Pixerum ou pixerões são nomes dados ao ato de realizar mutirões na cultura tradicional caiçara. Uma cultura pautada pelo convívio em comunidade e que se desenvolveu da mistura dos brancos colonizadores, do índio nativo e do negro escravizado. Uma miscigenação de hábitos e credos. Sim, mas com recortes geográficos e culturais bem definidos. Conceitos que se iniciaram no cenário acadêmico com a antropóloga Gioconda Mussulini, se consolidaram com o professor Antônio Carlos Diegues e seguiram reforçados sob a ótica de outros pesquisadores, como a folclorista Meire Berti.

Pois a partir deste reconhecimento surgiram datas em comemoração à nossa identidade, com foco no resgate e salvaguarda da cultura, mas instituídas diante de um debate sobre legitimidade por conta da escolha da data utilizada em muitas cidades do Brasil e questionada pela comunidade fandangueira.

Bem se sabe que nós caiçaras partimos de uma referência religiosa católica e que de acordo com estas tradições a quaresma deve ser guardada. Portanto, o fandango caiçara não pode ser tocado durante os 40 dias que antecedem a Páscoa. Sendo 15 de março no meio da quaresma, isso impossibilita a participação do maior patrimônio imaterial cultural das comunidades caiçaras, reconhecido pelo IPHAN e pela UNESCO.

Percebamos então que legislações que dizem respeito às comunidades caiçaras, mas não tem o reconhecimento de grande parte de sua gente, não estão de acordo com a Política Nacional de Desenvolvimento dos Povos e Comunidades Tradicionais e nem com diversos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. As legislações vigentes devem atender 100% da população caiçara como vem gritando a Coordenação Nacional de Comunidades Tradicionais Caiçaras, formada por caiçaras de todo o Brasil.

Mais do que uma luta por reconhecimento e proteção ao patrimônio cultural, nós caiçaras buscamos respeito às tradições e à nossa voz na elaboração de políticas públicas que nos dizem respeito, apontando a grande importância de temas como território e legislações ambientais que engessam o modo de vida tradicional.

Como pesquisadora e caiçara, ressalto a importância das atividades protagonizadas pelas comunidades na área de economia criativa, transformando esse produto cultural em fonte de renda, seja no turismo de base comunitária, seja na disseminação de atrações culturais representativas ou no repasse de nossa cultura ancestral. Tudo isso vem ainda ao encontro dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) da Organização das Nações Unidas (ONU), uma agenda global que determina aos países ações para acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar para todos.

Não há como, em uma cultura que preserva o coletivo, acreditarmos que legislações que partem sua comunidade ao meio possam vingar. Como membro participante da construção da Semana da Cultura Caiçara no município de Santos, percebo que não precisamos manter esse aspecto desagregador, sendo necessário alterar tal data, após, é claro, ouvir o maior número de comunidades possível. Ainda que a legislação santista não esbarre no problema da quaresma em nossas comunidades locais, se somos coletivos precisamos fortalecer as batalhas dos nossos. Se ficamos calados, o que contaremos aos nossos filhos e netos sobre nossa história quando ela for deturpada e extinguida? Não sem luta. Arrelá!

Texto e Autoria: Catharina Apolinário *

Caiçara, jornalista, pós-graduada em controle e gestão ambiental e pesquisadora de comunidades tradicionais

Foto e Postagem: Márcio Ribeiro

Publicação Original: Jornal “A Tribuna, domingo 25/03

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