Já me interessava por aves desde pequeno, mas foi como estagiário do Departamento de Meio Ambiente que eu peguei o gosto para identificar e observar as espécies.

Existia uma equipe de Monitores Ambientais naquele setor e, afortunadamente, eu era um deles.

Nas saídas de campo, vistoria de invasões ou na averiguação de denúncias, estávamos sempre atentos às aves que passavam pelo nosso caminho.

A bióloga, Valquíria do Prado (que não trabalhava como bióloga no setor), possuía alguns livros que nos auxiliava na identificação, enquanto o Engenheiro Florestal, Aurélio Fierro,  tirava as fotos.

Lembro de um dia que estávamos na trilha da Cachoeira do Vilão com alguns “peixes-grandes” do governo estadual. Gente importante que estava ali para  liberar algum dinheiro para Peruíbe. Certa hora, interrompi o que parecia ser uma importante conversa para mostrar uma ave para o Aurélio (Não importa os motivos da guerra, os pássaros são mais importantes, filosofei comigo). Para a minha surpresa, o Aurélio saiu correndo para fotografar o bicho, deixando todos os outros perplexos.

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Tinha um italiano que morava no Guaraú (o Jimmy) que não saía do Departamento e, de tanto ir lá resolver coisas, percebeu o meu gosto pelas aves. Ele disse que tinha um ornitólogo no Guaraú que não conhecia as trilhas de Peruíbe e pediu para que eu fosse conhecê-lo. Pelo que eu entendi, eu ensinava as trilhas pra ele, ao mesmo tempo em que  aprendia técnicas de observação. De tanto que o Jimmy insistiu, lá fui eu conhecer um tal de Bruno Lima…

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Naquele tempo, não era fácil e molezinha como é hoje.

Utilizávamos as informações dos livros. Não tinha wikiaves e não tínhamos a exata noção de quais espécies poderiam existir no Guaraú. Também não tinha facebook e nem era modinha postar fotos de aves no orkut pra dizer que é fotógrafo profissional.

Ser pioneiro em uma atividade tem lá as suas vantagens: Tudo era novidade e qualquer bicho era raro para nós.

Lembro de ficarmos extasiados em apenas ouvir a Choquinha-cinzenta em um quarteirão do Guaraú. Só fomos embora quando anoiteceu e voltamos lá por diversas vezes pra ver se ela reaparecia.

Todos os lugares nos reservavam novidades e tínhamos uma grande frustração: Não ter com quem compartilhar os achados,  minha vontade era berrar para que todos soubessem qual bicho eu vi. Os sons eram gravados com walkmans e os arquivos das fitas cassetes foram depositados no site xeno-canto, de grande valia naqueles tempos, inclusive hoje.

Percebendo esta necessidade, tentamos plantar sementes para que outros se tornassem observadores e, por isso, convidamos algumas pessoas para passarinharem conosco.

O professor de Geografia, Tiago Cavalcante, foi um deles. Andamos no seu fiat 147 pela zona rural, Veneza e Guaraú. O Thiago Nascimento que, posteriormente, passou a ser o responsável pelo Aquário de Peruíbe, também foi um dos convidados. Mais tarde ele ajudou na organização do curso Ecoagentes (que também tinha o Adalberto e o Amilton) quando nos convidou para palestrar na primeira turma. Com a ausência do Bruno, tive a responsabilidade de palestrar sozinho para a turma seguinte. Nesta “pegada” de convidar as pessoas, devo umas saídas para alguns amigos até hoje. Um dia eu pago.

