Certo dia, estava revendo Ergo Proxy — considerado uma das vacas sagradas do gênero. O anime supostamente (ou teoricamente), parte principalmente, mas não obstante, da perspectiva do existencialismo sartriano.
Visto que o enredo nos convida à refletir a respeito da eterna busca pela “Raison d’Être” (do francês razão de ser ou razão para viver), questionei-me sobre a consistência de nossa compreensão — motivo para tornar as coisas como são.
Ergo Proxy
Jean-Paul Sartre (Tricolor Magazine, 1945)
Jean-Paul Sartre proferiu uma conferência (o existencialismo é um humanismo) em 1946, para defender o existencialismo de críticas marxistas e cristãs. Em tal conferência, afirmou que, o que caracteriza existencialismo é o fato de que “a existência precede a essência” (Sartre, 1984, p.3 apud MONTEAGUDO, Ricardo, 2004, p.52).

Sartre, para explicar a afirmação, exemplifica:

"Consideremos um objeto fabricado, como um livro ou um corta-papel; esse objeto foi fabricado por um artífice que se inspirou num conceito; tinha, como referenciais, o conceito de corta-papel assim como determinada técnica de produção, que faz parte do conceito e que, no fundo, é uma receita. Desse modo, o corta-papel é, simultaneamente, um objeto que é produzido de certa maneira e que, por outro lado, tem uma utilidade definida: seria impossível imaginarmos um homem que produzisse um corta-papel sem saber para que tal objeto iria servir. Podemos assim afirmar que, no caso do corta-papel, a essência — ou seja, o conjunto das técnicas e das qualidades que permitem a sua produção e definição — precede a existência; e desse modo, também, a presença de tal corta-papel ou de tal livro na minha frente é determinada. Eis aqui uma visão técnica do mundo em função da qual podemos afirmar que a produção precede a existência"
— SARTRE, 1987:5 apud SCZUK, Isaias Kniss)

Segundo Sartre, o exemplo não pode ser atribuído aos seres humanos pois o existencialismo sartriano é ateu. Logo, o homem é seu próprio deus criador. Ele existe, encontra-se no mundo e, posteriormente, define-se a si mesmo. Sartre concebe o existencialismo como doutrina que torna a vida humana possível, na qual o homem tem total consciência e responsabilidade por suas escolhas.

O viés proficiente que nos permite a aproximação quase herética do design com o existencialismo é a razão. A convergência de ideias a cerca do assunto não existe para enfatizar a natureza existencial do ser. Contudo, se faz intrigante aproximar o design do conceito de que, se projeto, é preciso que meu designio possua uma “Raison d’Être”.

O artigo é uma proposta à reflexão — quase delirante — sobre a razão pela qual concebemos Design. Pelo olhar do pensamento sartreano, inicio um ensaio sobre o existir, quando idealizado e projetado.

O arquétipo da razão, quando falamos de design é obscuro. Não somos detentores da verdade absoluta sobre, mas, sabemos que está intimamente ligado à nossa necessidade. Somos seres que utilizam coisas o tempo inteiro. Sejam elas ferramentas vitais para sobrevivência, objetos do dia a dia ou “caminhos” de fácil acesso (como websites, aplicativos, entre outros) para se obter informações. O design existe para validar o motivo pelo qual aquilo que concebemos precisa existir.

Mas e se nosso sentido de existir fosse deturpado pela nossa soberba?

Por exemplo, quando arquiteto todas as entranhas e fissuras necessárias para que um website exista, ou quiçá, uma marca, estou realmente fazendo isso pelo usuário ou por minha própria satisfação? Se a razão de existir do projeto é o cliente, e a do cliente, o usuário final, quem detém da razão? Seja designer, cliente ou usuário final, a verdade, é que não importa o conjunto de razões existenciais do projeto. Todos podem ter a mesma razão, mas por perspectivas diferentes. Portanto, partimos da premissa de que, se algo não possui função, logo, não existe razão de existir.

Mas por que raios estamos filosofando sobre coisas existencialistas?

Ora leitor, a quantidade de informações disponíveis na grande World Wide Web é cada vez maior. O que fazíamos manualmente antigamente, hoje, fazemos em questões de segundos. Temos uma gama de recursos prontos a nosso favor e informações disponíveis para tornar qualquer coisa grandiosa. Mas se há protuberância de informações circulando ao nosso redor, não seria exagero dizer que, podemos facilmente perder o controle de nosso projeto.

É importante definir o que realmente é necessário para se criar algo. Precisamos bloquear a tentação de tornar a “Raison d’Être” do seu projeto, uma série de “para que isso” que só servem encher os olhos de meia dúzia de tolos com coisas que talvez, não sejam necessários para tornar algo verdadeiramente grande.

