Tendo surgido no início do Brasil República, a prática do popularmente conhecido “voto de cabresto” nada mais era que a interferência direta dos chamados coronéis sobre a escolha do candidato em quem seus subordinados iriam votar. Tal influência ocorria, sobretudo, na compra do voto em troca de pequenos benefícios, como uma dentadura ou um par de sapatos.

Há casos, por exemplo, em que o capanga acompanhava o eleitor de cabresto até a urna e fiscalizava o voto. Se votasse conforme fora orientado, o eleitor teria seu emprego garantido, ou algo semelhante, como o direito de trabalhar numa feira por exemplo, caso contrário, era preciso assumir as consequências.

Com o fim da República Velha, segundo os historiadores, tal prática desapareceu por volta dos anos 1930, com a eleição de Getúlio Vargas.

O fato, porém, é que a cada eleição ouvimos alguém mencionar um fulano de tal que conseguiu uma consulta médica facilitada pelo candidato tal, alguém que foi encaminhado para uma vaga de emprego pelo candidato beltrano, ou certa rua esquecida que, às vésperas das eleições, amanheceu asfaltada e com uma faixa imensa de agradecimentos ao benfeitor desinteressado.

Sim! Ainda existem aqueles que trocam seus votos por coisas, que vão de dentaduras a padrões de time de futebol. De acordo com uma matéria publicada em 2008 pelo jornal Tribuna Paraná, os próprios políticos mencionam que os eleitores pedem cimento, carteiras de habilitação, perucas e até cirurgias diversas.

Mas se a compra e venda de votos parece ser um vício arraigado na cultura política brasileira, por outro lado, podemos nos tranquilizar, afinal, voto de cabresto é coisa de passado. Eis o engano maior.

Nos últimos anos tem surgido um tipo novo de voto de cabresto. Ele tem sido chamado de “voto de cajado”. O voto de cajado ocorre quando uma pessoa pertencente a uma denominação religiosa, geralmente evangélica, é orientada a votar num determinado candidato, não por que conheça seus projetos políticos, mas porque pertence à mesma denominação ou por causa da titulação do candidato – geralmente algo como bispo, apóstolo, pastor ou algo do tipo.

O voto de cajado é tão danoso quanto o antigo voto de cabresto, porque favorece lobistas e cria grupos de políticos que, uma vez eleitos pela influência de líderes religiosos, legislarão de acordo com a vontade dos chefes daquelas denominações.

Pra se ter uma ideia do poder de fogo do voto de cabresto moderno, em 2016 a cidade do Rio de Janeiro, conhecida como a mais liberal do Brasil, elegeu para sua prefeitura o bispo Marcelo Crivella, que é contrário à legalização do aborto, às relações homoafetivas e ao carnaval, mas que contou com os votos quase que garantidos dos membros da Igreja Universal daquela cidade. Afinal, ele é sobrinho do líder máximo daquela organização, o senhor Edir Macedo. Desde que se lançou oficialmente na política, em 2002, já buscando em sua primeira candidatura o cargo de senador da República, Crivella sabia que a vitória nas urnas já estava garantida.

Mas não foi apenas Crivella que se beneficiou com os votos de cabresto modernos. O PRB é um partido político criado basicamente pela Igreja Universal, e nos últimos anos trouxe ou manteve, no cenário político, nomes como Marcio Marinho (BA), Celso Russomano (SP) e Eduardo Lopes (RJ). Atualmente possui 02 senadores, 21 deputados federais em exercício e, em 2016, elegeu 106 prefeitos em todo o Brasil.

Com cerca de 12.000 pastores e mais de 7.000 templos, a Universal tem tantos votos a oferecer que, conforme publicado pelo jornal O Povo, em março de 2018 até Ronaldinho Gaúcho filiou-se ao PRB e considera a possibilidade de ingressar na vida política.

