Naquele 1975, o feriado da Páscoa ocorrera no final do mês de março. Do dia 28 ao dia 30, 300 mil veículos desceram a serra em direção às praias provocando grandes congestionamentos nas estradas.

Em Peruíbe, milhares de turistas se esbaldaram no limpo mar e fizeram a alegria de comerciantes. A chuva que caiu com força no litoral na madrugada de sábado para domingo fez com que os paulistanos antecipassem a volta para a manhã do domingo de Páscoa, amenizando os engarrafamentos.

Enquanto transcorria o alegre e lucrativo feriado, 28 homens e mulheres — moradores, em sua maioria, das áreas periféricas e zona rural de Peruíbe (mas também de Itanhaém e Mongaguá) — eram apressadamente encaminhados para o Hospital Guilherme Álvaro, em Santos. Em pouco tempo, o pavilhão de isolamento do Hospital já estava com os seus 100 leitos ocupados. Apenas na primeira quinzena de abril, foram 85 internações e dez óbitos. Como os primeiros sintomas eram fortes dores de cabeça, febre e diarreia, os médicos julgaram ser casos de Meningite, epidemia que desde 1974 vinha assolando o país e cujo epicentro era a cidade de São Paulo.

Autoridades sanitárias do Estado afirmavam que:

Nem os pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz sabem ao certo que tipo de doença infectocontagiosa está atacando a região de Peruíbe e proximidades.”

O próprio secretário de estado da saúde, Walter Leser, afirmava que:

“o que está ocorrendo em Peruíbe é um início de epidemia, embora não exista ainda um diagnóstico específico” e pedia à população para evitar “ir a esse trecho do Litoral, a fim de não facilitar a propagação da doença”

(Folha, 14/4/1975, p.8).

A incerteza sobre que tipo de doença assolava o litoral paulista fez surgir na imprensa uma nomenclatura. A Folha de S.Paulo mancheteava em sua capa de 14 de abril “AUMENTA O MAL DE PERUÍBE”, enquanto a revista Veja de 23 de abril de 1975 (Edição 346, p.40) noticiava “O VÍRUS DE PERUÍBE”.

Na verdade, o “Mal de Peruíbe” era uma epidemia de encefalite transmitida pelo arbovírus Rocio (ROCV), da família Flaviviridae e do gênero Flavivirus. Entre 1975 e 1976, foram registrados 1021 casos nas regiões da Baixada Santista e do Vale do Ribeira, com letalidade de 10% e sequelas graves (disfunções no cérebro e no cerebelo, comprometendo a motricidade e o equilíbrio dos indivíduos) em 20% dos doentes. A maioria dos casos, no primeiro ano da epidemia, foram procedentes de Itanhaém, Peruíbe e Mongaguá. No ano seguinte, os casos irromperam nos municípios do Vale do Ribeira. (Iversson, 1977; Lopes,1986; Villela,2009).

Bloqueio sanitário, Hospital de emergência e Voo do veneno

A gravidade da doença e a rápida propagação fizeram a Secretaria de Estado da Saúde, na noite de sexta-feira 11 de abril , divulgar uma nota oficial declarando um cordão sanitário no litoral sul:

“Tendo vista que em Peruíbe, Itanhaém e Mongaguá, além de Meningite, estão ocorrendo casos de uma doença, de natureza grave, com características de Encefalite, causada por vírus, a Secretaria de Saúde desaconselha a ida de turistas e visitantes a estas localidades”.

(OESP, 12/4/1975, p.17)

Em 72 horas, um Hospital de Emergência com 250 leitos foi instalado na Colônia de Férias da Polícia Militar , em Itanhaém , a fim de desafogar os hospitais da região que recebiam os casos (Hospital Guilherme Álvaro e Santa Casa de Santos) e controlar o desenvolvimento da doença. Na tarde de 22 de abril, havia 33 pacientes com encefalite internados no Hospital de Emergência: 12 mulheres e 21 homens; dentre os quais 9 crianças menores de 15 anos. Desse total, 19 eram de Itanhaém, 9 de Peruíbe, 3 de Mongaguá e 1 de Pedro de Toledo. Durante o período em que esteve em funcionamento, de abril até o final de junho, o Hospital de Emergência registrou 234 casos e 8 óbitos.

Na segunda quinzena de abril, com o isolamento do vírus, os médicos já pareciam ter clareza de que a doença que assolava Peruíbe era uma Encefalite. Porém, a dúvida era sobre como se dava a transmissão: os arbovírus (transmitidos por insetos), os entero-vírus (pelas fezes) ou os respiro-vírus (pelas gotículas de saliva no ar). A hipótese mais forte era que a propagação ocorresse via mosquitos. Segundo a Folha (23/4/1975, p.10), a mais nova suspeita recaia sobre uma mosca conhecida pelo nome de mutuca, que é uma variedade das moscas domesticas”.

