Publicado em 18 de julho de 2015

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

É incrível como em pleno século XXI a incomunicabilidade entre seres humanos continua a marcar forte presença e parece ser um problema eternizado na humanidade, mesmo com aprimoramento constante dos veículos de comunicação, agilizado pelas novas tecnologias.

 Sendo assim, o conflito apresentado na peça A Língua em Pedaços pode muito bem ser aplicado aos dias de hoje, mesmo que se refira a um período equivalente a pouco menos de 500 anos atrás. Escrito pelo premiado escritor espanhol Juan Mayorga, o espetáculo é baseado na autobiografia de Santa Teresa D’Ávila (1515 – 1582) e leva ao público um debate fictício entre ela (Ana Cecília Costa) e um inquisidor (Marco Antônio Pâmio) da Igreja Católica do final da Idade Média.

O drama retrata os desentendimentos entre os dois personagens, enfatizando a forte personalidade de Santa Teresa e sua ousadia em desafiar os poderosos da Igreja Católica, em cuja época era dotada de algumas autoridades eclesiais que não aceitavam ser contrariadas e impunham as suas verdades como absolutas.

Vivendo num monastério aberto por ela mesma para propagar suas ideias, com mais doze irmãs religiosas, Irmã Teresa defendia uma vida simples, humilde, desapegada do materialismo e sempre destinada a servir e amar o próximo. Sua humildade e simplicidade não agradavam muitas das autoridades eclesiais, cujo estilo de vida muitas vezes se diferenciava do que ela defendia. Seu hábito de ler livros como os de histórias fantasiosas, proibidos na época, e sua afirmação de ter tido um contato pessoal com Deus, também eram motivos que levaram o inquisidor a querer condená-la, alegando que um ser como ela jamais poderia ser agraciada pessoalmente pelo Ser mais divino.

Durante os 60 minutos de espetáculo, a intolerância e incomunicabilidade por parte do inquisidor, que simplesmente não aceita dialogar com Irmã Teresa de forma pacífica, galgado em sua opinião, consolidada muito mais pela posição que ocupa na Igreja, pode ser perfeitamente encontrada em diversas situações e setores da sociedade nos dias de hoje. Basta navegarmos por alguns minutos pela internet, especialmente nas redes sociais, por exemplo, para encontrarmos discussões calorosas entre internautas, resistentes a escutar opiniões contrárias as suas, por terem pontos de vista solidificados, seja por pertencerem a um grupo, posição ou setor.

E foi justamente esta “muralha” da incomunicabilidade que Santa Teresa procurou quebrar com sua língua afiada e desafiadora. Sua personalidade é muito bem explorada pela atriz Ana Cecília Costa, que encara com afinco e naturalidade o modo firme, desafiador e obstinado de sua personagem. A Língua em Pedaços tem direção de Elias Andreato.

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