Mas não é só a organização de Edir Macedo que gerencia seu eleitorado. De acordo com uma matéria assinada pelo jornalista Raphael Gomide e publicada no portal IG, em outubro de 2012, nas eleições daquele ano, o polêmico pastor Silas Malafaia apoiou 48 candidatos, dos quais 40 foram eleitos, alcançando assim um aproveitamento de mais de 80%.

Malafaia, assim como Edir Macedo, possui diversas plataformas de comunicação com o eleitorado. Além disso, tem mais de 90 templos espalhados pelo Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais e Pernambuco. Conta com mais de 15.000 membros fiéis e ocupa diversos horários em canais de TV, nos quais não apenas propaga suas ideias religiosas como também influencia politicamente seus fiéis.

Além de Edir Macedo e Silas Malafaia, líderes de igrejas como Assembleia de Deus (líderes diversos) e Apostólica Plenitude do Trono de Deus, liderada por Agenor Duque, têm se empenhado em apoiar candidatos para os mais diversos cargos políticos.

E qual o problema nisso? O problema é que, ao eleger esses candidatos, estamos criando concentrações ideológicas no poder. Ocorre que, esses grupos deveriam legislar e governar para toda uma população diversificada e não para um grupo específico.

Além disso, o fato de serem indicados por representantes religiosos que supostamente possuem orientação divina não é garantia de sua idoneidade.

Silas Malafaia comemorou, em 2015, a eleição de Eduardo Cunha para presidência da Câmara. Segundo ele, tratava-se de um “deputado evangélico” e aquela era “uma vitória espetacular”! Dias depois, após denúncias de corrupção virem à tona contra Eduardo Cunha. Malafaia declararia que “nunca” havia apoiado Eduardo Cunha para deputado, embora tenha tirado fotos ao lado deste durante sua campanha. Mesmo sob inspiração divina, Malafaia apoiou e depois reclamou de Dilma e Lula, além de FHC antes deles. Quando Michel Temer assumiu o Governo, em 2016, ele também apoiou, mas dessa vez silenciou diante das denúncias de corrupção que surgiram mais tarde.

A IURD e o PRB construiram a carreira política do conhecidíssimo bispo Rodrigues a partir das eleições de 1998, quando conseguiu eleger-se Deputado Federal, na época ainda pelo PFL.  Reeleito em 2003, Rodrigues acabou tendo que renunciar por causa de envolvimentos com o escândalo do “mensalão”. Não o mensalão do PSDB, porque esse ficou esquecido, estamos aqui falando do famoso mensalão do PT mesmo.

Também eleitos com os votos garantidos dos membros da Universal, Marcelo Crivella, que foi eleito para governar para todas as pessoas enquanto prefeito da cidade do Rio de Janeiro, foi flagrado em encontro secreto com pastores, oferecendo benefícios exclusivos para unidades e membros de sua organização religiosa. Até fila especial para membros da IURD realizarem cirurgia de catarata foi oferecida, mesmo diante de filas de espera no sistema convencional de saúde disputado por toda a população.

Tais exemplos são certamente poucos diante do grande número de aberrações que acontecem, e demonstram que pessoas são pessoas, independentemente de religião ou do apoio que delas recebem. Portanto, deve-se votar pelo projeto, porque se conhece o histórico e pelas reais perspectivas apresentadas pelo candidato.

Votar sem paixão, sem querer eleger alguém simplesmente por ser chamado de “homem de Deus”; ou por ser ateu; por que é desse ou daquele partido, por que é do Sul ou do Nordeste. Votar pela razão, pela conduta, pelo plano de governo e principalmente por que, além de dizer que vai fazer, o candidato diz como vai fazer.

Do contrário, o novíssimo voto de cabresto, também conhecido como voto de cajado, servirá apenas aos propósitos mais escusos e quem continuará a perder é o eleitor. Se o governante não governa para todos, então talvez esteja governando para si mesmo. Quando a fala do político não  representa os interesses da maioria quem perde é essa maioria e quem ganha são  aqueles para quem ele está cuidando em retribuir o apoio recebido.