Thiago Nascimento e Bruno Lima na zona rural, em data incerta (foto: Márcio Ribeiro)

Bruno Lima era um bom ornitólogo. O melhor que conheci. Sabia o nome da espécie, tipo de som, chamadinho, canto, canto de fuga. Ele era fera! Tinha uma veia cômica e um humor peculiar que rendia umas pérolas, mesmo na frente dos clientes. Certo dia, guiávamos um grupo sedento por aventura e ansiosos pelas aves. Mas neste dia a floresta estava em silêncio. Não se ouvia nada. Nenhum canto, grilo, vento. Estava tudo muito quieto. Toca playback aqui e toca playback lá. Nada. Quem observa pássaros já deve ter passado por isso. Certa hora, quando a frustração começa a aparecer no rosto dos clientes e quando já estávamos acreditando que daquele mato não saía passarinho os olhos do Bruno brilharam com excitante ideia e se vira pra mim sério e diz com grande euforia:

– “Márcio! Liga pro Marcelo (meu irmão) e pede pra ele soltar as gaiolas com os bichos!”.

Surpreso, eu ri. Ele riu. Os turistas não entenderam. O Bruno ainda tranquilizava os turistas dizendo que depois ele colocava de volta todos na gaiola.

Outra vez, após as fotografias que fizemos do Tauató-pintado, passamos a receber grupos interessados em fotografar Gaviões. Recebemos uma porrada deles. Teve um monte de história bacana nesta época. Vou contar uma…

Tinha um senhor com uma baita máquina pendurada no pescoço. Eu mostrava o Gavião lá longe. O Bruno tentava identificar qual era, mas pelo tamanho deve ser uma ave importante. Todos atentos. Era um baita Gavião. De qual espécie? Apronta a máquina. Regula a abertura da lente. Mas que Gavião grande! Ele saiu da árvore e passou em cima das nossas cabeças…

“Eu fiz a foto”, comemora o turista.

“Deixa eu ver”, diz o Bruno.

Seria um Tauató? Harpia? Suspense, respiração ofegante e a sentença final.

“Márcio”, disse o Bruno. “’Chama os tratores, máquinas e correntes. Pode desmatar tudo. Era um Carcará!”

Surpreso, o turista riu. Ele riu. Eu não entendi. Não sei por que fazia isso. Acho que ele também não sabia. Mas todos os clientes voltaram. Ele era fera.

Outro dia, andávamos no Bairro do Costão, perto da folha, quando um bicho chamou a atenção dele.

– “Márcio, pelo amor de Deus, o que é aquilo?”, disse.

Eu olhei e nada vi.

Onde? Perguntei.

“Ali”, disse ele.

Não estou vendo nada!

– “Ali, naquela aroeira”, apontou.

Ali perto daquela Corruíra? Indaguei.

Cadê o binóculo? Disse, incrédulo. “Pqp, era uma corruíra! Cadê a minha granada?”

Eu ri. Ele não! Surpresa e sem entender, a Corruíra voou.

Peruíbe tem um único registro do Apuim-de-costas-pretas e foi lá na zona rural que nós gravamos o som desta espécie. Estávamos no sítio de um amigo e invadimos o sítio vizinho, passando com todo o cuidado por um arame farpado. A mata lá era melhor preservada e tinha um clarão para ver e fotografar. Ouvi ao longe o som de uns periquitos se aproximando e vi a cara do Bruno ficando branca. Trêmulo e sem um pingo de sangue na face, ele falou:

– “Pelo amor de Deus. Grava, Márcio.”

O som passou por cima de nossas cabeças e ele foi correndo atrás e olhando pra cima. Chegando nos arames, ele deu um mergulho na serrapilheira e se jogou por debaixo da cerca farpada. De volta no terreno de nosso amigo, com a roupa cheia de areia e algumas folhas na boca, ele disse:

-Você gravou?

Tem a história dos Guarás-vermelhos de resina e a clássica da Saracura-do-mangue que quase foi parar dentro da geladeira da casa da minha mãe. Mas estas eu deixo para que vocês perguntem diretamente para ele, quando o encontrarem por aí…

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Seguindo o que diziam os manuais ornitológicos, de que existem mais aves na serra do que nas restingas, tese esta que refuto até hoje, por achar a comparação injusta, já que as serras são mais preservadas do que as terras baixas, partimos em direção à estrada do Barra do Una, olhando em qual sítio poderíamos entrar e fazer de lá um local de observação de montanha.

