Pega-pega, Esconde-esconde, Escambida, Mão-na-mula (estrela-nova-cela) e outras brincadeiras não eram mais praticadas com a ausência da luz solar.

É que a molecada estava com um medo danado do Boi-tatá, que insistia em assombrar o bairro.

Até os mais velhos estavam envolvidos na história e alguns davam testemunhos de que ele estava aparecendo lá pelos lados da Rua Nilo Soares Ferreira.

Tinha gente que identificava marcas de pegadas pela manhã, já que a rua era de areia. Outros diziam ver o animal ciscando o chão e fungando em som alto.

Do buraco da janela das casas de madeira, alguns moradores contavam que ele descia a Rua Taquaritinga e sumia (à galope) pela Rua Riachuelo, rumo à tenebrosa escuridão da linha férrea. Como não havia iluminação pública naquela época, os olhos de fogo do Boi-tatá podiam ser vistos de longe…

Certa vez, ao levar uma surra de vara de marmelo de sua mãe, Rodrigo saiu de casa chorando e começou a andar pelas ruas.

Era meia-noite e negras nuvenzonas podiam ser vistas com o clarão dos relâmpagos. Corujas com pios assustadores, morcegos e outros bichos davam um tom de dar medo até no mais bravio caiçara. Muitos cachorros latiam feito loucos lá pelos lados da Rua Francisco Garcia e isto chamou a atenção do menino que, ao olhar para o lado de lá, viu duas bolas de fogo virando a esquina e vindo em direção à ele.

De medo, a perna do menino travou e ele não conseguiu sair de perto do pé-de-ingá, onde estava. Começou a gritar com toda a força, mas a sua voz não saia de seu aparelho radiofônico.

As bolas de fogo estavam cada vez mais perto e maiores. Rodrigo sentou no chão, escondeu a sua cabeça entre as pernas e começou a chorar. Quando olhou pela última vez, as bolas de fogo haviam se transformado em uma só e sabem o que era? Era a ponta do cigarro do pai de Rodrigo que chegava do trabalho naquela instante.

Texto e Criação: Márcio Ribeiro

Ilustração: www.lusapress.com

Postagem: O Garoçá

Todos os direitos reservados – Novembro de 2016

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