guaraú. Eu andava e via pessoas tirando foto de aves. Aí, eles começaram a reclamar; Eu pensei: “pô, os cara não tão satisfeitos”. Então, criei o Mochileiros.

Em 2017 o Hostel recebeu cerca de 300 pessoas. ” Nós recebemos chineses, japoneses, africanos, europeus, também, alguns norte-americanos; e da América do sul. Então, é bem legal, tem crescido bastante a procura do observador de aves do mundo inteiro. ”

Para Fábio as aves mais difíceis de fotografar foram os albatrozes (aves pelágicas): “ Foi difícil porque nós navegamos quase 40 quilômetros mar a dentro, próximo a queimada grande para encontrar o animal. É todo um trabalho de equipe com cara que tá pilotando a lancha com o guia que tá ali com binóculo. Esses foram os bichos mais difíceis que fotografei até hoje”.

Barata considera a observação de pássaros como uma terapia: “A gente lida com a alegria na hora que consegue fotografar a ave, com rancor na hora que você fala “olha eu não consegui” e tem aquela pessoa que “Ô, fotografei a ave” e aí você fala, “pô legal” e aí quando você chega em casa, a foto não ficou legal. Mas hoje, eu pratico mais a observação por binóculo, já até pra quebrar essa frustração na foto, então eu namoro muito, eu pego o binóculo chamo o bicho com o playback, coloco namoro o bicho, fico lá enquanto o pessoal tá fotografando, vejo a espécie, cada detalhezinho do bicho, é muito legal isso”

O funcionário público, Marcio Ribeiro, 34 anos, é apaixonado por aves: “Observo pássaros desde 2004. Sou Monitor Ambiental da Jureia (guia de turismo na unidade de conservação). Fiz estágio no departamento de meio ambiente da prefeitura de Peruíbe e foi lá que eu peguei gosto para observar as espécies. Felizmente a atividade se desenvolveu e hoje guio pessoas interessadas em ver as aves”

Sua paixão por aves vai longe: “Listei as 50 aves mais comuns do meio urbano de Peruíbe. Montei uma palestra com estas aves e já visitei as Etec de Peruíbe e Mongaguá para mostrar o material que produzi. A intenção era incentivar as pessoas a olharem as espécies que estão ao nosso redor sem, necessariamente, ir ao mato para ver os bichos. O meu tcc de jornalismo foi um ensaio fotográfico sobre as aves de Peruíbe.”

“Uma vez estava com um grupo de clientes no Guaraú e insisti que eles deveriam ir para zona rural, pois lá tinha papagaio de cara roxa, ameaçado de extinção. E eles toparam. Fiquei receoso e pensei “ o que eu fui fazer? Pra onde fui levar eles?” Até me arrependi no começo. Chegamos no local que eu indiquei, foi só descer do carro e um papagaio cara roxa passou. O cliente fez a foto e em seguida avistamos um gavião em um galho e meu cliente fotografou. Éramos em quatro e os três ficaram pulando abraçados e cheio de alegria. Não entendi o motivo, mas depois soube que fotografamos o Tauató-pintado (espécie de gavião), o primeiro registro do sudeste brasileiro. Antes, só no norte do país. Ganhei uma câmera Nikon de presente. ” Disse Marcio.

Em relação a preservação das aves no meio ambiente, Marcio defende a educação ambiental: “Prender pássaros em gaiolas chega a ser um problema cultural”

Araponga (Procnias nudicollis), ameaçada de extinção, fotografada no inverno. Foto de Márcio Ribeiro

Texto e Reportagem: Renan Santana e Beatriz Santinir

Foto: Márcio Ribeiro

Contato: ogaroca@bol.com.br

Publicado originalmente: Jornalismo online da Unisantos

“Trata-se de um trabalho laboratorial produzido pelos alunos da Universidade Católica de Santos”