Já se perguntou qual sua memória mais antiga? Aquela que, às vezes, ecoa e te lembra que outrora houve um tempo em que existia inocência?

Era criança, acho que estava no Jardim de Infância. A professora havia pedido para toda classe abrir as mochilas pois uma das crianças havia sentido falta do tubo de cola.

Não abri minha mochila. Tinha certeza que não estava comigo pois meus pais haviam me ensinado que não devemos pegar algo de outra pessoa sem permissão.

Então só fiquei ali, parada, observando todas as crianças da sala abrirem suas mochilas e procurarem. A professora veio em minha direção, me questionando por não abrir minha mochila. Claro que havia dito que não peguei nada, pois era a verdade inquestionável em meu coração.

Após revistar minha mochila, lá estava ele. O maldito tubo de cola. Mas, eu não havia pego e lembro-me de dizer isso várias vezes a ela. Devo ter me sentido invadida, envergonhada e triste ao mesmo tempo. Afinal, eu não havia pego nada de ninguém. Esses não eram os valores que eu, uma criança de aproximadamente cinco ou seis anos, havia recebido dos meus pais.

Obviamente, haviam plantado a cola em minha mochila, que se encontrava pendurada atrás da cadeira. E ao lembrar dessa e de outras memórias tão antigas, me assusto o quanto crianças podem ser cruéis, às vezes. Nunca chegarei a uma conclusão. Trata-se de influência ou da forma como somos tratados? Uma aparição faiscante de caráter?

Não importa.

Hoje, eu sinto a mesma sensação de invasão e inverdade. É como me sinto como cidadã brasileira.

Não fui eu quem pegou o tubo de cola e usufruiu sem permissão, mas fui eu quem pagou o pato.