Assim, áreas afetadas começaram a ser dedetizadas. No mês de junho, iniciou-se a pulverização aérea de trechos das cidades de Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe. Dois aviões despejavam o inseticida Malation numa faixa de 40 quilômetros de litoral. Mas os “voos do veneno” mereceram severas críticas de especialistas.

O engenheiro Dalgas Frisch, vice-presidente da Associação de Preservação da Vida Selvagem alertava que todo o equilíbrio ecológico ficava ameaçado :

“Os pássaros vão morrer, as plantas serão danificadas e os peixes não poderão mais servir de alimento ao homem”.

Segundo o engenheiro:

“Pássaros como ‘Sangue de Boi’, todo vermelho, um dos mais bonitos do Brasil e só encontrado naquela região, desaparecerão por completo, também deverão morrer o ‘Sabiá da Praia’ e cerca de 20 tipos de ‘Beija-flor’ e andorinhas, além de sapos, rãs e aranhas, que, como comedores de mosquitos, são bastante importantes para a harmonia ambiental”.

(Folha, 12/6/1975, p.16)

As vítimas do “Mal de Peruíbe”

Mas quem eram estas vítimas da epidemia de encefalite? Em Peruíbe foram 217 infectados. Destes, 68 eram crianças e estudantes, 56 trabalhadores braçais, 42 dedicavam-se a prendas domesticas, 29 eram pedreiros (LOPES, 1986, p.98). Nota-se, pelas ocupações, que a peste assolou as populações mais vulneráveis e menos favorecidas economicamente, residentes nas áreas periféricas e na zona rural da cidade.

(LOPES, 1986, p.98)

Nas reportagens da época, médicos e especialistas concordavam que a falta de saneamento básico e a desnutrição representaram terreno fértil para a propagação da doença.

“Precisamos dar maior atenção ao nosso homem do campo, o principal atingido pela epidemia”,

afirmava o Dr. Arari da Cruz Tiriba, Diretor-Médico do Hospital de Emergência de Itanhaém (Folha, 30/06/1975, p.10).

Já o Diretor do Pronto-Socorro Municipal de Peruíbe, Dr. José Leo Cardoso, fazia uma análise precisa e clara da situação:

São doenças típicas do subdesenvolvimento. Nas fazendas de banana, por exemplo, os trabalhadores produzem até ficarem doentes — não têm a carteira profissional assinada, e ganham muito menos que o chamado salário mínimo. Sem possibilidades de receberem qualquer tipo de assistência. Basicamente, a desnutrição e a pobreza — baixo nível socioeconômico da população — são as maiores responsáveis pela situação existente”

(Folha, 14/5/1975, p.8).

Na Escola Mista da Vila Operária, uma professora que lecionava para 3ª e 4ª séries alertava que as crianças vinham para as aulas muito fraquinhas (Folha, 14/5/1975, p.8).

Na mesma escola, outra docente relatava:

“Meus alunos dizem: ‘professora, meu pai (ou irmão, irmã, avó, tia ou primo) está com meningite. Posso ir até em casa para esperar a ambulância?”.

Já uma aluna tinha pouco a dizer :

“Meu pai morreu há cinco dias

(Folha, 15/04/1975, p. 10).

Reportagem da revista Veja (346, p.42) relatava o caso de um morador do Bairro dos Prados, “operário da Companhia de Mineração Abel, que teve sua filha de 2 anos internada”.

O poder público, como sempre em momentos de crise, prometia soluções imediatas para problemas que já deveriam ter sido solucionados há tempos. Diante das afirmações de especialistas que a falta de saneamento básico na cidade favorecia a doença , o governador do Estado Paulo Egydio Martins — indicado pelo ditador-general-presidente Ernesto Geisel — determinou que se executasse:

“Um programa urgente de águas e esgotos, destinado a melhorar, a curto prazo, as condições de saneamento básico de Itanhaém e Peruíbe

(Folha, 8/5/1975, p.21).

A determinação do ilustre governador foi tão urgente e em tão curto prazo que a rede de esgoto em Peruíbe demorou 20 anos para chegar apenas à região central da cidade e somente em 2008 começou a atingir áreas mais afastadas. Hoje, segundo o IBGE, 20% da cidade ainda não possui esgotamento sanitário adequado.

