Mesmo involuntariamente, nós, seres humanos, tendemos a adotar medidas seletivas e por vezes preconceituosas, regidas por rotulações impostas tanto pela sociedade, quanto pelos aparelhos midiáticos. Um exemplo recente é o trágico atentado realizado na capital Somália, Mogadíscio, onde dois ataques com caminhão bomba deixaram um saldo de mais de 300 pessoas mortas, no maior atentado terrorista da história, desde o ataque às Torres Gêmeas, nos EUA, em 11 de setembro de 2001. A autoria da tragédia foi creditada ao grupo islâmico Al Shabaad, que se encontra em conflito com o governo provisório por disputa de territórios. O país é assolado por uma guerra civil desde 1991, quando o ditador Mohammed Siad Barre foi derrubado do poder.

Além da instabilidade política, a Somália é um forte exemplo de país vitimado pela desigualdade econômica e social, especialmente em relação às nações desenvolvidas. O país sofre no momento com uma seca que atinge 3 milhões de pessoas. Quando ocorreu a tragédia do atentado no dia 14 de outubro de 2017, o fato mal repercutiu nas mídias, o que, inclusive, gerou manifestações de indignação e revolta nas redes sociais, pelo descaso midiático com o país. Semanas antes um genocídio cometido por um atirador em Las Vegas, nos EUA, deixando um saldo de 59 mortos, foi suficiente para virar manchete nos principais jornais do mundo.

Aqui percebemos como o poderio econômico, aliado ao midiático, pode ditar as regras e, mesmo sem querer, rotular quais acontecimentos importam mais ou menos. No caso da Somália, essa seletividade se torna ainda mais grave por se tratar da imagem de seres humanos mortos: uma desumanização e inversão de valores.

Em “Sociedade do Espetáculo”, o autor Guy Debord (2003) fala na espetacularização da forma como a vida se anuncia nas sociedades. “Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação” (DEBORD, 2003. p. 13). As imagens estão dissociadas da realidade da vida, traçando seu próprio percurso, uma espécie de verdade construída. Para Debord (2003, p. 13), “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens”.

Pensando na pouca divulgação dos acontecimentos trágicos na Somália, podemos dizer que a mídia utiliza como um dos parâmetros para conferir seu grau de importância aos fatos, os próprios níveis de desigualdades sociais, em que os mais poderosos ganham muito mais visibilidade. Afinal, quem chamará a atenção caso sejam vítimas de um atentado, por exemplo? Os oito por cento mais ricos, ou os 50% mais pobres? Confira aqui artigo com dados da desigualdade social. O ser humano então é reduzido ao valor de mercadoria, cuja imagem construída se baseia em suas representatividades.

“Quando hoje nos vemos cercados por uma infinidade de imagens, não nos damos conta de seu poder sobre nós; pelo contrário, acreditamos ser seus senhores e que impomos nossa vontade e nossos desejos sobre elas. Claro que, ao pensarmos assim, agimos de modo infantil, pois não se pode negar o óbvio: somos tão vulneráveis a elas como eram os povos ditos primitivos”, afirma o Prof. Dr. Jack Brandão em sua obra “Imagem: Reflexo do mundo e do homem?”.

Portanto, infelizmente, a imposição da imagem fundamentada em poderes econômicos e midiáticos parece ditar os valores e impedir a verdadeira integração humana, mas não podemos perder as esperanças e devemos nos inspirar nas palavras do Papa Francisco, quando ele diz:

“Somos convidados a promover uma integração que encontra na solidariedade o modo de fazer as coisas, modo de construir a história. Uma solidariedade que não pode jamais ser confundida com a esmola, mas sim com geração de oportunidades para que todos os habitantes de nossa cidade – e de tantas outras cidades – possam desenvolver sua vida com dignidade”.

Discurso do Papa Francisco em 6 de maio de 2016

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