Sempre fui indiferente ao senso comum. Se algo está incomodando a ponto de prejudicar a saúde, mudo. E sem novo emprego em vista, foi exatamente o que fiz. No entanto, um mês procurando emprego é suficiente para inquietar alguém que possui responsabilidades de gente adulta.

Apesar do desassossego, mantenho-me em equilíbrio (e levemente imprudente). Sabia que precisava de um emprego mas estava alerta, afinal, conhecia o poder do meu currículo.

Antes de continuarmos, tenha em mente, leitor, que não sou a “Rainha do Balacobaco” no empreendedorismo. Apenas uma designer que gosta de contar histórias.

Pois bem. Enquanto navegava em minha caixa de e-mails deparei-me com um pedido. Alguém queria entrar em contato, por telefone, em horário específico. Logo pensei que fosse algum portfolio que havia enviado. Marcamos um horário.

Uma startup procurava profissionais para seu time de desenvolvimento.

O diretor de negócios me ligou para falar (vagamente) sobre a startup, seu negócio e experiência. Ouvi atentamente seu resumo de nível fundamental sobre o plano de negócio e o que almejava.

Claro que já havia navegado no website, que continha apenas algumas informações estratégicas. Identifiquei que foi feito com Mobirise. O desenvolvedor Front End não teve o cuidado de retirar o hyperlink do logotipo para o website da plataforma drag and drop.

Ao telefone, descobri que o website foi escrito pelo filho adolescente do homem que falava ao telefone. Me contou que o menino era responsável pela área, que era inteligente e talentoso— embora seu trabalho fosse arrastar elementos em módulos pré configurados. Um website é visto por várias pessoas. A WWW é território de vários juízes. A página, seu cartão de visita, era questionável. 

Logo que encontrou uma brecha, me fez a pergunta clichê. Aquela em que temos que escolher se somos empreendedores ou escravos da CLT. É claro que mencionei que estava conversando com pessoas sobre uma possível startup — tive que deixar claro que nada tinha a ver seu modelo. 

Minha desconfiança começou a surgir com a fala deliberada sobre a ideia que sustentaria a empresa. A descrição deveria ser prioridade. Ninguém informa a senha do banco para qualquer um. Poderia ser apenas uma pessoa má intencionada. Eramos dois desconhecidos. Cada um barganhando com o que tinha.

Boas ideias sem bons parceiros são como pão sem padeiro. Ninguém convida um desconhecido para sociedade, por telefone. Vejo o sucesso como amigo íntimo do equilíbrio e coesão. Os pães que você come pela manhã não foram feitos com a falta ou excesso de ingredientes.

Me senti em um processo seletivo comum. Não ganharia nada no início. Precisaria contribuir apenas com meu trabalho. Imagine o terror. Número infinito de sócios em uma empresa, equivalente ao número de pessoas que precisa para fazer a startup funcionar. Ninguém se conhece e todos tem poder de decisão. Como isso funciona de forma disciplinada na prática? Como você leva um exército à guerra sem nunca ter treinado com ele? 

É claro que identifiquei vários abismos nessa história. Era óbvio que a sociedade era uma forma de dizer que trabalho justo não possui preço justo. Uma equação sem lógica. 

Preciso do meu trabalho para pagar minhas contas e deixei isso bem claro ao indivíduo. Ele possui uma empresa para sustentar seus caprichos, eu não. E mesmo se tivesse, jamais jogaria para perder. Cobrei um valor coerente pelo meu trabalho. Se tudo saísse errado, ao menos havia trabalhado por alguma recompensa. Ninguém sairia perdendo.

Depois que fiz minha contraproposta, o sujeito deixou claro que ainda iria entrevistar outros candidatos e que havia alguém com melhor perfil que o meu. 

Nunca pensei em aceitar a proposta. Seria insano demais até para eu, que sou contra maré. Apenas quis testar o adversário para compreender rapidamente com que tipo de pessoa estava lidando.