Profissionais de UX compreendem isso muito bem, ao desenhar interfaces. Existe razão se testo e valido. O projeto falha se o usuário não for capaz de navegar, interpretar, aprender rapidamente e refazer passos sem demora ou dificuldades.

A princípio, pode ser um exercício banal se fazer determinadas perguntas. Mas a profundidade de uma resposta independe do grau de complexidade da pergunta:

  • Por que você projeta?
  • Como valida?
  • É funcional?
  • Se faz compreender?

Nem sempre uma pergunta objetiva receberá uma resposta de igual valor. Se o projeto é um amontoado de coisas bonitinhas mas que não cumpre seu papel, não importa o quão complexo é o design, se não funciona, perde valor, razão.

Se design está para função, então projetamos aprendizado. A essência de algo se renova a medida que o ser humano evolui suas crenças sobre si mesmo. Se nunca paramos de aprender, não é exagero dizer que a razão de ser se renova e desconstrói.

Cabe a nós, a inteligência e maturidade na compreensão das vinculações entre teorias e práticas. É preciso separar o joio do trigo. Nem tudo que se apresenta, possui uma razão de ser. Projetar é despir-se de excessos. Jamais esquecer do objetivo, da necessidade de encontrar a “Raison d’Être” nas vísceras das incertezas. O que o usuário faz do que fizemos é uma variável. Ao encontrar a razão, validamos e expandimos para que o aprendizado se renove pelo olhar e motivo de outros.

Créditos e Referências

Agradecimentos à Rogério Fratin por pacientemente ler meu artigo enquanto rascunho e dar dicas valiosas para melhor compreensão da abordagem.

Imagem 01: Dedos humanos alinhados em tons de cinza. Conceito que parte do afresco “A Criação de Adão”, de Michelangelo. Pexels

Imagem 02: Anime Ergo Proxy. Google.

Imagem 03: Jean-Paul Sartre. Old Magazine Articles

SANTANA, Danielle. Existencialismo – Segmento filosófico que define a essência do ser. Disponível em: < WebArtigos >, acesso em 29/10/2016.

MONTEAGUDO, Ricardo. Rousseau existencialista. Trans/Form/Ação [online]. 2004, vol.27, n.1, pp.51-59. ISSN 0101-3173. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.1590/S0101-31732004000100005 >.

SCZUK, Isaias Kniss. O existencialismo em Jean-Paul Sartre. Disponível em: < Portal Ciência e Vida >, acesso em 31/10/2016.

SARTRE, J. P apud SCZUK, Isaias Kniss. O Existencialismo é um Humanismo. (Os Pensadores). 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1987. PHILIP, T. Sartre, uma introdução biográfica. Trad. Paulo Perdigão e Amena Mayall. 1.ª ed. Rio de Janeiro: Bloch Editores S.A., 1973.

  • Rogerio Fratin

    Isa! Mas que beleza! Eu que agradeço por ter tido a chance de ler antes de todo mundo!
    Bem, daria pra falar aqui “mais que o homem da cobra”, como dizem. Vou tentar ser breve: vejo muita gente separar o joio do trigo e publicar o joio.

    Eu destaco a tua frase no post “É importante definir o que realmente é necessário para se criar algo”. Falando de não-design, para exemplificar, tenho acompanhado alguns cantores se deitarem junto da poesia pra trazer inspirações para suas composições. O resultado é LINDO, como exemplos posso falar da Adriana Calcanhotto com um trabalho bem profundo em Fernando Pessoa, a dupla regional gaúcha Kleiton e Kledir (no disco Com Todas as Letras) onde cada faixa foi feita junto a poetas, o Paulinho Moska, o Leoni, o Arnaldo Antunes. A junção de compositor e poeta trouxe ótimos resultados ao meu ver para o meio que esse tipo de música se insere, mas de repente não seria uma boa ideia para o próximo sucesso do Carnaval 2017 em Salvador. Não estou, aqui, falando que a música do Carnaval seja melhor ou pior do que as do Paulinho Moska, falo que cada uma está num contexto e esse ‘lugar’ deve ser respeitado. Afinal, a complexidade e a simplicidade devem ser amigas, não adversárias. E medir quanto de cada usar é, claro, uma tarefa difícil mas também me parece a mais apaixonante da profissão. O design funciona no equilíbrio, afinal de contas, né?

    E você notou que seu post é metapost sobre Raison d’Être? Você foi atrás do que era essencial e publicou o essencial.
    Parabéns de novo! Tô adorando isso aqui!

    • Isabella Felix

      Se ambos, poeta e compositor estão em equilíbrio, o objetivo se cumpriu. É o que penso sobre Design. Muito obrigada pro participar disso, junto comigo! 😀