Qual seu grau de crença nas informações divulgadas pela mídia? Um novo estudo publicado em março de 2018 por cientistas do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) dos EUA chegou à conclusão de que o compartilhamento de notícias falsas, as chamadas fake news, se dá de forma 70% mais rápido que as informações reais.

O estudo ainda reforçou que, enquanto cada postagem verdadeira repercute, em média, entre mil pessoas, as fake news podem atingir de mil a 100 mil pessoas. Diante da grande repercussão daquilo que não é real, muitos perfis falsos são criados no Brasil e no restante do mundo com o intuito de influenciar a opinião pública para que se acredite naquilo que lhe é imposto. Uma matéria divulgada na BBC Brasil, ao abordar tal tema, destaca um fenômeno de característica psicológica chamado “comportamento de manada”, altamente valorizado pelos perfis fakes e que consiste na maior crença em notícias compartilhadas com mais frequência e com as quais muitos estão de acordo.

Mas, por que essa maior crença no que é falso? Muitas vezes, as chamadas fake news apenas alimentam aquilo que já está preconizado no senso comum e que não necessariamente é real, fomentando assim a “realidade” que as pessoas já desejavam acreditar.

A questão dos imigrantes e o perigo do senso comum

Diante da conturbada situação política, econômica e social da Venezuela, o Brasil tem lidado com uma onda imigratória venezuelana principalmente no estado de Roraima, que já recebeu mais de 18 mil de seus cidadãos que optaram por nosso país numa tentativa de fugir da fome, da saúde precária, da repressão estatal, entre outros fatores que assolam o país vizinho.

Pesquisa divulgada pelo instituto Ideia Big Data com 5034 brasileiros, publicada na revista Veja, mostrou que 44% classificam como ruim a imigração de trabalhadores estrangeiros e que apenas 33% a consideram positiva. Um outro levantamento feito pelo Ibope Inteligência, em 2015, revelou que o Brasil é um dos países emergentes com maior rejeição aos imigrantes. A situação tende a ser mais agravante com refugiados de países subdesenvolvidos, já que, com imigrantes de nações desenvolvidas, a receptividade brasileira é maior.

O que acontece, muitas vezes, é que boa parte dos brasileiros vê, na chegada de imigrantes oriundos de países como a Venezuela, uma concorrência no mercado de trabalho, especialmente no setor de mão-de-obra; ao contrário dos trabalhadores estrangeiros de países ricos, que ingressam em empresas estrangeiras com grau maior de recepção.

Ainda de acordo com a pesquisa do Ideia Big Data, a taxa de brasileiros que enxergam como ruim a vinda de estrangeiros ao país é de 56% no Norte e 52% no nordeste, enquanto que no sudeste a taxa não passa de 36%, se configurando como a menor de todas. Afinal é justamente no sudeste onde estão concentradas as grandes metrópoles com mais oportunidades de trabalho e grandes corporações.

De acordo com dados da Polícia Federal, o perfil das pessoas que imigram para o Brasil é constituído de jovens; além disso, a proporção de estrangeiros com ensino superior completo é maior (33%) em comparação com a dos brasileiros que concluíram esse nível de ensino (16%), o que poderia influenciar no mercado de trabalho. Dados que ajudam a fortalecer a hipótese da chegada de imigrantes como sinônimo da tomada de empregos dos brasileiros, especialmente em tempos de crise e desemprego.

Só que tal preocupação se mostra mínima, quando se analisam os dados a respeito do número de imigrantes no Brasil. Num país constituído por mais de 200 milhões de habitantes, o número de estrangeiros chega a pouco mais de 700 mil, uma taxa de 0,3% da população. Mas em tempos de desemprego crise econômica, que repercutirá mais? Os dados acima ou a notícia de que a chegada de imigrantes vai dificultar ainda mais a vida do brasileiro frente ao mercado de trabalho?

Sensibilizada pela situação do país, parte da população tende a acreditar naquilo que lhe condiz. Portanto, ao sermos influenciados pela ideia de ameaça que a chegada de estrangeiros pode nos proporcionar, deixamos de nos preocupar com o real, no caso, a falta de investimentos e capacitação da população brasileira para inserção no mercado de trabalho e redução da desigualdade de oportunidades. Eis o perigo das fake news: desqualificar o real para qualificar o irreal.