Nos despedimos após pouco mais de uma hora e meia. Agradeço até hoje por nunca mais ter entrado em contato comigo.

Preciso dizer algo mais para elucidar o título do artigo?

Imagem: Vijay Putra (pexels.com).

  • História interessante Bella, “valor coerente pelo meu trabalho”, uma remuneração justa pelo serviço.
    Muitas vezes a pessoa do outro lado da linha, ou do teclado, não entende que está falando com um profissional qualificado e tem que receber valor coerente com tal perfil, pois o serviço prestado no minimo será profissional.
    Querer um trabalho excelente exige também uma remuneração justa. Adicionar uma pessoa com curriculo excelente ao time exige mais que promessas vazias.

    Você agiu bem nessa situação. Isabella!

    • Oi Guilherme, obrigada pelo comentário. É por aí mesmo! 🙂

  • Rafael Neves

    Muito bom o seu relato, já passei por algumas situações assim também e é realmente engraçada a abordagem dessas pessoas. Como você colocou muito bem, Isabella, em muitos casos a pessoa investe o seu tempo livre e/ou parte de sua renda no empreendimento e espera que você entre investindo todo o seu tempo/talento na construção da plataforma.

    Uma vez fui numa entrevista e discutimos o software, o que precisava ser feito e a duração do projeto. Quando chegamos na parte de salário a conversa mudou completamente, ele passou a dizer que buscava um sócio pra empresa e que por conta disso o salário inicial seria baixo, mas que no futuro, dando tudo certo eu teria uma participação nos lucros. Nada contra essa abordagem, mas ele deveria ter deixado claro desde o início que essa era sua intenção.

    • Nunca abri uma empresa também, e sinceramente, não sei se me vejo fazendo isso. Mas tenho minha própria ideia sobre o que significa empreender. O que as pessoas normalmente esquecem ou nunca dizem para a maioria das pessoas é que empreender além de ser uma equação com muitas variáveis, como você muito bem exemplificou, também requer muito suor e trabalho duro. E uma constante reinvenção de si mesmo. E isso é algo que percebi observando pessoas em empresas.

      É curioso e engraçado. Se procurarmos no dicionário Priberam pela palavra “empreender”, temos o seguinte significado: “Intentar; levar a efeito; dar princípio a (uma empresa)”.

      E se procurarmos por “empreendedorismo”, temos: “Atitude de quem, por iniciativa própria, realiza ações ou idealiza novos métodos com o objetivo de desenvolver e dinamizar serviços, produtos ou quaisquer atividades de organização e administração.”

      Realizar algo, criar novas maneiras de gerir algo, é a mais pura forma de empreendedorismo que existe. Pessoas fazem isso principalmente, nos bastidores. 🙂

  • Rafael Neves

    Agora falando um pouco sobre esse mundo de glamour do empreendedorismo brasileiro, mesmo nunca empreendendo percebo que existe muita propaganda, muito marketing e muita gente se dando bem vendendo uma “forma de empreender com sucesso” que simplesmente não existe(vide Bel Pesce).
    Já trabalhei em startup e percebi que pra dar certo você precisa de variáveis que vão muito além do que se ouve falar: força, dedicação, acreditar no seu sonho…

    • Oi Rafael. Muito obrigada por compartilhar sua história. A intenção é realmente provocar esse tipo de questionamento. 🙂

      Tenho visto aos montes essa abordagem que mencionou sobre empreendedorismo e também, vejo o quanto a fórmula é semelhante para tentar ludibriar as pessoas com novos negócios. E você está certo. Empreender, principalmente no Brasil, não é fácil. Sempre escuto relatos de empreendedores dizendo que, se você é capaz manter uma empresa no Brasil, você é capaz de tudo. E deve ser verdade mesmo.

      O que aconteceu conosco, é que, usando a metáfora do pão, nós abrimos e cheiramos para saber se valia a pena comer, mas, o cheiro era ruim.