Salvar vidas X salvar empregos: o falso dilema

A crise gerada pela epidemia de Encefalite levou à uma guerra de narrativas na cidade. A forma como governantes e parte dos comerciantes peruibenses viam o problema oscilava entre o negacionismo e teorias conspiratórias. Já os médicos, que lidavam com o mal diariamente, denunciavam a real amplitude da doença.

O prefeito da cidade era Benedito Marcondes Sodré, eleito pela ARENA. Em reportagem da Folha (14/5/1975, p.8), o alcaide se dizia “revoltado com a onda de encefalite” e negava que a falta de saneamento básico era a causa da epidemia:

“Os casos registrados são todos na zona rural. No centro da cidade ninguém conhece uma pessoa que tenha contraído a moléstia. Essa história está prejudicando muito a cidade. Ela vive do turismo e com a onda, sofre o comércio, sofre a Prefeitura, começa a sobrar mão de obra e as construções começam a sofrer paralisação.”

Dois vereadores do partido do Prefeito, mas que lhe faziam oposição (particularidades do nefasto regime ditatorial que assolou o Brasil por 20 anos), reconheciam os problemas sociais da cidade, mas pareciam ter outras preocupações. Um deles afirmava que uma grande imobiliária da cidade já havia demitido 30 funcionários. O outro, dono de um comércio, afirmava em tom ameaçador: “Talvez até eu tenha de adotar uma medida dessas”. (Folha, 14/5/1975, p.8 ).

A sinceridade e lucidez de um médico que atuava no Pronto-Socorro da cidade desmontava o argumento da autoridade municipal e dos edis, e ajuda a entender o embate das análises.

Segundo ele, havia duas realidades:

“A da saúde e a dos comerciantes, que só sabem dizer que o lucro caiu. Ninguém admite a existência de casos de encefalite no centro da cidade, mas nós já constatamos dez até o dia 6 de abril”.

(Folha, 14/5/1975, p.8).

Entre os comerciantes, muitos encontraram o culpado pelas praias desertas e restaurantes, sorveterias e hotéis vazios: a imprensa.

“É uma terra abençoada. Temos problemas, mas a imprensa exagera muito. É verdade que existem casos de encefalite, mas nenhum aqui na cidade.

(Folha, 14/5/1975, p.8)

Fake News também se propagaram pela cidade. Uma delas dava conta que o contágio da encefalite ocorreria através da água sulfurosa ou lama negra das Termas de Peruíbe. Sendo assim, os turistas poderiam vir à cidade tranquilamente desde que não se banhassem na lama. Segundo a Folha (11/6/1975, p.12) alguns comerciantes temerosos de serem prejudicados pela ausência prolongada de turistas, levantaram essa questão, mas sem consultar nenhuma autoridade sanitária”. Técnicos da Secretaria da Saúde do Estado tiveram que visitar as Termas e atestar que a informação era infundada.

Na noite de 7 de maio, no amplo salão de festas do Hotel Egeu, em Praia Grande, realizou-se uma reunião entre as Associações Comerciais das cidades litorâneas e o chefe do Distrito Sanitário do Litoral Sul. O objetivo era que a autoridade sanitária pudesse prestar esclarecimentos sobre a epidemia de encefalite e a determinação do Secretário Estadual da Saúde para que as pessoas não viessem ao litoral.

Segundo reportagem da Folha (09/5/1975, p.12), ao final da reunião

“Muitos comerciantes ainda estavam convencidos de que os culpados pela queda no volume de suas vendas são o secretário da Saúde — por suas declarações ‘alarmistas’ — e a imprensa — ‘sensacionalista’ — que divulgou as palavras do secretário.

Os comerciantes acreditavam que tudo não passava de uma campanha difamatória contra as estações balneárias do litoral.

O presidente da Associação Comercial de Itanhaém apresentou um estudo comparando os feriados da Semana Santa (ainda na normalidade) e o de Tiradentes (após a nota governamental que desaconselhava a vinda ao litoral):

“Em 30 de março (Semana Santa) o volume de depósitos nas duas agências bancárias da cidade somava Cr$ 16.208.694,68, e nos feriados de 19 a 21 de abril era de Cr$ 12.668.668,82. Ainda para essas duas épocas, a situação do comércio, em termos de vendas era a seguinte: supermercado, Cr$ 203.649,82 e Cr$ 69.441,20; restaurante, Cr$ 5.475,59 e Cr$ 1.260,00; posto de gasolina 36,840 litros e 5,655 litros e hotel, quarenta reservas para a semana santa e nenhuma para o feriado de 21 de abril.”

(Folha, 09/5/1975, p.12).