Ter um local para observar aves era uma necessidade para nós naquela época, pois as pessoas não entendiam muito bem o que estávamos fazendo e alguns nos confundiam com os fiscais da polícia florestal. Eles achavam que estávamos denunciando alguma coisa e a história de fotografar aves não colava.

Neste dia, os convidados da vez era o professor de violino, Marcelo Silva e o Valter Jr. Andamos ao longo da Estrada do Una e procuramos um local tranqüilo para subir e ver os bichos que moram na encosta. Passamos em frente à uma chácara com um nome sugestivo e simpático à observação e começamos a nos perguntar se tinha alguém lá dentro. Batemos palmas, chamamos e nada! Vimos que na fachada do sítio tinha um número de telefone e um e-mail e fotografamos para poder revê-lo em outra ocasião para entrar em contato.

Nisso, passou um falcão-relógio e nos afastamos alguns metros do portão para poder vê-lo mais de perto. Olhávamos para o alto, apurávamos os ouvidos por conta da ave e não percebemos que saiu um homem muito mal encarado do sítio onde estávamos minutos antes. Sem querer julgar as pessoas, o homem parecia ter saído das histórias com jagunços de tempos idos. Se estívéssemos perto do Porto do Tocaia, eu iria entender o nome dado ao lugar. Ele parou no meio da rua e começou a nos olhar muito feio, coisa que era muito fácil para ele, por sinal. Acredito que nenhuma das quatro cabeças pensou em ir conversar com ele para tentar um diálogo e, sem combinar nada, começamos a nos afastar do local sem deixar de olhar para trás, quando um barulho de um tiro soou alto em nossos ouvidos e uma fumaça cercou o homem que estava no meio da rua com uma arma na mão.

Nos afastamos com pressa e não ficamos para saber por qual motivo ele tinha atirado e nem fomos tirar satisfações. Percebemos que ele estava disposto a realizar outros disparos, mas parece que ficou contente com a nossa fuga, já que em seguida ele guardou o seu canhão.

Não sabemos se ele atirou para o nosso lado ou para o alto, mas temos a certeza que o episódio encabeçaria a lista das dificuldades já enfrentadas no Guaraú.

Demoramos para voltar ao local do disparo e nem sei se voltamos, pois não lembramos do local exato. Não sabemos quem era aquela pessoa. Não percebemos o perigo que passamos, talvez por conta do pescoço duro. De tanto olhar pra cima, algum setor de identificação de perigo de nossas cabeças não devia estar devidamente irrigado, por isso não funcionou. Ficamos todos bem. O Marcelo e o Valter mantém contato comigo, mas nunca mais voltaram a passarinhar.

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Claro que, por conta da proposta desta história, os aspectos negativos e engraçados foram destacados, mas muitas pessoas também nos ajudaram no começo, fornecendo informações de quais aves apareciam e deixando que entrássemos nos quintais de suas residências.

Uma destas pessoas foi o proprietário do Na Trilha da Juréia (hoje IBIMM), Eduardo Ribas, que nos deixou utilizar, do jeito que queríamos, o espaço da sua propriedade e apoiou o primeiro encontro de observadores de pássaros de Peruíbe. De lá para cá, a atividade vem se consolidando e se popularizando cada vez mais e outras pessoas vem ajudando e contribuindo para escrever a história da observação na cidade, como o Melão Santana, Rubens Martins, Fábio Barata, Amilton, Pedro Behne e alguns outros…

Com tudo isso e com a volta de Bruno Lima que estava no México, podemos dizer que o tiro contra os observadores de pássaros saiu pela culatra.

Bruno e Márcio na cabeceira do rio Guaraú, em data incerta. (foto de Marcelo Ribeiro, de celular)

Criação e Autoria: Márcio Ribeiro

Fotos: Pixabay / Márcio Ribeiro / Marcelo Ribeiro

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