Publicado em 15 de setembro de 2015

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

Considerado um dos mais influentes dramaturgos do Brasil, ele rompeu paradigmas da sua época valendo-se de obras provocativas e polêmicas, mas que abordam o realismo em sua essência, colocando em evidência, de forma extremamente clara e transparente, as mazelas de uma sociedade repleta de traições, moralismos baratos e ganâncias. Assim foi Nelson Rodrigues (1912 – 1980), jornalista e escritor brasileiro que praticamente revolucionou a forma de fazer teatro no Brasil.

É impossível assistir a um espetáculo “rodriguiano” e sair indiferente às reflexões e críticas que este grande teatrólogo nos propõe. Os conflitos apresentados em sua obra assemelham-se por culminarem em tragédias, as quais nos lembram tragédias shakespearianas – obviamente ressalvando cada uma a seu estilo, contexto, peso e época – sobre a sociedade carioca do século XX.

Não é diferente o que se passa na peça O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, em cartaz no Teatro Augusta. Após temporada no Rio de Janeiro, o espetáculo veio para São Paulo, onde permanece por curta temporada até 27 de setembro. No drama, Arandir (Cal Titanero) vê sua vida mudar completamente quando ele beija na boca um rapaz que está prestes a morrer, após ter sido atropelado por um ônibus.

O que para Arandir foi apenas um simples gesto de consideração por um ser humano que perdeu a vida, para as pessoas de seu convívio o beijo levantou inúmeras suspeitas quanto a sexualidade do rapaz e seu comportamento, graças à perspicácia do jornalista Amado Ribeiro (Marcos Breda) – que colocou tal notícia nas manchetes dos jornais a seu modo com o intuito de gerar polêmica e assim obter lucro.

 As distorções midiáticas vão ganhando tal enfoque que acaba por gerar conflitos entre o protagonista, sua mulher Selminha (Danielle Scavone), sua cunhada Dália (Stella Portieri) e seu sogro Aprígio (Alvaro Gomes), cujos segredos abalam ainda mais as relações entre eles.

 Está é a quarta versão de O Beijo no Asfalto feita pelo diretor Marco Antonio Braz. Desprovido de cenários, o drama tem como único enfoque a atuação do elenco, cujo destaque, sem dúvida, vai para Marcos Breda, ator que mais está à vontade em seu papel, atingindo com naturalidade o objetivo do seu personagem de criar tensão na plateia em tom provocativo e sátiro, graças ao jeito malando de Amado Ribeiro.

A peça faz uma boa crítica aos sensacionalismos midiáticos, homofobia, violência policial, entre outros temas que continuam a repercutir nos dias de hoje e por isso conferem ainda mais crédito à imortalidade “rodriguiana”.