Nos postos de pedágio da Via Anchieta houve redução de 50% na arrecadação. Olhando pelo lado financeiro, os dados indicam significativa queda no movimento comercial do litoral após o decreto de quarentena. Mas, pensando no aspecto de prevenção à saúde, nota-se que os turistas compreenderam o perigo de visitar as praias em meio à epidemia.

O governo estadual reconhecia os efeitos negativos que o surto de encefalite causava à economia do litoral sul paulista. A Secretaria da Fazenda determinou “a redução dos recolhimentos, por estimativa, do ICM dos municípios Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe e Praia Grande”, além da prorrogação do recolhimento por três meses. (Folha, 09/5/1975, p.12)

O declínio econômico era inegável, mas plenamente justificável na lógica de que primeiro deve-se pensar em salvar vidas, depois, empregos.

Peruíbe está liberada

No final do mês de junho, começaram a circular notícias sobre a possível liberação do litoral sul paulista. Em 24 de junho, dia de São João (Padroeiro de Peruíbe), o secretário estadual de Saúde, Walter Leser, já passava orientações sobre as férias escolares no litoral:

Desde que as crianças e os pais não se embrenhem no mato, pois é lá que estão os focos da moléstia, não vejo perigo algum nas praias”.

Também afirmava que:

“A situação melhorou: desde o último dia 11 não ocorre nenhum caso na cidade de Itanhaém. E hoje (ontem) houve apenas dois casos: um em Ana Dias [distrito de Itariri] e outro em Itariri”

(Folha, p.10).

Na segunda-feira, 30 de junho, a Folha trazia em manchete: “ENCEFALITE: LITORAL SUL DEVE SER LIBERADO HOJE”. Segundo a reportagem, apenas duas pessoas ainda estavam internadas no Hospital de Emergência de Itanhaém e a doença, que se alastrou pela região nos últimos três meses, agora estava restrita a alguns pontos isolados, mas ainda se despejavam quilos do inseticida Malation nas áreas rurais das cidades.

Em 1 de julho de 1975, finalmente a notícia tão aguardada pelos peruibenses: “PERUÍBE, ITANHAÉM E MONGAGUÁ ESTÃO LIBERADAS” (Folha, p. 18).

Após 80 dias de isolamento e restrição de acesso — às vésperas das férias escolares de julho — o litoral paulista estava novamente disponível para turistas desfrutarem de suas belezas. A jovem Peruíbe ressurgia abalada pelo medo da Encefalite, o trauma das mortes e o impacto econômico decorrente da epidemia. Os comerciantes já poderiam se movimentar para recuperar seus prejuízos e políticos locais poderiam gabar-se da vitória sobre o famigerado vírus e exaltar seus (des)feitos nesta batalha. Já os moradores da cidade — notadamente os das áreas periféricas e rurais, largados à própria sorte, subnutridos e sem acesso a condições mínimas de saneamento, mão de obra barata para o capitalismo selvagem da “indústria do turismo” que movia (e move) a frágil economia peruibense — choravam as vidas que se foram, celebravam ter sobrevivido à peste e aguardavam a próxima chaga.

Produção e Pesquisa: Fábio Ribeiro*

Texto e Reportagem: Fábio Ribeiro *

*Professor de História da Rede Pública e Mestre em História Social pela FFLCH/USP

Postagem: Márcio Ribeiro

Contato: [email protected]

Fontes Consultadas

Jornal “O Estado de S.Paulo” (OESP) disponível em http://acervo.estadao.com.br
Jornal “Folha de S.Paulo” disponível em http://acervo.folha.uol.com.br
Revista “Veja” disponível em https://veja.abril.com.br/acervo/#/editions

VILLELA, E. F. M. V. Estudo histórico-documental da encefalite por arbovírus Rocio no litoral sul do Estado de São Paulo [dissertação de mestrado]. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da USP; 2008. Disponível em : https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6132/tde-07082009-135730/pt-br.php

LOPES, O. S. Encefalite pelo vírus Rocio. Revista do Instituto Adolfo Lutz, São Paulo, v. 46, n. 1/2, p. 95- 101, 1986. Disponível em : http://www.ial.sp.gov.br/resources/insituto-adolfo-lutz/publicacoes/rial/80/rial_46_1-2_1986/n616.pdf

IVERSSON, L. B. Epidemia de encefalite por arbovírus na região sul do Estado de São Paulo, Brasil, em 1975 e 1976. Aspectos da distribuição cronológica e geográfica dos casos. Rev. Saúde Pública, S. Paulo, 11:375-88, 1977. Disponível em : http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89101977000300009

Todos os direitos reservados – Abril de 2020

  • PLINIO MELO

    Fantástico. Essa pesquisa me remte a uma fdase famosa: O povo que nao conhece seu passado, nao tem futuro.

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