Publicado em 10 de fevereiro de 2016 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

Nas narrações de um dos livros mais lidos da história da humanidade, a Bíblia, ela foi a escolhida por Deus para, permanecendo pura e casta, dar à luz a um homem que viria ao mundo para ser crucificado e entregue à morte numa demonstração de amor e salvação da humanidade, o filho de Deus. Mas ela tinha a convicção de que ele ressuscitaria três dias depois e subiria aos céus de corpo e alma, à semelhança do que aconteceria com ela algum tempo depois, sendo coroada por Deus rainha do céu e da terra.

Na peça escrita pelo irlandês Colm Tóibin, O Testamento de Maria – e cuja versão brasileira está atualmente em cartaz no Sesc Pinheiros –, ela toma um rumo totalmente diferente do que viveu segundo os relatos bíblicos. Trata-se de Maria, considerada uma das mulheres mais poderosas do mundo por ter sido mãe de um dos homens mais importantes da história da humanidade: Jesus Cristo.

Mas aqui não se atenha aos fatos bíblicos e sim a uma nova Maria, idealizada pelo escritor, que ganha uma versão totalmente humanizada e contemporânea, cuja semelhança com a mãe de Jesus está apenas no contexto histórico – ou melhor em parte dele.

Realizado em forma de monólogo, o espetáculo nos mostra uma Maria que, como qualquer ser humano comum, vivencia uma diversidade de sentimentos como ira, desconfiança, medo e etc. Na peça a personagem se encontra perseguida e no exílio, procurando desvendar os mistérios sobre a crucificação de seu filho.

Para ela, os seus discípulos não eram pessoas totalmente confiáveis e acabaram contribuindo para a morte de Jesus ao fomentar a sua popularização. Ela ainda retrata um Cristo que, na sua visão, acabou se tornando metido dada a fama que ele acabou conquistando por onde passava, após começar a realizar milagres.

É possível que o escritor tenha querido dar voz a uma Maria que possa desabafar suas angústias e tribulações, ao contrário do que ocorre com a verdadeira mãe de Cristo nas escrituras bíblicas, onde ela quase não aparece. Porém as distinções entre ambas são gritantes, já que a leitura feita pelo autor da peça sobre seu personagem é totalmente desprovida de um conceito religioso.

Todavia é valido conferir o monólogo sobretudo por este permitir extrair algumas reflexões críticas para os dias de hoje em relação ao sensacionalismo midiático, em que veículos se valem de tudo para alavancar a audiência como “fantasiar” os fatos com o único objetivo de vender suas notícias.

É memorável a atuação da atriz Denise Weinberg, que confere grande realismo ao seu papel e transmite com clareza o estilo de seu personagem, que parece ter se tornado alguém cujo sofrimento pelo qual passara em razão da perseguição e crucificação de seu filho a blindou de emoções e sentimentalismos, transformando-a em alguém amargurado.

A peça é enriquecida pelo som de instrumentos musicais que acompanham as falas do monólogo numa sincronia perfeita produzida pelo percussionista Gregory Slivar. O Testamento de Maria tem direção de Ron Daniels e permanece em cartaz apenas até este sábado (13/02).

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